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Sons da floresta em chamas trazem de volta espírito de um gênio suíço

A Orquestra de Instrumentos Queimados, um dos destaques no Festival CulturescapesLink externo, tematiza a destruição da Floresta Amazônica e marca o espírito e a genialidade do compositor suíço-baiano Walter Smetak, o pai do "Tropicalismo".

Este conteúdo foi publicado em 21. outubro 2021 - 12:00

Enquanto o autor escrevia este artigo, 81 hectares da Floresta AmazônicaLink externo estavam queimando. E a mesma quantidade de matas perecerá nas chamas durante sua leitura.

Essa escala diária de destruição se tornou tão banal que não é mais notícia. No entanto, iniciativas artísticas como o Festival Culturescapes querem despertar a consciência ao presente e às constantes ameaças não apenas contra a natureza, mas também povos indígenas, cuja subsistência depende dos recursos naturais.

Madeira queimada e morta é também o material utilizado por Marco Scarassatti e Lívio Tragtenberg para construir as esculturas musicais apresentadas na "Orquestra de Instrumentos Queimados".

A dupla brasileira de compositores, trazida à Suíça pelo festival, passou dois meses na remota aldeia de Scuol, no cantão dos Grisões, construindo esculturas sonoras com madeira de origem local.

Após as primeiras apresentações em Chur e Bellinzona em meados de outubro, os artistas se apresentam hoje e amanhãLink externo (21 e 22 de outubro) no Museu Tinguely, na Basiléia, onde suas invenções se destinam a conscientizar sobre a situação das florestas tropicais.

Interação com o público

A música é o som da floresta, o crepitar dos incêndios, mas a experiência também é visual e tátil. Os espectadores são convidados a tocar e tocar as esculturas musicais e "sujar as mãos com fuligem da madeira queimada", diz Scarassatti, que também é pesquisador em educação musical e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (Belo Horizonte, Brasil).

Seu parceiro, Lívio Tragtenberg, é um veterano explorador musical. Ele compôs dezenas de trilhas sonoras para cinema e teatro, principalmente no Brasil e Alemanha, onde passou muitos anos trabalhando no prestigioso "Teatro Popular" (Volksbühne) em Berlim com o diretor Johann KresnikLink externo.

"Conexão" Smetak

A orquestra foi concebida e desenvolvida no Brasil, mas sua vinda à Suíça tem outro significado: tanto o trabalho e a pesquisa de Scarassatti, quanto o de Tragtenberg, estão impregnados das experiências desenvolvidas pelo violoncelista, compositor e inventor suíço-baiano Walter Smetak.

Nascido em Zurique de pais tchecos - seu pai tocava cítara e construía instrumentos - Smetak foi para o Brasil em 1937 contratado para atuar como violoncelista em uma orquestra de Porto Alegre. Porém, ao chegar, esta não existia mais.

Depois foi convidado, em 1957 pelo compositor alemão Hans-Joachim KoellreutterLink externo a lecionar na Universidade Federal da Bahia, em Salvador (a primeira capital colonial do Brasil e o principal centro da cultura afro-brasileira),

Na época, a universidade era o epicentro de uma efervescência cultural que teria um profundo impacto nas cenas artísticas brasileiras e internacionais dos anos 1960...e até hoje. Essa foi a geração que impulsionou um movimento cultuaral chamado TropicáliaLink externo.

Ela fundiu ritmos brasileiros e africanos com a psicodelia britânica e americana e o rock, o popular e o vanguardista, e compreendeu outras formas de arte como o cinema, o teatro e a poesia.

Foi liderado, entre outros, pelos músicos baianos Caetano Veloso, Gilberto Gil, e Tom Zé, seus talentos reforçados pela influência de pensadores culturais europeus refugiados, notadamente Koellreutter, Smetak, e a arquiteta italiana Lina Bo BardiLink externo.

Credo modernista

Estes mestres europeus, entretanto, não estavam lá para "ensinar os bons selvagens" sobre os avanços do Modernismo. Ao invés disso, eles foram completamente tropicalizados por sua própria experiência brasileira e tentaram reeducar seu credo modernista para as soluções locais, improvisações e criatividade do povo comum.

Ao contrário de Bardi e Koellreutter, que ainda mantinham um diálogo intelectual com a vanguarda mais globalizada, Smetak mergulhou profundamente no reino esotérico, misturando teorias teosofistas com as culturas africanas e indígenas locais.

Smetak exibe os instrumentos que criou durante uma reportagem feita pela televisão alemã WDR em Salvador, Brasil, 1976. WDR

Na época de sua morte em 1984, Smetak havia inventado cerca de 200 instrumentos musicais, ou melhor, "esculturas" musicais, que desafiavam o sistema tonal ocidental. Na verdade, sua exploração de microtonsLink externo o aproxima das tradições musicais mais antigas e complexas do Oriente.

"Com o projeto estamos fechando um círculo", explica Tragtenberg. "Apesar de seu enorme corpo de trabalho, e sua influência em círculos mais radicais de compositores contemporâneos em todo o mundo, Smetak ainda é praticamente desconhecido em sua Suíça natal".

Não há praticamente nada publicado em alemão, francês, italiano (idiomas oficiais da Suíça) ou até mesmo em inglês sobre Smetak, embora a Pro Helvetia (a fundação que cuida da cultura nacional) tenha financiado a digitalização de seus arquivos musicais na virada do século. Berlim recebeu em 2018Link externo uma exposição relacionada com colóquios e concertos

Artigos em inglês sobre Smetak e sua obra são quase inexistentes, com algumas notáveis exceçõesLink externo, tais como uma peça aprofundada escrita pelo compositor e pesquisador americano Neil Leonard, do Berklee College of Music (Boston, EUA), publicada em 2015 em uma revista de música canadense.

Mesmo no Brasil a bibliografia sobre Smetak é bastante escassa. O trabalho mais abrangente publicado até agora é de Marco Scarassatti: "Walter Smetak: o alquimista dos filhos" (2008).

Abandono

Os instrumentos originais de Smetak são mantidos no Museu Solar Ferrão, um espaço de arte, cultura e memória, instalado em um dos mais importantes monumentos do centro histórico de Salvador.

Eles encontram-se em mau estado. Seus herdeiros discutem até a possível venda da coleção a uma instituição estrangeira, o que contraria a vontade declarada de Smetak.

Seus cadernos, partituras originais e diários também estão se desintegrando, como sua filha, Bárbara, mostrou ao autor deste artigo há alguns anos, em Salvador.

Outra referência importante para o projeto é o trabalho do pintor, escultor, gravador e fotógrafo Frans Krajcberg. Através do ativismo ambiental, o polonês-brasileiro denunciou a destruição das florestas brasileiras utilizando materiais como madeira queimada de fogos florestais ilegais em suas obras. Credit: Keystone Press / Alamy Stock Photo

Da arte à sucata

As obras de Tragtenberg e Scarassatti na Suíça terão um destino semelhante. Após os concertos, oficinas e exposições promovidas durante o Festival Culturescapes, as esculturas musicais provavelmente serão destruídas por falta de interesse das instituições envolvidas de mantê-las.

"No final, parece que é tudo uma questão de dinheiro e custos, sem nenhuma consideração artística", reclama Tragtenberg. "Pensei até em gravar um vídeo, mostrando o triste ciclo de vida das obras de arte".

Dois meses de trabalho duro para ser construído, exposto em um museu de fantasia (Tinguely) em um fim de semana, para ser jogado no lixo no dia seguinte."

Apesar das implicações culturais, swissinfo.ch foi capaz de atestar seu apelo estético. Durante a tarde passada visitando os artistas em seu ateliê em Scuol, a entrevista foi interrompida duas vezes por turistas perguntando se as obras estavam à venda. "Gostaria de ter pego o número de telefone deles", afirma Scarassatti.

Adaptação: Alexander Thoele

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