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Suíça busca reconhecimento no exterior para profissionais com formação técnica

Será que dar nome de títulos universitários para as formações técnicas superiores não vai gerar confusão? © Keystone / Christian Beutler

As qualificações técnicas profissionalizantes - um dos pilares do sistema educacional suíço - sofrem com a falta de reconhecimento internacional. Mas isso pode mudar se a Suíça introduzir títulos de bacharelado e mestrado para técnicos.

Este conteúdo foi publicado em 23. julho 2021 - 15:00

A Secretaria de Estado de Educação, Pesquisa e Inovação (SERILink externo) está considerando a possibilidade de dar novos nomes às qualificações técnicas superiores suíças a fim de aumentar seu valor no mercado de trabalho internacional. Na momento, está em discussão a criação de duas qualificações: “Bacharelado Técnico" e “Mestrado Técnico”.

A SERI lançou um projeto especial para conduzir "uma revisão holística do atual posicionamento nacional e internacional das escolas superiores de ensino técnico, bem como de seus programas educacionais", informou a Secretaria informou para SWI swissinfo.ch.

O objetivo é verificar se títulos como Bacharelado e Mestrado Técnico - que seriam obtidos em uma escola superior técnica e não em uma universidade - seriam viáveis ​​no cenário internacional.

O ímpeto veio da vizinha Alemanha, que também possui um forte sistema de aprendizagem técnica profissionalizante. No início de 2020 o país vizinho introduziu as categorias de "bacharelado técnico" e um “mestrado técnico”. Na Suíça, várias moções também foram apresentadas ao parlamento - incluindo a mais recente moção Aebischer - que argumenta que os suíços estão sendo prejudicados internacionalmente - e no próprio país - por não terem títulos reconhecidos.

Aebischer pede especificamente que o governo analise “títulos modernos” que “estabeleçam equivalência de títulos e níveis com outras designações de títulos tanto no país quanto no exterior - citando "Bacharelado Técnico" e "Mestrado Técnico".

Por quê?

Se os suíços alcançam regularmente as melhores notas em competições internacionais de qualificação técnica, então por que essa mudança está sendo considerada?

A resposta está em como o sistema educacional suíço está estruturado. Cerca de dois terços dos jovens suíços que não vão para o mundo acadêmico vão para a formação técnica: principalmente um aprendizado que consiste em treinamento no trabalho combinado com a escola profissionalizante. Depois de dois a quatro anos, eles se formam e têm acesso direto ao mercado de trabalho. O desemprego juvenil na Suíça é geralmente bastante baixo (cerca de 8% em 2020Link externo) em comparação com outros países desenvolvidos.

Existem, então, vários caminhos para continuar a formação: fazer o bacharelado técnico permite que os alunos estudem para um bacharelado normal em uma Universidade de Ciências Aplicadas (UAS), as universidades mais orientadas para a prática na Suíça, que são frequentadas principalmente por aprendizes qualificados. Um exame extra é necessário para frequentar uma universidade acadêmica (em geral, apenas cerca de 25% dos jovens frequentam uma universidade acadêmica na Suíça).

Os jovens também podem aprofundar seus conhecimentos profissionais e habilidades de gestão por meio de diplomas federais avançados e escolas técnicas superiores. Isso é conhecido como ensino superior profissional e é uma especialidade suíça. O objetivo é fornecer uma força de trabalho altamente qualificada em áreas como engenharia, saúde, administração e serviços de turismo. Cerca de um quartoLink externo dos jovens que fizeram um aprendizado seguem este caminho.

Essas escolas, no entanto, não são oficialmente reconhecidas pelas autoridades suíças, mas as 430 qualificações que oferecem são.

Ganhando reconhecimento

É a própria singularidade do sistema educacional suíço que está provocando mudanças. Em algumas profissões, como Tecnologia de Informação ou Enfermagem, obter uma qualificação superior já está bem estabelecido. Mas há problemas com o reconhecimento, como apontado por Aebischer em sua moção.

Urs Gassmann, diretor administrativo da Associação Suíça de Graduados em Escolas SuperioresLink externo (ODEC), explica desta forma: “Se você tem alguém formado na Suíça que vai ao exterior como engenheiro de máquinas para construir uma máquina ou liderar um projeto, muitas vezes eles encontram o problema de que seu diploma federal avançado não significa nada para os falantes de inglês”, explicou ele. Ele também confirmou que isso pode acontecer dentro de empresas internacionais ou cadeias de hotéis na Suíça que até mesmo exigem um diploma de bacharel para trabalhar lá.

É por isso que sua organização introduziu um ODEC de Bacharelado Técnico para seus membros em 2006, antecipando que todo o setor terciário acabaria se transformando em Bacharelado, Mestrado e Doutorado. ODEC também apoiaria a mudança para criação de um bacharelado técnico nacional.

As universidades, no entanto, não estão convencidas com a iniciativa de Aebischer. A Swissuniversities, a federação do setor, disse à RTS em 22 de junho:  “Os títulos de bacharelado e mestrado são reservados para a universidade acadêmica. Estender isso a outros tipos de formação causará confusão”.

O governo suíço também se manifestou contra a moção de Aebischer - a segunda proposta, porque  ele apresentou uma semelhante em 2012, que foi rejeitada pelo parlamento. O governo resgatou o trabalho realizado anteriormente para esclarecer que a categoria "ensino superior técnico" está sendo levada em conta - há, por exemplo, agora traduções oficiais para o inglês para alguns títulos. O governo também informou que a Secretaria de Estado de Educação, Pesquisa e Inovação está trabalhando no tema.

Mudanças à frente?

Jürg Schweri, professor do Instituto Federal Suíço para Educação e Formação Vocacional (SFIVETLink externo), disse que por muito tempo a posição oficial suíça era que o ensino técnico superior suíço era mais forte quando considerado como seu próprio caminho com seus próprios pontos fortes.

A visão era que títulos de estilo acadêmico poderiam aumentar a confusão entre as diferentes rotas e diplomas em vez de esclarecê-los e poderia dar a impressão de “rebaixar” os títulos existentes, que são bem aceitos na Suíça em muitas áreas profissionais. Além disso, esses novos títulos não seriam vistos da mesma forma que um bacharelado e um mestrado acadêmico.

“No entanto, a mudança alemã define um padrão porque a Alemanha é o exemplo mais conhecido de um país com uma forte tradição profissional e de aprendizagem técnica”, disse Schweri para SWI swissinfo.ch. “Se a solução alemã for bem-sucedida, pode ser difícil estabelecer uma solução suíça diferente no que diz respeito ao reconhecimento internacional dos diplomas suíços de formação técnica”.

A moção de Aebischer, entregue no ano passado, ainda deve ser debatidaLink externo pela Câmara dos Deputados. Enquanto isso, o relatório da Secretaria de Estado de Educação, Pesquisa e Inovação que trata do assunto é esperado para o final de 2021.

Algumas estatísticas

Havia 35.100 alunos em escolas superiores suíças de ensino técnico entre 2019/20Link externo.  De acordo com os últimos números disponíveis, os cursos mais populares eram enfermagem e administração e, em seguida, formação para professoras de creche e de serviços para jovens.

Estatísticas coletadasLink externo pela ODEC para 2019/20, mostram alguns salários típicos por setor para graduados com diploma profissional superior (estudo em tempo parcial, menos de 2 anos após a graduação). O mais alto é de assistente jurídico: CHF 101.800 ($110.500) por ano. O mais baixo: enfermagem CHF 63.700 ao ano.

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Adaptação: Clarissa Levy

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