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O fim da "guerra sem fim" no Afeganistão apresenta poucas soluções

O rápido e inesperado sucesso do Talibã no Afeganistão traz lembranças da queda de Saigon em 1975. Ao mesmo tempo, representa uma derrota esmagadora para a política externa dos Estados Unidos. A comunidade internacional em Genebra se depara ao dilema de encontrar uma resposta à crise humanitária e violações dos direitos humanos no Afeganistão.

Este conteúdo foi publicado em 20. agosto 2021 - 15:00

A retirada precipitada das tropas e cidadãos americanos do Afeganistão marca o fim da guerra mais longa da história dos EUA. Durante 20 anos os presidentes, sejam republicanos ou democratas, garantiram a presença no país com ajuda da OTAN e outros aliados. A missão deixou de ser uma resposta aos ataques terroristas para ser tornar um programa de reconstrução e reforma (construção do Estado e Nação). Milhares de soldados foram mortos durante o conflito. Mais de 83 bilhões de dólares foram gastos no aparelhamento do Exército afegão e mais de um trilhão de dólares desperdiçados. (O Exército afegão tinha mais de 300 mil soldados equipados e treinados pelos Estados Unidos. O Talibã tem apenas 75 mil combatentes).

Mas o governo afegão nunca conquistou "os corações e o espírito" do povo. Isso ficou mais do que evidente através do rápido sucesso do Talibã na conquista do país e suas cidades. O nível de corrupção e incompetência do governo foi subestimado pelo Exército dos EUA e outros países. Embora a retirada das tropas estrangeiras fosse inevitável e anunciada, a relutância e a incapacidade do Exército afegão de defender o país foi um golpe esmagador. A maioria dos observadores previa um ano ou até 18 meses de combates entre o Talibã e o Exército afegão. Este foi derrotado em apenas 10 dias.

Em uma mudança de governo amplamente bem recebida pelos governos ocidentais - e em Genebra - o presidente Joe Biden declarou ao tomar posse que "os EUA voltaram", prometendo uma política externa mais internacional e multilateral do que a "América em primeiro lugar" do seu antecessor Donald Trump. O golpe no Afeganistão muda a imagem dos Estados Unidos? Como isso afetará o prestígio do país? Eu posso imaginar que já existe um mal-estar entre aliados, dentre eles Taiwan, que hoje questionam a promessa dos EUA de defendê-los.

Acordo de paz ignorado

O potencial da diplomacia e ajuda humanitária de remediar a situação também é questionado. Um acordo de paz assinado em Doha entre os Estados Unidos e o Talibã em 2020 não teve nenhum efeito, incluindo as negociações subsequentes entre o governo afegão e o Talibã, realizadas sob a administração do ex-presidente Donald Trump.

"Os atrasos que vemos do outro lado no progresso das negociações não correspondem ao nosso senso de urgência", declarou o principal negociador do governo afegão, Nader Nadery ao jornal Wall Street Journal, em julho, ao ser questionado sobre a participação do Talibã. "A violência precisa acabar. A guerra precisa acabar. Precisamos chegar a um acordo político", acrescentou. Porém o acordo nunca foi concluído.

No início da semana o aeroporto de Cabul estava tomado por massas. Os Estados Unidos precisam não apenas evacuar seus cidadãos, mas são também moralmente responsáveis por aqueles que trabalharam para eles nas últimas duas décadas e hoje estão sob ameaça. Nem todos que querem partir, poderão fazê-lo. O presidente afegão fugiu sem deixar um governo legítimo e internacionalmente reconhecido.

Embora alguns líderes do Talibã tenham declarado que não irão tomar represálias contra os que ajudaram o governo ou aliados, além de prometer permitir que mulheres continuem a ter acesso ao ensino, o fato de as promessas feitas em Doha não terem sido cumpridas deixa mais do que incerto o futuro dos direitos humanos no Afeganistão. As políticas aplicadas pelo Talibã nas áreas ocupadas se opõem às normas de direitos humanos aceitas internacionalmente.

Sem respostas fáceis

Os que tentam responder à crise humanitária em curso são confrontados a mais perguntas que respostas. Nada garante à comunidade internacional em Genebra que o Talibã irá cooperar. Pois não tem nenhum histórico de cooperação. A Turquia e outros países abrirão suas fronteiras para os refugiados? Como funcionará uma resposta ordeira ao êxodo desde que o Talibã demonstrou pouco respeito às normas humanitárias no passado?

A ajuda ao desenvolvimento só pode funcionar nos países com o consentimento das autoridades governantes. O Talibã aceitará ajuda estrangeira, mesmo humanitária, se estar for dada por países tradicionalmente hostis a um califado fundamentalista? Mesmo as agências de ajuda que trabalham fora da alçada governamental estarão sob pressão para convencer o Talibã do interesse de cooperar.

Lições aprendidas?

É fácil comparar a queda de Saigon, em 1975, com a queda de Cabul. Porém a Guerra do Vietnã foi para deter a propagação do comunismo. E no final, os Estados Unidos perderam a guerra apesar da superioridade militar. Hoje, o Vietnã é um país pacífico e próspero.

A intervenção afegã ocorreu originalmente para combater o terrorismo. Mas esse objetivo falhou. A Al Qaeda e organizações como o Estado Islâmico ainda existem. Mais uma vez, em um diferente contexto, a esmagadora superioridade militar fracassou. Mas é difícil prever que o Afeganistão se torne um país pacífico e próspero como o Vietnã. Provavelmente continuará sendo um país sob governos pouco escrupulosos, que consegui derrotar três impérios: britânico, soviético e, agora, os EUA.

Que lições podem ser tiradas do colapso do governo afegão após 20 anos de apoio ocidental? A mais óbvia é que o poder militar não garante o sucesso em uma guerra assimétrica. Os Talibãs, como os vietcongues, foram capazes de ter sucesso apesar da inferioridade militar. Os "corações e mentes" das pessoas não acompanharam a força militar dos Estados Unidos.

E mais uma vez, como no Vietnã, a inteligência militar foi incapaz de descrever a situação real no terreno.

Será que estas lições serão aprendidas? Não será fácil. A arrogância por trás da intervenção de 20 anos foi originalmente uma reação emocional aos ataques de 11 de setembro, com o presidente George W. Bush enviando tropas americanas ao Afeganistão em resposta. A missão era punir os responsáveis e garantir que o Afeganistão não abrigaria terroristas internacionais.

Com o tempo, tornou-se mais do que isso. Como nos arrozais do Vietnã, os Estados Unidos se atolaram em um terreno desconhecido, pensando que tinham todas as soluções nas mangas. Difícil saber se a queda de Cabul vai mudar essa arrogância. Não há evidências que sustentem essa possibilidade.

Todavia a indispensável e excepcional nação está demasiado sobrecarregada com sua própria imagem. A comunidade internacional em Genebra terá que se mexer para contribuir para a melhora geral da situação.

Adaptação: Alexander Thoele

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