Navigation

Startup suíça inventa máquina de fazer pele original

Do tamanho de uma mesa, a máquina denovoCast promete democratizar a produção de pele personalizada para as vítimas de queimaduras. CSEM

Uma startup suíça está dando esperança às mais de 11 milhões de pessoas ao redor do mundo que são vítimas de queimaduras graves anualmente. A empresa desenvolveu a primeira máquina capaz de fabricar pele para enxerto em grande quantidade a partir de uma amostra retirada do próprio paciente.

Este conteúdo foi publicado em 07. julho 2021 - 16:04

“Não é uma pele artificial, mas também não é exatamente pele natural. Para sermos precisos, é um equivalente do tecido cutâneo produzido por bioengenharia”, explica Daniela Marino, cofundadora e diretora da CUTISS, empresa que surgiu em 2017 no Hospital Infantil Universitário de Zurique.

O procedimento é revolucionário: a partir de uma pequena amostra de pele saudável retirada da pessoa queimada, as células cutâneas são “cultivadas” em laboratório e depois combinadas com um hidrogel para obter uma nova pele. Chamada denovoSkin, ela tem um milímetro de espessura, o mesmo tamanho médio da derme e epiderme naturais.

A grande vantagem em relação às técnicas convencionais é que hoje já é possível obter, a partir de uma amostra do tamanho de um selo, quase o equivalente a um jogo americano. “Atualmente, conseguimos multiplicar a área de superfície da amostra original em 100 vezes – e pretendemos chegar a 500”, explica Daniela Marino. Para comparar, o método tradicional consiste em enxertar um pedaço de pele saudável que só pode ser esticado até nove vezes sua superfície. É fácil ver qual o problema quando se trata de pessoas com queimaduras que cobrem 50, 60 e 70% ou mais da pele.

Do laboratório ao mercado

A denovoSkin já passou há muito tempo da fase de protótipo de laboratório. O produto está agora finalizando a segunda fase de seus testes clínicos. Ele recebeu a classificação de “medicamento órfão” (medicamento importante para doenças raras) na Suíça, na UE e nos EUA. Na prática, isso significa que os pacientes já estão recebendo transplantes de denovoSkin, mas não mais do que dois por caso.

O produto também possui aprovações especiais para “uso compassivo” nos casos em que “é capaz de superar qualquer tratamento médico atual para feridas extensas e profundas na pele, com resultados que podem salvar e mudar a vida do paciente”, como escreveu a CUTISS em seu comunicado. Algumas vítimas de queimaduras extensas já foram beneficiadas por enxertos de denovoSkin em grandes áreas de seus corpos.

Após essa etapa, o produto ainda terá de provar sua eficácia em um grande número de pacientes para completar a fase III. Daniela Marino, portanto, não prevê sua chegada ao mercado antes de 2023, “na melhor das hipóteses e se tudo correr bem”.

A máquina que vai mudar tudo

Com seu caráter de alta tecnologia, até mesmo futurista, a denovoSkin não seria um tratamento reservado para os ricos?

“Nós pensamos nisso desde o início. É claro que os países do Sul têm muito mais tragédias relacionadas a queimaduras, além, infelizmente, das causadas pelas guerras”, diz Daniela Marino. No momento, produzimos inteiramente à mão, com uma equipe altamente especializada, em salas esterilizadas, e tudo isso é muito caro. Mas a máquina tornará possível reduzir consideravelmente o preço e tornar o tratamento acessível até mesmo para países em desenvolvimento”.

A máquina é a denovoCast, desenvolvida junto ao Centro Suíço de Eletrônica e Microtecnologia (CSEM), em Neuchâtel. Ela é capaz de fabricar vários enxertos de pele simultaneamente, em um processo completamente fechado, sem qualquer intervenção manual. Seus criadores esperam um ganho de mais de 30% em tempo de produção e uma qualidade consistente.

Uma vez aplicado na ferida, a denovoSkin perde essa bela cor rosa choque e rapidamente assume uma tonalidade natural. CSEM

Assim, a CUTISS parece bem equipada para assumir um mercado estimado em mais de US$ 2 bilhões (CFH 1,84 bilhão) para queimaduras graves e mais de US$ 5 bilhões para reconstrução de cicatrizes de queimaduras – e isso apenas na Europa e nos Estados Unidos. Esse mercado não é um pouco grande para uma empresa que atualmente emprega menos de 40 pessoas? “Existem 20 centros de excelência para o tratamento de queimaduras graves na Europa”, afirma Marino. “Começaremos trabalhando com eles, e isso nós podemos fazer por conta própria. Depois, é claro, teremos de encontrar parceiros.”

Feito na Suíça

Ao longo de toda sua fase de lançamento, a startup se beneficiou do apoio da agência suíça para a promoção da inovação InnoSuisse, mas também do programa Horizon 2020 da União Europeia. Como sabemos, porém, a Suíça acaba de interromper as negociações com Bruxelas sobre um acordo-quadro que tinha como objetivo coordenar esse tipo de colaboração.

Sem querer “intrometer-se na política”, Daniela Marino “espera que esse problema seja resolvido”. Porque um endurecimento das regras que regem o comércio entre a Suíça e a UE poderia ter um impacto sobre sua empresa, que terá de importar e exportar. “Esse projeto começou aqui em 2001, sempre foi suíço e seria bom mantê-lo ‘swiss made’”, conclui a diretora da CUTISS.

Os comentários do artigo foram desativados. Veja aqui uma visão geral dos debates em curso com os nossos jornalistas. Junte-se a nós!

Se quiser iniciar uma conversa sobre um tema abordado neste artigo ou se quiser comunicar erros factuais, envie-nos um e-mail para portuguese@swissinfo.ch

Partilhar este artigo

Participe da discussão

Com uma conta SWI, você pode contribuir com comentários em nosso site.

Faça o login ou registre-se aqui.