Navigation

Suíços têm sentimentos ambíguos em relação a energias renováveis

A Axpo está construindo a maior instalação solar alpina da Suíça na barragem de Muttsee a 2.500 metros acima do nível do mar. A partir do outono de 2021, o projeto AlpinSolar produzirá 3,3 milhões de quilowatts/hora de eletricidade por ano - metade dela no inverno. Axpo

No alto dos Alpes suíços, onde mesmo em meados de junho há neve, trabalhadores instalam painéis fotovoltaicos pela barragem mais alta da Europa, no lago Muttsee.

Este conteúdo foi publicado em 27. julho 2021 - 15:00
Sam Jones, em Linthal

Há muito tempo a Suíça se orgulha de sua reputação de produzir energia limpa: graças à abundância de energia hídrica, menos de 10% da eletricidade que o país produz emite gases de efeito estufa. Ainda assim, atualmente, o complexo processo regulatório da Suíça e as objeções locais a construções possivelmente feias fazem com que novos projetos verdes, como o que vemos na barragem de Muttsee, tornem-se exceções.

A consequência é que uma das sociedades mais ricas e ambientalmente conscientes do mundo corre o risco de sofrer um retrocesso. A Suíça também está prestes a se tornar mais dependente de energia importada, ao mesmo tempo que enfrenta o risco crescente de desligar-se da rede elétrica da UE, graças a uma briga diplomática cada vez mais turbulenta com Bruxelas.

Conteúdo externo

Por volta da próxima década, as três usinas nucleares do país serão fechadas pelo governo. Quando isso acontecer, a Suíça perderá um terço de sua atual geração de energia, e ninguém tem certeza de como essa falta será suprida.

“A ideia do projeto, na verdade, era tentar mostrar uma opção viável”, disse Christian Heierli, líder de projeto da empresa de energia Axpo, no projeto Muttsee AlpinSolar.

A Axpo espera que a instalação – construída com 320 toneladas de material levadas por helicóptero até 2.500 metros acima do nível do mar – mostre o potencial solar da Suíça.

“Há realmente muito poucos projetos [renováveis] de grande escala na Suíça”, disse Heierli. Conseguir licenças para construir usinas eólicas e solares é quase impossível, explicou ele. “Além de pessoas instalando painéis fotovoltaicos nos telhados de suas casas, não há muito mais sendo feito”.

Os painéis solares que estão sendo instalados na barragem de Muttsee estão frequentemente acima das nuvens, mesmo no inverno. Axpo

Berna reconhece que há um problema. De acordo com a Fundação Suíça de Energia, um laboratório de ideias para energias renováveis, no ano passado a Suíça produziu apenas 311kWh de energia por residente a partir de fontes solares e eólicas. Em comparação, a Dinamarca produziu 3.027kWh, a Alemanha 2.232kWh e o Reino Unido 1.304kWh.

O potencial para novas usinas hidrelétricas, que representam 58% do fornecimento de energia, é pequeno, com melhorias nas instalações existentes aumentando a produção apenas em poucas quantidades, alertam os especialistas.

Ao mesmo tempo, no mês passado, a Suíça encerrou as longas negociações que mantinha com Bruxelas sobre um novo acordo-quadroLink externo para sistematizar sua ampla rede de tratados bilaterais.

Como resultado, no início deste mês, o primeiro de vários tratados que regem as conexões suíças com o mercado de energia da UE caducou. Embora haja apenas uma remota chance de a Suíça ser cortada da rede elétrica da UE, sem um acordo permanente com Bruxelas, o país corre o risco de sofrer com custos energéticos mais altos e abastecimentos incertos.

Isso seria particularmente complicado, já que a produção de energia suíça é sazonal: nos meses de inverno, como os rios congelam, o país fica mais dependente da importação de energia para suprir a sua demanda.

“Simplesmente não sabemos como a comercialização de eletricidade com a UE funcionará dentro de cinco ou 10 anos”, disse Christian Schaffner, diretor do Centro de Ciências Energéticas do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique ETH e ex-funcionário do Ministério de Energias da Suíça. “É uma grande incerteza”.

Aumentar o volume de energia renovável produzida domesticamente pode ajudar. Tanto a energia solar quanto a eólica funcionam bem no inverno, graças à geografia da Suíça. No projeto Axpo Muttsee [da barragem do lago Muttsee], por exemplo, os painéis solares produzirão 50% mais eletricidade por metro quadrado do que no vale abaixo. As temperaturas mais frias melhoram a eficiência, a neve reflete a luz de volta para os painéis e muitas vezes o local fica acima da linha das nuvens. Tais características estão presentes em vários locais pelo país.

Muito potencial

O país tem potencial – pelo menos em energia solar – para se tornar um líder europeu. Sem um ambiente regulatório mais flexível, todavia, as oportunidades para novos projetos são escassas.

“O sistema regulatório tem que ser substancialmente adaptado a fim de aumentar a expansão das energias renováveis”, disse Guido Lichtensteiger, porta-voz da Alpiq, uma das maiores empresas de energia elétrica da Suíça.

No mês passado, Berna divulgou um pacote de propostas de mudanças legislativas para tentar incentivar mais projetos renováveis. Para muitos, contudo, as propostas mal tocaram no problema e pouco fizeram para resolver adequadamente o complexo processo de aprovação do país, que está profundamente enraizado no sistema político altamente descentralizado da Suíça.

Um projeto típico para uma nova usina elétrica exige a permissão das agências reguladoras ambientais e energéticas de Berna, seguindo o mesmo processo junto ao governo do cantão onde será construída.

Além disso, são necessárias permissões comunitárias. Como é o caso em toda construção feita na Suíça, um único indivíduo pode se opor. As disputas legais podem durar anos e às vezes são travadas, a um alto custo, até a Suprema Corte.

Em outubro, finalmente foram ligadas as turbinas do Windpark Gotthardpass, um dos maiores projetos renováveis da Suíça. Contudo, foram necessários 18 anos de negociações para que isso se concretizasse.

No referendo nacional feito em 2017 para aprovar as metas energéticas do governo para 2050, os eleitores suíços apoiaram amplamente os planos para mais construções. Berna prevê a construção de mais de 850 turbinas eólicas no país durante as próximas três décadas. Atualmente, são apenas 37.

Contudo, até agora, pouco foi alcançado. Recentemente, os planos para quatro turbinas em Kulmerau-Kirchleerau foram descartados depois que a aldeia local rejeitou as propostas.

“A próspera Suíça é um reduto de oposição local que muitas vezes é explicada como uma tradição federalista”, escreveu o jornal NZZ de Zurique.

“Muito [da consciência] do público não se faz presente”, acrescentou Schaffner sobre a discrepância entre o apoio teórico da Suíça no âmbito nacional e a realidade local de novas construções.

“É interessante pensar que, anos atrás, construímos todas essas represas nos Alpes, mas atualmente não é mais o que queremos. Você provavelmente teria de falar com um cientista comportamental para entender por que isso acontece.”

Copyright The Financial Times Limited 2021

Adaptação: Clarice Dominguez

Participe da discussão

Partilhar este artigo

Participe da discussão

Com uma conta SWI, você pode contribuir com comentários em nosso site.

Faça o login ou registre-se aqui.