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Seriam as línguas clássicas racistas? Não exatamente...

Os estudos clássicos continuam sendo uma prerrogativa das classes favorecidas. Keystone / Jim Hollander

Há várias semanas, tem circulado a notícia de que a prestigiosa Universidade de Princeton teria decidido remover a obrigação de estudar grego antigo e latim, línguas consideradas racistas. Ao menos é o que está sendo dito nas redes sociais. Mas, como sabemos, as redes sociais têm suas próprias verdades.

Este conteúdo foi publicado em 03. setembro 2021 - 15:45

Lendo o comunicado de imprensa divulgado pela universidade, podemos ver que a realidade é um pouco diferente: não foi o estudo das duas línguas clássicas que foi eliminado, mas a exigência de conhecê-las para poder se matricular num programa de estudos clássicos ou religiosos.

O motivo é (aparentemente) simples: nos EUA, os jovens que estudam essas línguas geralmente frequentam escolas de elite, onde a maioria esmagadora dos estudantes (e professores) é branca. Os estudantes afro-americanos ou latinos, que frequentam majoritariamente escolas nas quais não têm acesso a aulas de grego antigo ou latim, ficam assim excluídos dos estudos clássicos na universidade.

Há de fato discriminação, mas não é aquela à qual as redes sociais se referem. Não é o conteúdo dos estudos clássicos que é discriminatório, mas as condições de acesso a eles.

Lucia Orelli Facchini. Lucia Orelli Facchini

Falamos com a professora Lucia Orelli Facchini, vice-presidente da Associação Italiana de Cultura Clássica, membro do Comitê da Associação Suíça de Filólogos Clássicos e filha do falecido poeta e escritor de Ticino, Giorgio Orelli.

SWI swissinfo.ch: O que você acha da decisão da Universidade de Princeton?

Lucia Orelli Facchini: Princeton não falou abertamente sobre isso, mas não há dúvidas de que, se quisermos entender o que está acontecendo, temos que situar esse anúncio no atual contexto de “cancelamentos”, intolerâncias e da luta “contra o racismo sistêmico” do movimento Black Lives Matter. Nos Estados Unidos e na Inglaterra, mas não apenas, é comum a “Cultura do Cancelamento”. Após petições pontuais lançadas por ativistas, estátuas estão sendo derrubadas, retratos estão sendo apagados e livros, removidos. Parece um retorno às queimas de livros da época dos autos da fé. Quem será capaz de escapar deste delírio coletivo?

Estátuas estão sendo derrubadas, retratos estão sendo apagados e livros, removidos. Parece um retorno às queimas de livros da época dos autos da fé”

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Atualmente, a luta legítima por causas justas – contra a discriminação racial, pela igualdade de gênero ou pela igualdade social – corre o risco de, paradoxalmente, tornar-se um obscurantismo.  É evidente que até o grego e o latim estão sendo vítimas disso. Esse não seria um apagamento de aspectos essenciais da história ocidental? É uma história escrita em grande parte em grego e latim!

Aqui na Suíça, o estudo desses idiomas também é reservado a uma elite, como nos Estados Unidos?

Aqui, a escola secundária clássica foi e continua sendo uma experiência grandiosa na democracia escolar, que tornou possível transmitir a cultura tradicional da elite na escola pública, com um ensino da mais alta qualidade. Nessa experiência, o estudo da língua, que está intimamente ligado ao estudo do conteúdo, foi e continua sendo indispensável.

Para que serve o estudo sério da gramática, da sintaxe, da estrutura geral da língua, a consciência etimológica e o exercício da versão dos conteúdos? Tudo isso permite a aquisição de um rigor intelectual, de uma mentalidade filológica e de conhecimentos transversais. Assim, são fornecidas as ferramentas para abordar qualquer conteúdo com uma exatidão criativa. Porque o conteúdo de uma obra deve ser compreendido em seu contexto, mas também se deve ser capaz de traduzi-lo para uma língua moderna e para o tempo presente.

“A iniciativa da Universidade de Princeton não parece visionária e passa uma mensagem equivocada e perigosa”

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Esse exercício favorece a flexibilidade cognitiva, cria conhecimentos “utilizáveis”, prontos para serem generalizados e utilizados em outras disciplinas, inclusive as científicas. Por isso, a iniciativa da Universidade de Princeton não parece visionária e passa uma mensagem equivocada e perigosa. Seria melhor que todos os alunos de ensino médio nos Estados Unidos tivessem o mesmo acesso às línguas clássicas.

Sobre isso, pesquisas realizadas em Berlim nos últimos anos mostraram que o estudo do latim é muito útil para que os estrangeiros aprendam alemão para além do nível básico. O estudo de línguas clássicas ajuda a reconhecer a estrutura de uma língua e facilita a abordagem não apenas das línguas românicas, mas de todas as línguas indo-europeias. Graças às línguas clássicas, os estrangeiros também podem mergulhar na cultura na qual estão imersos e analisá-la criticamente, com suas qualidades e defeitos. O domínio da língua e a compreensão do significado da história são os primeiros remédios contra a desorientação. Assim, podemos dizer que o latim promove a integração.

Na sua opinião, é possível realizar um curso de estudos clássicos sem nunca ter estudado grego ou latim?

Essa é uma questão crucial. De fato, é possível, mas somente na medida em que tudo é possível, até mesmo escalar o Matterhorn de salto alto, se você se dedicar. Mas isso não pode e não deve ser a regra. Em primeiro lugar, porque, como eu disse, ao fazê-lo, renuncia-se logo de partida o aspecto fundamentalmente formador dessas disciplinas: a adoção daquela atitude mental que deve se desenvolver gradualmente ao longo dos anos – digamos, a partir da adolescência.

O ensino médio oferece um rico programa de leituras de obras-primas atemporais e de textos considerados fundadores da nossa cultura. É praticamente impossível retomar toda essa leitura na universidade, quando ainda há muito mais a acrescentar à lista. Lembremos: todo grande texto do mundo grego e latino traz questões inteligentes e sempre relevantes. A educação voltada para a interpretação e o confronto dialético com o passado desta parte do mundo é um processo realizado aos poucos, que leva muito tempo, certamente mais do que os cinco anos da universidade.

“Cursar grego antigo e latim no ensino médio continua sendo uma das melhores portas de entrada para os estudos universitários e politécnicos”

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Qual a situação na Suíça? Ainda há interesse por essas línguas?

A situação na Suíça não é das melhores. Mas o interesse ainda é muito grande. Eu diria que o problema não é tanto a demanda, mas a oferta. A reforma do ensino médio de 1995 jogou o grego e o latim no saco de “idiomas”, em concorrência direta com as línguas modernas. No entanto, sabe-se muito bem que o grego e o latim são línguas “especiais”, pois são estudadas apenas como “línguas de cultura”. Em comparação com os idiomas modernos (e com todos os outros ramos), seu papel é ser integrado a um ponto de vista histórico-literário. É equivocado pensar que podemos escolher entre o inglês e o latim. Devemos escolher o inglês e o latim!

Mas, de modo geral, se considerarmos toda a “perseguição” sofrida pelas línguas clássicas por causa do modelo estrutural da escola, sua resiliência é realmente surpreendente. A próxima reforma do ensino médio, chamada “matu2023”, aumentará ainda mais a competitividade entre as opções nas escolas secundárias. Ao mesmo tempo, os jovens têm cada vez mais medo da precariedade do futuro. Mas agora é possível mostrar, através de dados coletados, que cursar grego antigo e latim no ensino médio continua sendo uma das melhores portas de entrada para os estudos universitários e politécnicos. Permaneçamos então confiantes e nos concentremos na qualidade.

“Hoje, como no passado, aqueles que conhecem o grego e o latim por uma tradição familiar são mais propensos a estudá-los”

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Na Suíça, esses estudos também são um privilégio das classes sociais mais altas, como nos Estados Unidos?

Hoje, como no passado, aqueles que conhecem o grego e o latim por uma tradição familiar são mais propensos a estudá-los. Trata-se muitas vezes de famílias de acadêmicos. Um estudo estatístico feito recentemente mostrou que, no nosso país, os detentores típicos de um diploma de bacharelado são moças suíças, de famílias de acadêmicos e que estudaram línguas clássicas no ensino médio. Esse perfil é o que garante as melhores chances de sucesso nos estudos universitários, sejam eles quais forem. Mas há também cada vez mais estudantes de outros idiomas e culturas, ávidos por todo tipo de conhecimento. Para esses estudantes e suas famílias, a informação é essencial.

Pode-se imaginar que hoje, diante de um currículo escolar considerado tão exigente quanto o das línguas clássicas, muitos pais se perguntam “mas de que adianta falar (sic) grego antigo hoje em dia?”. Muito, ou quase tudo, depende da resposta dada a essa questão ingênua e confusa. Nosso sistema escolar não se preocupa em agir preventivamente, propondo ou dando respostas, promovendo essas disciplinas. Tudo isso depende dos dirigentes de escolas, de todos os níveis, e do próprio corpo docente.

“As línguas clássicas são a matemática das ciências humanas”

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Precisamos reiterar que o grego e o latim não são falados, mas estudados, a fim de entrar na mente dos grandes escritores do passado, que escreveram sobre os campos de conhecimento que se tornaram nossas disciplinas escolares, tais como filosofia, historiografia ética e política, matemática, geometria, medicina, arquitetura, teatro, etc., em obras que influenciaram diretamente nossa cultura. Nunca é demais ressaltar que, em geral, as línguas clássicas educam para a compreensão e a tradução de pensamentos complexos nos mais diversos campos, bem como para a sua interpretação crítica. Elas são a matemática das ciências humanas.

Qual é a sua experiência como professora? A abordagem mudou ao longo dos anos, seja do lado dos alunos ou do corpo docente?

Em trinta anos de ensino (comecei em Zurique em 1991, onde fiquei até 2003, e agora leciono em Ticino), passei por altos e baixos desconcertantes. Percebi que o papel da direção da escola é crucial. Quando a informação circula, tudo funciona como no passado, e até mesmo melhor. Os estudantes, com seus smartphones, leem cada vez menos e muitas vezes chegam ao ensino médio com uma bagagem léxica e cultural mínima. Mas eles ainda são “estudantes”, ou seja, pessoas curiosas, literalmente, “que se dedicam a aprender”.

O grego e o latim os transportam para mundos distantes e, ao mesmo tempo, similares e familiares. Indiretamente, eles enriquecem seu vocabulário e lançam uma nova luz, desde seu interior, à cultura ao seu redor. Por exemplo, aqui no Ticino, eles percebem rapidamente o quanto o latim melhora a qualidade de seu italiano.

Adaptação: Clarice Dominguez

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