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População suíça perde o interesse em se vacinar

Muitas cadeiras vazias neste centro de vacinação em Mendrisio (Ticino) no dia 29 de junho. Keystone / Pablo Gianinazzi

As vacinas são suficientes, mas não as pessoas dispostas a se vacinar: muitos países ricos enfrentaram esse problema. Na Suíça, a taxa de vacinação estagnou particularmente cedo em comparação com a média internacional.

Este conteúdo foi publicado em 29. julho 2021 - 15:00

“Já se vacinou?”. A pergunta tornou-se a saudação oficial nesta primavera, ao invés do típico “como vai?”. Após os debates do inverno, nos quais se discutia se a Suíça teria ou não encomendado suas vacinas tarde demais ou do lugar errado, a campanha de vacinação prosseguiu rapidamente a partir de abril.

Na Suíça, todos os maiores de 12 anos de idade já podem ser vacinados contra o coronavírus. Mas, assim que a campanha de vacinação ganhou impulso, a Suíça começou a ficar sem pessoas dispostas a se vacinar. A informação é de que há doses suficientes da vacina disponíveis, mas a demanda está diminuindo e, há algumas semanas, o ritmo da vacinação também.

Essa tendência não é apenas na suíça: enquanto as vacinas continuam sendo escassas ao redor do mundo, a população dos países que têm um estoque suficiente está perdendo o interesse em se vacinar.

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Como resultado, desde seu pico em junho, o avanço da campanha de vacinação diminuiu ou pelo menos estagnou no mundo inteiro. Na Suíça, o ritmo é particularmente lento. As autoridades estão reagindo com uma campanha informativa, centros móveis de vacinação e bolos gratuitos para atrair pessoas. Até agora, o sucesso foi modesto.

Déjà-vu

Os países que viram sua taxa de vacinação aumentar um pouco antes da Suíça também conheceram esse mesmo fenômeno.

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Israel, por exemplo, obteve inicialmente muitas doses e vacinou sua população numa velocidade recorde. Recentemente, o país tem registrado um novo aumento de sua taxa de vacinação, pois os adolescentes foram incluídos no programa de vacinação; mas, caso contrário, o ritmo teria diminuído desde abril. Isso também se deve ao fato de que mais de 66% da população de Israel – um país com uma população bastante jovem – já foi vacinada com pelo menos uma dose.

Enquanto os países europeus ainda aguardavam a entrega das vacinas, os Estados Unidos agiam rapidamente. Até que, em abril, a oferta excedeu a demanda e o ritmo da vacinação desacelerou. Vários estados tentaram incentivar a população com recompensas, que vão desde pagamentos em dinheiro até donuts e cigarros de maconha gratuitos. As pessoas vacinadas também não precisam mais usar máscara. Atualmente, cerca de 56% dos americanos estão vacinados.

O Reino Unido foi um dos primeiros países a iniciar uma grande campanha de vacinação. Desde fevereiro, o ritmo da vacinação tem oscilado de forma constante, em grande parte devido ao reabastecimento dos estoques. Mas uma verdadeira mudança no andamento da campanha só veio em junho. A Grã-Bretanha também tentou oferecer recompensas. Por exemplo, no início de julho, foram sorteados bilhetes para a final da Eurocopa. O governo está exigindo a vacinação obrigatória para os trabalhadores de lares de idosos. Hoje, mais de 68% da população já foi vacinada, mas muitos receberam apenas a primeira dose.

Estagnação precoce na Suíça

O andamento da vacinação na Suíça, portanto, está perfeitamente de acordo com a experiência internacional. “Observamos que ocorreu o mesmo em outros países: quando se chega perto de 50% de cobertura, a vontade de ser vacinado começa a diminuir”, disse recentemente à SWI swissinfo.ch Virginie Masserey, responsável pelo controle de infecções do Ministério da Saúde. “Mas é apenas uma desaceleração.”

De toda forma, a desaceleração na Suíça está começando mais cedo do que o esperado. Uma comparação com os países vizinhos mostra isso. Neles, o ritmo está se estabilizando, mas menos rapidamente do que na Suíça e somente após uma proporção maior da população ter sido vacinada.

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Há algumas semanas, pensava-se que a Suíça ultrapassaria a taxa de vacinação da França. Desde então, no entanto, o ritmo caiu na Suíça, e o presidente francês Emmanuel Macron anunciou a vacinação obrigatória dos profissionais de saúde, assim como o uso generalizado do passe sanitário. Essas decisões estimularam a vacinação, e agora a França tem uma parcela maior de sua população vacinada do que a Suíça.

A Itália já vacinou mais de 60% de sua população, mas, ainda assim, a taxa de vacinação está menos estagnada do que nos outros países vizinhos à Suíça. Isso provavelmente se deve à vacinação obrigatória dos profissionais da saúde e ao envelhecimento da sociedade italiana, já que o índice de vacinação geralmente é mais alto entre os mais velhos.

A Alemanha e a Áustria também vacinaram uma proporção muito maior de sua população do que a Suíça, e continuam a progredir mais rapidamente. Como a Suíça, elas concedem certos privilégios aos vacinados (assim como aos testados ou curados). Na Suíça, isso se limita ao acesso a clubes e boates, enquanto na Áustria também é necessário estar vacinado, testado ou curado para ir a restaurantes e museus. Na Alemanha, não há restrições de contato para pessoas vacinadas.

Exceções

Em alguns países, esse cansaço da vacinação só se instala quando a taxa de vacinados excede 65% da população. É o caso da Islândia, do Canadá e da Bélgica. Na Bélgica, a explosão do número de casos pode ter convencido algumas pessoas a se vacinarem. No Canadá, como no Reino Unido, um número relativamente grande de pessoas foi vacinado com apenas uma das duas doses. Na Islândia, a taxa de vacinação chegou a mais de 75% e desacelerou quando o governo anunciou o levantamento de todas as medidas de restrição, no final de junho.

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Há até mesmo países nos quais mal se viu uma queda na taxa de vacinação, apesar do avanço considerável da campanha. A Espanha registra uma cobertura vacinal muito alta entre os funcionários de lares de idosos (cerca de 90%) e hospitais (até 98%), sem ter decretado nenhuma medida coercitiva. Uma situação que enfraquece o debate acerca da vacinação obrigatória na área da saúde.

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Na Espanha e em Portugal, a variante delta está causando um alto número de infecções, o que também se reflete na ocupação de leitos hospitalares. O fato de as pessoas afetadas serem principalmente as não vacinadas pode estimular a vacinação.

Na Dinamarca, há pouco mais tempo que na Suíça, o número de casos também começou a aumentar, mas o sistema de saúde não está perto de colapsar. Recentemente, o governo dinamarquês comprou um milhão de doses de vacina da Romênia.

Mas por que a Romênia tem um excedente de vacinas contra a Covid-19? Todos os romenos já estão vacinados? De forma alguma, a Romênia é um dos países europeus mais atrasados, com apenas um quarto da população vacinada. No entanto, a quantidade de pessoas dispostas a se vacinar está se esgotando. O acesso aos serviços médicos é difícil, mas a desconfiança em relação ao governo é ainda mais generalizada.

A situação na Suíça não é tão extrema. Todavia, como a Suíça tem um bom estoque de vacinas, a atual taxa de vacinação é baixa para os padrões internacionais. Isso talvez mude quando o número crescente de casos se refletir na ocupação das unidades de terapia intensiva. A vacinação compulsória, por outro lado, não é politicamente realista.

Adaptação: Clarice Dominguez

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