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O som da nossa terrinha

Ruídos finos emanam da terra no lado sul do edifício do Parlamento Federal, muito mais finos do que o barulho na Câmara dos Deputados. Danielle Liniger

Qual é a sonoridade da Suíça? Ou melhor, que som faz o solo suíço? Se você ouvir com atenção, descobrirá que o solo abriga uma orquestra que normalmente é inaudível, composta por uma infinidade de vozes. O mundo debaixo de nossos pés está longe de ser silencioso. E quando isso acontece, há motivos para preocupação. Os cientistas estão agora tentando entender melhor este universo sonoro subterrâneo.

Este conteúdo foi publicado em 05. março 2021 - 17:00
Marc Lettau, Revue Suisse

A origem da nossa pequena expedição está em uma simples afirmação: nossa pátria é onde temos nossas raízes. Mas o que acontece quando colamos nossos ouvidos no chão: nossas raízes, nosso solo, emitem um som? Para descobrir o "Som da Suíça", o som do solo suíço, fomos primeiro a uma horta na periferia de Berna. Equipado com um bom fone de ouvido, um microfone hipersensível, um dispositivo capaz de gravar sons subterrâneos... e uma boa dose de curiosidade.

Inserção de um microfone ultrafino no solo. Ele amplifica os sons dos organismos que vivem no solo e que o ouvido humano normalmente não ouve. 

Cuidado com os tímpanos

O que ouvimos? No começo, absolutamente nada. Em seguida, um estrondo e uma detonação que fere os tímpanos. A causa: o vento sopre uma folha de grama contra o microfone e a eletrônica transforma o barulhinho em um estrondo. A técnica de gravação é de fato extremamente sensível. A segunda tentativa corre melhor. No solo úmido coberto de folhas de abóbora gigante, o aparelho registra os mais pequenos sons: um pequeno impacto, um som crepitante.

Aparentemente, algo está acontecendo no solo. A cada passo de nossa expedição de quintal, podemos ver cada vez mais claramente a espantosa riqueza do mundo sonoro subterrâneo, e nossa dificuldade em descrevê-lo. Os cães latem, os cavalos relincham, os pássaros piam, as vacas mugem. Mas qual é o som do minúsculo animal invisível para nós no solo rico em composto onde plantamos nosso microfone? Faltam palavras: rangidos, chiados, batidinhas e estalos. E agora, é um barulho de mastigação ou de gorgolejo?

Grandes perguntas

Qual é, por exemplo, o som do "röstigraben", a fronteira cultural imaginária que separa as partes de língua alemã e francesa da Suíça, tema de tanta discussão? Na região que abrange os cantões de Berna e Friburgo, plantamos delicadamente nosso microfone em uma plantação de batatas (o que poderia ser mais normal no Röstigraben?). E nós ouvimos: nada. O quê? Nenhum debate, nenhum conflito? Ou não há nenhuma vida nesta terra arável?

Qual é o som do prado mais famoso da Suíça, o Grütli? Uma chuva que bate sem parar nos impede de saber. Devemos voltar ao terreno patriótico sobre o qual está construído o Palácio Federal. A fachada sul do edifício é coberta com todos os tons de verde. A terra úmida ao redor das árvores no parque finalmente emite os sons discretos com os quais estamos agora familiarizados. Eles são muito mais silenciosos do que o barulho que sempre acompanha os debates dentro do prédio.

Variedade e intensidade sonora: o autor do artigo, Marc Lettau, ouve o solo. Danielle Liniger

Hoje em dia, muitas pessoas fazem coisas estranhas. Então, em frente ao Palácio Federal, uma passante curiosa questiona a reportagem da "Revue Suisse" num tom cordial: "O que você está fazendo aqui?" Resposta: Estamos grampeando as minhocas que vivem ao redor do Palácio Federal. O ceticismo da senhora só termina quando ela coloca os fones de ouvido: "Que loucura! Todos deveriam ouvir isso! Tem vida aí embaixo!"

Uma orquestra subterrânea

Terminamos nossa aventura em um campo molhado nos Pré-Alpes, perto de uma floresta. Colocamos nosso microfone novamente no chão, colocamos nossos fones e, de repente, o famoso silêncio das montanhas desaparece. Este mergulho em um mundo de som que geralmente é inaudível muda nossa percepção: pensávamos que a terra estivesse muda, mas agora ouvimos uma orquestra de várias vozes.

Pequenos colêmbolos (Collembola) rastejam através do adubo. Eles fazem parte da orquestra subterrânea na qual também tocam ácaros, larvas de mosca, isópodos, minhocas, aranhas, centopeias, besouros, gafanhotos e cigarras. Foto Marie Louise Huskens

Desde o verão de 2019, durante os seis belos meses do ano, homens e mulheres, equipados com sólidos equipamentos técnicos, viajam pela Suíça para ouvir o que há no solo. Essas pessoas fazem parte do projeto de pesquisa "Sounding Soil" (ver quadro), que reúne cientistas e cidadãos comuns. Esta abordagem científica participativa torna possível a coleta de mais dados para pesquisa.

Pequenos colêmbolos atravessam o substrato. Eles fazem parte da orquestra subterrânea na qual também tocam ácaros, larvas de mosca, percevejos, minhocas, aranhas, centopeias, besouros, gafanhotos e cigarras. 

Atrás de todos os sons gravados estão escondidos organismos pequenos ou microscópicos. Mas que barulho eles fazem? A bióloga Sabine Lerch, responsável pelo projeto "Sounding Soil" na Fundação Biovision, não tem uma resposta precisa: "Não sabemos. Somos os primeiros no mundo a tornar o solo audível desta forma. Mas a pesquisa ainda está em seus primórdios. Neste momento estamos nos concentrando no b.a.-ba: "Quanto mais variados os sons, mais diferentes grupos de animais existem. Quanto mais intensos os sons, mais ativos são a mesofauna e a microfauna".

Nova disciplina científica

Diversidade e intensidade sonora: "Estes dois fatores fornecem informações sobre a presença e atividade dos animais que vivem no solo", diz Lerch. No final de 2021, a pesquisa mostrará se estes dois fatores podem ser usados como método de medição para avaliar o estado do solo. Se este for o caso, seria um grande avanço para a nova disciplina científica que está se desenvolvendo aqui: a eco-acústica. Um de seus iniciadores mais conhecidos é o pesquisador suíço Marcus Maeder. A eco-acústica poderia um dia se tornar uma ferramenta para tomar o pulso da biodiversidade.

Marcus Maeder é originalmente um musicólogo. "Um campo plantado com aveia orgânica soa mais cheio do que um campo de batata convencional", diz ele. Mas critérios artísticos não são primordiais quando ele mede o universo sonoro subterrâneo, porque o que mais lhe interessa é a saúde do solo. O solo suíço está em más condições em muitos lugares, diz Sabine Lerch: "Em muitos aspectos, nosso solo está sob pressão. Estamos construindo sobre ele, impermeabilizando-o, usando-o muito intensamente e arando ele com maquinário cada vez mais pesado". A adição de produtos químicos nocivos, tais como pesticidas e fertilizantes, também causa danos.

Ruídos no solo em Gais, no cantão de Appenzell:

Ruídos no solo em Trub, no cantão de Berna:

Ao mesmo tempo, a bióloga observa que os políticos e o público em geral raramente se interessam pelo estado do solo. Muitas pessoas o vêem como apenas uma "superfície". Até mesmo quem pretende conservar a natureza se concentra mais na biodiversidade sobre a terra do que na biodiversidade que se encontra debaixo dela: "Isso é compreensível, porque estamos focados no que vemos, no que desperta imediatamente as emoções em nós".

Dando voz ao chão

"Sounding Soil" não é apenas um projeto de pesquisa, mas também uma tentativa deliberada de conscientização: "Queremos dar uma voz ao solo", diz Sabine Lerch. Afinal, o que acontece no subsolo nos afeta a todos: "Estou pensando, por exemplo, no papel do solo na gestão do abastecimento de água ou na produção de alimentos". Na melhor das hipóteses, ouvir o solo não só produzirá resultados científicos, mas também levará a uma nova percepção do chão em que vivemos e que nos sustenta. E no pior caso, os microfones desenvolvidos por Marcus Maeder simplesmente registrarão a trilha sonora da mudança climática e da perda da biodiversidade.

Como soa um pasto alpino orgânico? E um campo cultivado de forma intensiva? Como soa o chão da floresta?

Sounding Soil 

O "Sounding Soil" é um projeto de pesquisa interdisciplinar que estuda os sons do solo. Para simplificar, este projeto, que terminará em 2021, analisa como e por que os solos emitem sons diferentes, dependendo de seu uso. O resultado provisório é que quanto maior a diversidade de organismos que vivem no solo, mais complexo é o som que emite.

O "Sounding Soil" é um projeto envolvendo seis instituições: a Escola Superior de Artes Aplicadas de Zurique (ZHdK), a fundação para o desenvolvimento ecológico Biovision, o Instituto Federal Suíço de Pesquisa Florestal, Neve e Paisagem (WSL), o Observatório Nacional de Solos (NABO), o Instituto de Ecossistemas Terrestres do ETH Zurich e o Instituto de Pesquisa para Agricultura Orgânica (FiBL).

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Este artigo foi publicado originalmente na Revue SuisseLink externo.

Adaptação: Fernando Hirschy

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