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Pandemia de Covid-19 faz investidores focarem em saúde global

A pandemia de Covid-19 não apenas abalou profundamente a economia mundial, como também foi um catalisador para que a saúde global se tornasse um fator decisivo para investidores. No entanto, ainda não são todos que levam a questão em consideração, argumenta um pesquisador do Instituto de Pós-Graduação de Genebra.

Este conteúdo foi publicado em 23. junho 2021 - 16:15

Ao anunciar a criação do Conselho de Economia da Saúde para Todos, o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, disse: “Chegou a hora de estabelecer uma nova narrativa que veja a saúde não como um custo, mas como um investimento que é a base de economias produtivas, resilientes e estáveis”.

Uma questão fundamental discutida na Assembleia Mundial da Saúde (AMS) deste ano foi o financiamento da iniciativa Covax para compartilhar vacinas de forma equitativa. Tendo o objetivo de entregar dois bilhões de doses até o final de 2021 – uma salvação para países de baixa renda –, ela permanece subfinanciada e com um baixo fornecimento. Se não assegurarmos o acesso global às vacinas contra a Covid-19, um estudo recente constatou que a economia global perderá US$ 9,2 trilhões (CHF 8,29 trilhões). O Banco Mundial, por sua vez, alerta que mais 150 milhões de pessoas cairão na pobreza extrema devido às consequências da pandemia, um número que aumenta pela primeira vez em 20 anos. A Covid-19 tem demonstrado impiedosamente o subfinanciamento sistêmico da infraestrutura de saúde – como leitos de cuidados intensivos, instalações para idosos e a força de trabalho global na área da saúde.

Antes da pandemia, a OMS havia estimado um investimento anual de US$ 371 bilhões para atingir as metas de saúde dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da ONU (SDG3, terceiro objetivo de desenvolvimento sustentável: assegurar uma vida saudável e promover o bem-estar para todos). Essa quantia agora parece minúscula em comparação aos 9 trilhões de dólares que os bancos centrais injetaram para apoiar as economias globais no ano passado – quantias que irão restringir os orçamentos governamentais por anos. O governo do Reino Unido já cortou o seu auxílio ao desenvolvimento no exterior, e no sul da Europa o impacto da austeridade implementada na crise financeira de 2008 repercutiu negativamente na capacidade dos países de reagir à Covid-19. Devemos nos unir urgentemente e construir pontes entre a Genebra internacional e os centros de finanças globais para gerar investimentos sustentáveis na saúde mundial.

Ao mesmo tempo, resgates governamentais relacionados à pandemia têm auxiliado os mercados financeiros, e espera-se que as vacinas abram o caminho para a recuperação econômica. Até o final de 2020, as maiores empresas de investimento do mundo movimentaram mais de 110 trilhões de dólares, diminuindo o poder econômico até mesmo dos governos mais ricos. Esses fundos estão sendo cada vez mais administrados sob parâmetros de responsabilidade, integrando as questões ambientais, sociais e de governança (ESG, na sigla em inglês) nos critérios de avaliação das empresas a receberem os investimentos. Os líderes corporativos também estão sendo responsabilizados pelos acionistas por questões que vão além dos resultados puramente financeiros. É de conhecimento geral nos círculos financeiros que a nova geração de investidores e funcionários trabalhará nesses termos, e os altos escalões das empresas de investimento globais estão atentos.

Até a pandemia, a saúde global não era um foco declarado de investimento sustentável, apesar das reivindicações para incluir métricas baseadas no SDG3 numa expansão do critério ESG, que seria o “ESG + H” (H para health, saúde em inglês). A Covid-19 mudou a situação. Em fevereiro, 150 empresas investidoras – administrando US$ 14 trilhões em ativos – lançaram um apelo conjunto por uma “resposta global justa e equitativa à pandemia”, com o objetivo de incentivar os governos a financiarem o ACT-Accelerator, liderado pela OMS, para promover o acesso equitativo a novos diagnósticos, tratamentos e vacinas contra a Covid-19. Elas entraram diretamente em contato com empresas de saúde, incentivando-as a acelerar a pesquisa e o desenvolvimento, expandir a produção e usar mecanismos como licenciamento voluntário e parcerias intersetoriais para ampliar a produção de vacinas.

Uma vez que os governos são grandes investidores no desenvolvimento de vacinas e acordos de compra antecipada, o lucro de executivos em cinco empresas financiadas pela Operação Warp Speed nos Estados Unidos tem sido visto como extraordinariamente insensível. Relatórios constataram que os gestores em questão haviam vendido as ações de suas empresas, ganhando mais de US$ 250 milhões no ano passado, antes mesmo que as vacinas fossem aprovadas. Essa situação culminou na revolta recente dos investidores na reunião anual da AstraZeneca, na qual 40% dos acionistas, incluindo grandes instituições globais, votaram contra o aumento da remuneração do CEO e a associação da indústria emitiu um aviso.

Além do financiamento, os investidores têm, portanto, duas outras funções administrativas, guiadas pelos princípios da ESG+H: primeiro, envolver os conselhos corporativos e executivos nas prioridades de saúde global; depois, fazer propostas e votar nas reuniões de acionistas como uma forma de fiscalizar e equilibrar. Algumas empresas de investimento fazem um trabalho extremamente minucioso para se envolver com as empresas investidas e garantir que as práticas de votação estejam de acordo com os valores de seus clientes. Entretanto, nos EUA, a Securities and Exchange Commission está preocupada que, com a crescente concentração das ações em algumas grandes empresas, as vozes dos investidores individuais e passivos não estejam sendo ouvidas adequadamente.

A palavra "investidor" pode evocar imagens da alta elite financeira, mas, na verdade, os investidores são pessoas comuns. Além das poupanças e patrimônios dos afortunados, qualquer um de nós que tenha sido empregado provavelmente destinou mensalmente parte do seu salário para a aposentadoria. Esses fundos de aposentadoria são investidos em todo o mundo por investidores institucionais em nosso nome, embora os detalhes de quais empresas possuímos individualmente não sejam normalmente divulgados – exceto o país e o setor em questão. Os acionistas manifestam suas opiniões através de votações nessas instituições, atuando como nossos representantes. Para o futuro, precisamos de canais mais transparentes para abrir o ciclo de feedback entre acionistas individuais e empresas de investimento que administram nossas aposentadorias.

Grandes riquezas vêm com uma influência global inigualável. As maiores empresas de investimento têm um enorme poder de persuasão – uma linha direta para CEOs e formuladores de políticas em todo o mundo. Embora alguns possam achar essa ideia sinistra, com uma administração apropriada, os investidores que olham para além de empresas individuais, setores ou países podem desempenhar um papel positivo na melhoria do acesso a medicamentos. A sociedade civil, os atores globais da saúde, o meio acadêmico e as empresas têm perspectivas bem definidas sobre como tornar os medicamentos disponíveis e economicamente acessíveis, e discordam sobre quem culpar quando os lucros atrapalham. Os investidores também recebem sua parcela de culpa.

Recentemente, por exemplo, a associação da indústria farmacêutica (IFPMA, em inglês) recorreu às expectativas dos investidores para rejeitar o apoio dos EUA a uma suspensão temporária aos direitos de propriedade intelectual para as vacinas contra a Covid-19. No entanto, em uma mensagem compartilhada desde abril de 2020, os investidores enfatizaram que a pandemia não é uma época para fazer negócios como de costume, tranquilizando as empresas investidas de que eles estão preparados para viabilizar recursos para o combate à pandemia.

Essa mensagem precisa ser mais clara e difundida mais intensamente, de forma que a comunidade de investidores contribua para alcançar o objetivo do Dr. Tedros de estabelecer “um novo caminho que assegure que a saúde esteja no centro de todas as ações governamentais e decisões de investimento. Devemos valorizar e investir na saúde como nossa mercadoria mais importante”.

A Covid-19 nos mostrou impiedosamente que o investimento global em saúde é uma parte essencial da construção de um futuro resiliente para o mundo; os administradores de nossas economias para a aposentadoria também têm seu papel a desempenhar.

As opiniões expressas neste artigo são exclusivamente do autor e não refletem necessariamente a posição da SWI swissinfo.ch.

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Adaptação: Clarice Dominguez

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