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O surgimento de um novo inimigo

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Após os atentados do 11 de Setembro, impulsos islamofóbicos substituíram as propagandas antissemitas e anticomunistas de outrora. Democracias saudáveis absorveram isso.  

Este conteúdo foi publicado em 16. setembro 2021 - 10:00

Três homens com capacetes enfeitam o cartaz. Eles estão armados até os dentes com metralhadoras e cintos explosivos. A foto, que atualmente circula por toda a Suíça através dos meios de comunicação social, ilustra uma campanha de petição "contra a imigração em massa sem controle do Afeganistão". A principal reivindicação é: "Toda imigração de muçulmanos para a Suíça" deve ser proibida por dois anos.

Duas décadas após os ataques terroristas nos EUA, tais campanhas contra muçulmanos ainda ocorrem, mesmo em democracias estabelecidas como a Suíça. "Elas satisfazem os medos de muitas pessoas, da mesma forma que a propaganda antissemita e anticomunista costumava fazer", diz Farid Hafez, que leciona sobre os temas racismo e religião na Universidade de Salzburg, na Áustria.

"Viena não pode...."

A Áustria tem experiência com discursos difamatórios. Hafez, que é cientista político, lembra da propaganda de 1985 "Viena não pode tornar-se Jerusalém". No período pós-guerra, os apelos eram alternados entre "Viena não pode tornar-se Moscou" e "Viena não pode tornar-se Chicago", dependendo do clima político. "Desde o 11 de setembro, no entanto, particularmente o partido FPÖ - populista de direita – traz em primeiro plano de seu discurso o pedido de que 'Viena não se torne Istambul'", diz.

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Frequentemente são imagens fortes de agitações sangrentas, bem como de movimentos pacíficos, que contribuem para mudar o discurso político. "Os processos democráticos de formação de opinião funcionam como termômetros, que mostram quais questões movem uma sociedade", afirma Theo Schiller, cientista político de Marburg. Pois em uma democracia, o diálogo político proporciona o equilíbrio necessário de interesses diferentes.

Como exemplo de tal desenvolvimento, Schiller cita um caso da Alemanha: o papel do líder de direita do partido CSU bávaro, Franz Josef Strauss. Sua ascensão foi fortemente influenciada pelo anticomunismo nos anos 60, e mais tarde atingiu um ponto culminante após os ataques terroristas da OLP (Organização para a Libertação da Palestina), nos Jogos Olímpicos de Munique de 1972, e com os ataques da organização terrorista de esquerda RAF (Fracção do Exército Vermelho, na sigla em alemão) contra políticos alemães.

Depois de várias derrotas eleitorais, porém, Strauss afrouxou sua retórica polarizadora. Ele buscava cada vez mais o diálogo - também com os chefes de Estado na DDR (República Democrática Alemã, na sigla em alemão) e na União Soviética. Algo semelhante pode ser visto na atual campanha eleitoral do Parlamento alemão, com a posição da alternativa populista de direita para a Alemanha: "A retórica islamofóbica dos últimos anos se desgastou no cotidiano da vida democrática", observa Schiller.

Minorias religiosas como alvos de iniciativas

Especialmente a Suíça - com seus direitos populares democráticos diretos ampliados – oferece boas oportunidades para que forças políticas menores influenciem a formação de opinião com iniciativas e referendos. Marc Bühlmann, da Universidade de Berna, responsável pelo banco de dados "Swissvotes" em todos os referendos - que até o momento são mais de 650 - diz: "Temos uma longa tradição de anti-iniciativas. Já em 1893, a primeira iniciativa popular apresentada foi dirigida contra a prática judaica de abate de animais", relata ele. No século 20, inúmeras propostas anticomunistas foram postas à votação. "Desde a virada do milênio, são, pois, iniciativas populares críticas ao Islã que também causaram agitação internacional", afirma.        

O antigo anticomunismo ocidental também deixou sua marca na Suíça. Estas podem ser encontrados sobretudo nos debates políticos sobre a compra de armas, porque então são necessárias imagens do inimigo para legitimar as dispendiosas despesas. Durante a Guerra Fria, o governo suíço decidiu comprar o Mirage, um caça que, segundo o chefe da força aérea da época, poderia "levar uma bomba atômica até Moscou".

Iniciativas fortalecem o diálogo

Após os ataques terroristas de 11 de setembro, o "islamismo" assumiu este papel. "Mas muitas vezes não se faz distinção entre o islamismo radical violento e a fé islâmica", diz o pesquisador de Salzburg Farid Hafez.

Esta é outra razão pela qual algumas iniciativas - como as duas iniciativas populares bem-sucedidas na Suíça "Contra a construção de minaretes" (2009) e "Sim à proibição de véus" (2021) - são problemáticas. Ao mesmo tempo, porém, Marc Bühlmann, da Universidade de Berna, está convencido de que, a longo prazo, elas contribuem para um maior diálogo entre diferentes grupos de interesse.

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O jornalista americano Yascha Mounk se mostra menos preocupado com declarações e iniciativas políticas claras contra o comunismo e o islamismo, do que com o fato de que ainda existem, nos dias de hoje, fortes e poderosos apoiadores de ideologias que glorificam a violência. "Uma democracia forte precisa de instituições democráticas fortes", diz Mounk à SWI swissinfo.ch: "Isto inclui a liberdade de expressão como um bem precioso e a rejeição estrita das tendências antidemocráticas, como acabamos de ver nos EUA." Segundo o cientista político de Harvard e autor do best-seller "The Decay of Democracy" (A decadência da democracia, em tradução livre), existe apenas uma receita, a saber, "mais democracia."

Poder das imagens no mundo da democracia

Mulhares de pessoas festejaram a ocupação da Praça de Paris e do Muro de Berlim frente à Torre de Brandenburgo. Thierlein/Ullstein Bild

1989: Queda do Muro, Berlim/Alemanha

Quando o Muro caiu em Berlim, e depois a União Soviética implodiu, o cientista político americano Francis Fukuyama falou sobre o “fim da história”. Mas o antigo conflito Oriente-Ocidente foi logo substituído por uma nova disputa. Neste processo, o mundo muçulmano tornou-se o foco das atenções. Novas guerras, mas também despertares de esperança e conflitos democráticos, foram o resultado. 

Campos de petróleo de Burgan, no Kuwait, em chamas após a invasão do país por tropas iraquianas em 1991. Bruno Barbey/Magnum Photos

1991: Segunda Guerra do Golfo, Kuwait/Iraque

Soldados americanos cercam um tanque iraquiano destruído. No Golfo Pérsico, os EUA traçam as linhas de um novo conflito Oriente-Ocidente.

Leo Erken/laif

1991: Fim da União Soviética

O "fim da história" proclamado pelo cientista político americano Francis Fukuyama continua sendo um breve momento.    

Susan Meiselas / Magnum Photos

2001: 9/11

Após os ataques aos centros de poder nos EUA, o presidente americano George W. Bush declara "guerra ao terror".

Keystone / Laurent Rebours

2003: Terceira Guerra do Golfo, Iraque

Junto com aliados da OTAN - como a Grã-Bretanha e a Dinamarca - os EUA tentam impor valores "ocidentais" no Oriente Médio.

Keystone / Salvatore Di Nolfi

2009: Proibição dos minaretes, Suíça

A resposta suíça ao ‘11 de setembro’ se manifesta nas urnas, com um artigo simbólico constitucional contra a construção de novos minaretes.

Keystone / Muhammed Muheisen

2011: Primavera Árabe

Primeiro na Tunísia e depois em numerosos outros estados árabes, milhões de jovens lutam contra governantes autoritários.

Ti-press / Pablo Gianinazzi

2013: Proibição da Burca, cantão do Ticino/Suíça

Mais uma simbólica política islamofóbica na Suíça: o Ticino introduz uma proibição cantonal da burca, por meio de referendo.

Keystone / Ian Langsdon

2015: Ataques de Bataclan, Paris/França

A organização jihadista "Estado Islâmico" mata 128 pessoas em ataques terroristas em Paris.

Reuters / Arnd Wiegmann

2021: Proibição de uso do véu, Suíça

Vinte anos após os ataques terroristas de 11 de novembro, a maioria dos suíços votou a favor de uma proibição do véu.

Keystone / Stringer

2021: A queda de Cabul, Afeganistão

O fim simbólico das tentativas americanas no Afeganistão para pacificar o país ‘de fora para dentro’ e por meios militares.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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