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"Pessoas de cor são sempre mais observadas do que as outras"

Pessoas manifestando em março de 2018 nas ruas de Lausanne após a morte de Mike Ben Peter, um nigeriano de 40 anos de idade. Keystone/ Valentin Flauraud

Wilson A.* é um nigeriano naturalizado suíço e vive no país há quase duas décadas. Em entrevista, conta as experiências de racismo e violência policial.

Este conteúdo foi publicado em 22. agosto 2020 - 08:23

Relato recolhido por Jessica Davis Plüss.

"Me emociono ao falar das minhas experiências. Às vezes me critico, achando que estou errado, sendo sensível demais ou até mesmo exagerando, mas há problemas estruturais na sociedade que vejo todos os dias.

As pessoas protestam no mundo inteiro, pois estão fartas e cansadas da situação. Elas não querem mais se silenciar ou se conter quando as pessoas chamam você por nomes ou a polícia para você na rua por causa da cor da sua pele. Falar me liberta dessa solidão e paranoia que sinto ao andar nas ruas.

Eu posso imaginar o que George Floyd e a Eric Garner estavam sentindo. Eu também gritei as mesmas palavras: "Deixe-me respirar". A polícia me tirou do bonde. Eu lhes disse que tinha problemas no coração, mas eles me deram uma gravata a ponto de sentir falta de ar.

O que aconteceu

Segundo o relato de WilsonLink externo, em 19 de outubro de 2009, ele e um amigo estavam em bonde, por volta da meia-noite, voltando para casa em Zurique ao sair de uma festa, quando foram detidos por policiais. Eles pediram as carteiras de identidade e que saíssem do bonde. Wilson solicitou aos agentes que não lhe tocassem, pois tinha acabado de passar por uma operação cardíaca. 

Eles ignoraram a súplica e o seguraram. Então entraram em um embate físico, no qual os policiais usaram spray de pimenta e lutaram com Wilson até ele cair no chão e ser seguro por uma "gravata". Wilson diz que um policial também o insultou por causa da cor da sua pele, dizendo de tinha de "retornar à África".

Os policiais, dois homens e uma mulher, negaram as injustiças e argumentaram mais tarde que estavam apenas se defendendo quando foram agredidos por ele durante um controle. Eles negaram ter sido racistas.

No exame de corpo de delito, é possível ler que um confronto desse tipo com um paciente cardíaco poderia ter sido fatal para Wilsom. Ele e seu advogado fizeram um boletim de ocorrência contra os três policiais, acusando-os de abuso de poder e ameaça.

A audiência foi inicialmente marcada para ocorrer em 2016 depois que o Tribunal Federal anulou as tentativas do promotor e de um tribunal cantonal de arquivar o processo.

O Tribunal de Primeira instância em Zurique absolveu os policiais em abril de 2018. Na decisão, o juiz argumentou que não havia provas suficientes e questionou a credibilidade das declarações de Wilson. Wilson entrou com recurso contra a decisão.

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"Há muitas pessoas boas e coisas maravilhosas na Suíça. É claro que há momentos em que escuto coisas desagradáveis, coisas ditas sem uma razão aparente. Tento ignorá-las, mas isso dói. Às vezes me pergunto: "Será que realmente me encaixo nesta sociedade? Serei alguma vez aceito nela? Será que alguma vez as pessoas vão parar de ficar me olhando?"

Quando cheguei na Suíça, por volta de 2001, havia muito mais negros em Zurique. Mas, com o tempo, as pessoas deixaram o país ou se mudaram para o interior, pois não queriam mais lidar com a violência policial em Zurique.

Até mesmo o ombudsman de Zurique reconheceu as dificuldadesLink externo vividas pelas pessoas de cor. Há até os que perderam suas vidas, mas não se ouve disso nas notícias. As pessoas têm medo de denunciar os casos.

Experiência com a violência policial

Eu já apresentei duas queixas contra a polícia. Em um incidente, agentes me viram andando na frente de um restaurante e então me jogaram contra uma porta em plena luz do dia. Eles pressionaram a minha cabeça contra o vidro e me abriram a boca para ver seu eu não estava escondendo drogas.

No dia seguinte fui ao restaurante com minha esposa, uma suíça-canadense, para ver se alguém o testemunhou o caso. Alguém no restaurante viu tudo e disse que estava horrorizado com o comportamento.

Eu registrei uma ocorrência contra a polícia, mas meu advogado desistiu após seis meses. Agora entendo por quê. Não se pode contar com o sistema para ter justiça. É muito estresse. Eu não estava preparado para uma experiência como essa.

Isso me aterrorizou. Nunca consegui mais me esquecer do caso.

O outro ocorreu em um bonde e foi até noticiado pela mídiaLink externo. Fui asfixiado pela polícia. Isso me faz lembrar o que eles (George Floyd e Eric Garner) passaram. Eles acham que você vai desistir. Há um exame de corpo de delito que mostra os sinais de estrangulamento no meu pescoço.

Eu sei que tenho muita sorte de estar aqui hoje. Alguns não a tiveram.

Pouca transparência

A Suíça não quer que ninguém saiba desses casos. É fácil mostrar que isso está acontece em outros países. 

Ninguém pode dizer que é pior nos EUA, porque não há provas disso. Não existe o uso generalizado de câmeras de corpo (bodycams) na Suíça. Não há nenhum meio de monitorar ações policiais. Pelo menos a polícia é controlada nos Estados Unidos através dessas câmeras.

As pessoas também têm medo de documentar com as câmeras esses incidentes, pois existem os que foram processados e obrigados a apagar as imagens por terem filmado uma ação policial.

Se uma pessoa de cor tira do bolso o celular para gravar uma ação, ela pode sofrer consequências.

A Suíça é um país pequeno e a situação dos negros não é exatamente a mesma como em outros países. Ao visitar um amigo no Canadá, contei a ele que é necessário carregar consigo a carteira de identidade quando saio de casa devido aos controles policiais. Ele disse que eu estava paranoico. É um sentimento que me segue para onde quer que vá. Ela nunca me deixa, essa paranoia de que alguém virá me buscar ou que já estão me procurando.

Engajamento

Eu aderi à Aliança contra os Controles RaciaisLink externo, pois se não nos opormos agora, essa prática continuará. Não se trata só de mim, mas também muitas outras pessoas como os refugiados, muçulmanos ou ciganos. Todos eles têm medo. Queremos sensibilizar as pessoas também fora da Suíça sobre o que está acontecendo por aqui já que há pouca esperança de apoio por parte da Justiça.

Também queremos dar apoio psicológico, pois é muito fácil você se rebaixar e sentir só quando coisas como essa ocorrem. Precisamos falar por aqueles que não podem se manifestar. As pessoas de cor na Suíça sentem-se como se estivessem sendo controladas.

Eu tenho dois filhos e a esperança de ver essas novas gerações continuando a protestar nas ruas dos EUA, Reino Unido ou de Zurique. Sou contra a violência, mas ela é a linguagem daqueles que não são ouvidos. Eu não concordo se alguém faz mal a um inocente, mas você pode entender que muitos estão frustrados. Quando vejo a conscientização crescente e o que está acontecendo nos Estados Unidos, tenho esperança de que essa onda chegue também por aqui."

Boletim de ocorrência

É difícil obter números exatos sobre os casos de violência policial e maus-tratos na Suíça devido à falta de um sistema centralizado de registro. Especialistas em direitos humanos da ONU publicaram, em 2017, um relatórioLink externo contabilizando 29 queixas contra a polícia na Suíça por maus-tratos.

Em 2018, o governo federal declarou no Conselho de Direitos Humanos da ONU que iria criar uma ouvidoria para registrar casos de violência policial e punir os agentes considerados culpados.

Um caso recente: Mike Ben Peter foi preso em Lausanne, em fevereiro de 2018, por suspeita de tráfico de drogas. Ao ser imobilizado pelos agentes policiais, o nigeriano de 40 anos perdeu a consciência e terminou falecendo em um hospital. Na autópsia, os médicos declararam que Peter havia sofrido um ataque cardíaco.

Os seis policiais envolvidos no caso foram acusados de terem provocado a morte do nigeriano. A primeira audiência ocorreu na semana passada e outras se seguirão ao longo dos meses, entre julho e setembro, antes do julgamento.

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 *Nome verdadeiro conhecido pela redação

Colaboração de Simon Bradley, swissinfo.ch.

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