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Tecnologia suíça para armazenamento de CO2 na Islândia

A fábrica da empresa Climeworks, na Islândia, pretende extrair quatro mil toneladas de CO2 por ano do ar. Climeworks

Uma empresa suíça construiu na Islândia a usina de filtragem de CO2 atmosférico de mais alto desempenho do mundo. Esta tecnologia é indispensável para combater o aquecimento global, mas também é controversa.

Este conteúdo foi publicado em 25. outubro 2021 - 11:00

E se as emissões globais de gases de efeito estufa finalmente diminuíssem após décadas de aumento constante?

É o que a empresa suíça Climeworks espera. A líder do mercado global em tecnologia para extração de CO2 da atmosfera (DAC, Direct Air Capture) inaugurou a primeira instalação industrial capaz de filtrar e reciclar CO2 do ar ambiente em 2017. Agora a empresa está estabelecendo um novo marco no caminho para a neutralidade climática.

Em 8 de setembro, a empresa inaugurou a Orca, a maior instalação do mundo capaz de filtrar o CO2 da atmosfera e armazená-lo permanentemente no subsolo. Localizada perto da usina geotérmica Hellisheidi na Islândia, ela pode filtrar até 4000 toneladas de CO2 por ano, o equivalente às emissões de cerca de 600 pessoas na Europa.

>> O vídeo seguinte mostra uma vista aérea da Orca:

Como funciona?

O dióxido de carbono é separado do ar por um filtro especial desenvolvido pela Climeworks. Usando um processo desenvolvido pela empresa islandesa Carbonfix, o gás é então misturado com água e bombeado para as camadas de rocha basáltica a uma profundidade de 800 a 2000 metros, onde se espera que permaneça por milhões de anos.

"A combinação de pressão, umidade e minerais transforma o CO2 em rocha". Tudo o que estamos fazendo é acelerar o processo natural de mineralização", disse Christoph Beuttler, chefe da política climática da Climeworks, à swissinfo.ch. De acordo com o diretor administrativo da Carbonfix, Edda Aradottir, 95% do dióxido de carbono é convertido em pedra em dois anos.

A probabilidade de uma liberação repentina e descontrolada de gás do subsolo é zero, disse Beuttler. "Uma vez que o CO2 está na rocha, nada pode liberá-lo no ar, nem mesmo um terremoto ou uma erupção vulcânica".

>> Veja como funciona a remoção e armazenamento de CO2 na curta animação a seguir:

Poucos locais adequados na Terra

A escolha da Islândia não é um acaso. O país não somente tem condições geológicas favoráveis, mas também é pioneiro no uso da energia geotérmica. O uso de fontes renováveis de energia é um pré-requisito para usinas como a Orca, o que obviamente só faz sentido se elas produzirem menos gases de efeito estufa do que removem da atmosfera.

"O aquecimento global é um problema mundial, portanto, não importa onde o CO2 é removido. Mas para evitar custos de transporte, faria sentido filtrar o dióxido de carbono onde ele será armazenado permanentemente. E não há muitos lugares assim no mundo", diz Beuttler.

De acordo com um relatório de 2020 da Agência Internacional de Energia, quinze usinas DAC estão em operação em todo o mundo com uma capacidade conjunta para capturar mais de 9000 toneladas de CO2 por ano. Em 2022, a empresa canadense Carbon Engineering deverá construir a maior usina do mundo nos Estados Unidos. Ela será capaz de processar um milhão de toneladas de CO2 por ano.

Uma "operação de limpeza gigantesca"

Quando foi fundada em 2009, a Climeworks se comprometeu a capturar 1% das emissões globais até 2025. Mesmo que a meta não seja atingida, as tecnologias com emissões negativas se tornarão cada vez mais importantes.

O Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática das Nações Unidas (IPCC) acredita que elas são indispensáveis se quisermos limitar o aquecimento global a 1,5°C. As emissões estão diminuindo muito lentamente e o CO2 precisa ser removido da atmosfera, diz Holly Jean Buck, da Universidade de Buffalo, autora de um livro sobre engenharia climática. "Esta é a grande limpeza que precisamos fazer neste século", diz ao jornal inglês The Guardian.Link externo

Paralelamente às medidas de redução de emissões, o CO2 terá que ser removido da atmosfera para cumprir as metas estabelecidas pelo Acordo do Clima de Paris, de acordo com a projeção do instituto de pesquisa MCC. MCC - Mercator Research institute on Global Commons and Climate Change

Segundo Christoph Beuttler, da Climeworks, a Islândia sozinha poderia armazenar em seu subsolo todo o CO2 que precisaria ser removido para cumprir a meta climática internacional. "A Islândia tem a capacidade de armazenar 1,2 trilhões de toneladas de CO2 através da mineralização. Estamos muito acima do valor proposto pelo IPCC", diz ele.

CO2 suíço na Islândia?

Como parte de sua "estratégia climática de longo prazo", a Suíça quer compensar as emissões dificilmente evitáveis como da agricultura ou de certos processos industriais com tecnologias de extração e armazenamento de CO2.

Em julho, Berna assinou um memorando de entendimento com a Islândia, no qual ambos os países se comprometem a apoiar esta abordagem. O governo suíço também espera exportar o CO2 produzido para a Islândia, pois ainda não foram encontrados locais adequados para armazenagem profunda na Suíça.

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Energia solar e eólica dos EUA para captura de CO2

A solução proposta pela Climeworks, na qual a gigante americana Microsoft também investiu, é controversa e levanta várias questões.

Se as usinas DAC fossem alimentadas exclusivamente por eletricidade de fontes renováveis, seria necessária toda a produção de energia eólica e solar dos EUA em 2018 para evitar a emissão de 100 milhões de toneladas de CO2, equivalente a um quarto das emissões globais de CO2 por ano, de acordo com um estudo publicado em 2020Link externo. Juntas, estas plantas exigiriam uma área maior do que o Sri Lanka.

Martine Rebetez, professora de climatologia da Universidade de Neuchâtel, reconhece a necessidade dessas tecnologias, mas aponta que ainda há incógnitas em termos de segurança, pegada de carbono e custo. "Neste momento, a coisa mais barata e urgente é parar as emissões de CO2", diz ela ao site de notícias watson.ch.

"Quem pensa que podemos continuar a reduzir as emissões de CO2 lentamente e esperar por uma solução técnica está enganado", concorda Sonia Seneviratne, uma pesquisadora climática do Instituto Federal Suíço de Tecnologia em Zurique.

Preço da inação

Beuttler da Climeworks não duvida da necessidade de tomar medidas para reduzir as emissões: "É a coisa mais importante que podemos fazer para combater a mudança climática". Ele acrescenta, no entanto, que a mitigação acabará se tornando impossível ou tão cara, por exemplo na aviação, que será necessário remover os gases de efeito estufa da atmosfera.

Atualmente, custa cerca de US$ 600 para filtrar e armazenar uma tonelada de CO2, mas no futuro essa quantia poderá ser reduzida para US$ 200, prevê Beuttler: "Plantar árvores é definitivamente uma solução mais barata. Mas seriam necessários três planetas Terra para remover o CO2 apenas através das florestas".

O custo da inação, mesmo levando em conta os danos causados pelos desastres naturais, seria maior de qualquer maneira, diz ele: "Além do custo, as tecnologias de emissão negativa também são uma oportunidade. Eles se desenvolverão em um dos maiores setores econômicos e criarão muitos empregos. Nesta área, a Suíça, que é um dos países líderes hoje, tem um grande interesse em permanecer no topo".

Adaptação: DvSperling

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