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O que a Suíça pode fazer na rivalidade EUA-China

Joe Biden se encontrou com Xi Jinping várias vezes, inclusive durante uma visita oficial do Estado chinês em 2015, quando servia como vice-presidente na administração de Barack Obama. Copyright 2021 The Associated Press. All Rights Reserved.

Nesta primavera, a Suíça revelará sua primeira estratégia de política externa sobre a China, seu terceiro maior parceiro comercial. Ela virá em um momento em que os Estados Unidos estão elaborando seu próprio plano para lidar com um país que o novo presidente chamou de "o concorrente mais sério dos Estados Unidos".

Este conteúdo foi publicado em 19. março 2021 - 15:30

Uma ação conjunta para administrar as relações com o poder asiático tem sido há muito tempo um pedido dos parlamentares suíços. Mas foi somente nos últimos dois anos que o governo se propôs a elaborar uma estratégia, em parte para melhorar a coordenação política entre vários departamentos federais e os cantões.

Uma questão que a estratégia provavelmente abordará é a concorrência entre os EUA e a China, a qual, segundo a agência de inteligência suíça, poderia ver as duas potências criando esferas de influência estratégica.  

Já se foram os dias em que os EUA e outros países, incluindo a Suíça, acreditavam que a China acomodaria seu sistema ao do Ocidente à medida que se tornasse mais próspera, disse Ian Bond, um ex-diplomata britânico. Os EUA agora vêem a China como um rival estratégico e há um acordo bipartidário de que a ascensão econômica e as ambições militares da China representam uma ameaça aos interesses americanos.

"Esta é a rivalidade que moldará as próximas décadas", disse Bond, chefe da política externa do Centre for European Reform, um think tank pró-europeu.

É também um desafio significativo para países à margem - como a Suíça - que querem evitar ser apanhados no meio da briga, mas que ainda estão em bons termos com ambos os Estados.

Joe Biden disse que a abordagem de seu país para uma China será uma mistura de cooperação, "quando for do interesse da América", e concorrência, "trabalhando com nossos aliados e parceiros". Mas embora seu homólogo chinês, Xi Jinping, tenha advertido contra a construção de uma coalizão para pressionar o país, a própria China está procurando atrair países para sua órbita.

"Neste novo mundo no qual existem relações tão tensas entre duas superpotências, que direção tomarão os pequenos países?" questiona Simona Grano, professora da Universidade de Zurique em Estudos da Grande China. "Será que eles escolherão lados, permanecerão neutros, ou se manterão em sintonia com uma ou outra superpotência?"

Esperanças e receios econômicos

Para os suíços, uma consideração essencial ao navegar nesta rivalidade será econômica.

"Antes de tudo, o foco será a manutenção de boas relações econômicas, que é um dos deveres mais importantes de qualquer governo", disse Grano.

Os EUA podem ser o segundo maior parceiro comercial da Suíça (depois da União Europeia), mas é o acesso ao vasto mercado da China que nenhum país quer pôr em risco.

O comércio de mercadorias entre a China e a Suíça tem se expandido rapidamente nos últimos anos. Os dois países têm um acordo de livre comércio em vigor desde 2014, e em 2019 assinaram um memorando de entendimento para intensificar a cooperação no comércio, investimento e financiamento de projetos vinculados à Iniciativa de Cinturão e Estradas (BRI, para Belt and Road Initiative), um extenso programa chinês para a construção de infraestrutura terrestre e marítima em outros países.

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De fato, os suíços querem atrair mais investimentos estrangeiros diretos da China, o que é modesto (CHF14,8 bilhões, ou US$16 bilhões, em 2019) comparado com os investimentos suíços na China (CHF22,5 bilhões). Mas, como em muitos outros países, há uma preocupação crescente com a proteção da propriedade intelectual de potências estrangeiras.

Após a aquisição da empresa agroquímica suíça Syngenta pela estatal ChemChina em 2016, o parlamento suíço aprovou uma proposta em 2019 que obriga o governo a estabelecer uma base legal para monitorar os investimentos estrangeiros no país e criar uma autoridade de controle.

Damian Müller, senador do Partido Liberal Radical que preside o Comitê de Relações Exteriores, acredita que, nesta questão, a Suíça pode encontrar um terreno comum com a UE, onde as empresas chinesas compraram numerosas empresas de alta tecnologia e investiram em infraestruturas estratégicas.

"Estamos em um mercado livre, então é claro que não podemos impedir a aquisição de empresas, mas temos que encontrar uma maneira de todo o continente fazer com que a China respeite as regras", disse.

Em 2019, a UE reconheceu a China como um "rival sistêmico" e um concorrente econômico. No ano passado, entrou em vigor uma regulamentação de triagem de investimentos para "proteger os interesses estratégicos da UE".

Valores comuns

Criar uma coalizão de aliados para enfrentar a China em questões como práticas econômicas desleais - que a administração Biden está defendendo - faz sentido para a Suíça, já que ela será mais eficaz do que agindo sozinha, de acordo com Grano. Ela também poderia poupar um pequeno país de sofrer qualquer retaliação dispendiosa da China, como foi o caso recentemente da Suécia e da Austrália.

"Este é um jogo perigoso para jogar com a China, porque ela pode reagir agressivamente para enviar uma mensagem também a outros países", disse.

Mas nem todos os europeus estão preparados para trabalhar em conjunto. Alguns países com problemas de liquidez abraçaram os investimentos chineses. A China explora a dependência econômica de outros países para ajudar a promover seus próprios interesses em fóruns multilaterais. Em 2017, a Grécia chocou seus vizinhos ao bloquear uma declaração da UE na ONU, condenando o histórico de direitos humanos da China.

"Os chineses são bastante estratégicos na forma como oferecem ajuda aos países", disse Bond. "Precisamos mudar os incentivos para que a China trabalhe mais dentro das estruturas existentes".

O antagonismo do ex-presidente americano Donald Trump com as instituições multilaterais permitiu que os chineses afirmassem suas credenciais de liderança global e moldassem a agenda das Nações Unidas "de formas que não coincidem com as prioridades ou valores da UE", escrevem Bond e seus colegas em um relatório de política para 2020.

Grano chama os esforços da China de "uma subversão da atual ordem multilateral", um sistema alternativo "com 'presenças' diplomáticas, econômicas, culturais e de segurança paralelas ao redor do mundo".

Apesar das tensões nas relações transatlânticas e da recente conclusão de um acordo de investimento entre a China e a UE que irritou a Casa Branca, "há uma lacuna de valores muito clara entre os EUA e a Europa de um lado e a China do outro", disse Bond.

Com base em valores e interesses democráticos compartilhados, países como a Suíça poderiam cooperar em questões como propriedade intelectual, segurança cibernética e direitos humanos, para pressionar a China, acrescentou Bond.

Questão de sobrevivência

A opinião pública também poderia desempenhar um papel na forma como os países reagem à rivalidade EUA-China. Acontecimentos recentes, tais como relatos de violações sistemáticas dos direitos humanos contra a minoria Uighur, as prisões de ativistas pró-democracia em Hong Kong e a ambiguidade chinesa sobre as origens da pandemia do coronavírus lançaram a China de uma forma mais negativa no Ocidente.

Mas equilibrar interesses econômicos com apelos para tomar uma posição contra abusos de direitos será difícil para a Suíça, onde os partidos políticos devem governar por consenso, mas discordam sobre qual abordagem adotar, disse Grano. Ela espera que a nova estratégia da China tome um caminho em grande parte intermediário, na linha de um documento publicado em fevereiro pelo Partido Liberal Radical, o mesmo do ministro das Relações Exteriores do país, Ignazio Cassis.

O texto do PLR mostra que a Suíça quer manter todas as opções em aberto. O documento afirma que, embora a Suíça deva coordenar sua política da China com a da UE, em princípio esta política deve ser independente, pois é "a única maneira do país explorar as vantagens da neutralidade e assumir seu papel clássico de mediador".

Müller resume assim o dilema: "Temos boas relações com os EUA e boas relações com a China. Temos que ter cuidado para não sermos vistos trabalhando com um país e parado de trabalhar com outro".

"É somente com diálogo constante e regras claras de conduta que poderemos trabalhar juntos", acrescentou o senador.

As pressões para nos alinharmos com um ou outro podem se mostrar insustentáveis, mas por enquanto o objetivo do país é evitar ficar encurralado em uma luta de poder ideológico.

"A Suíça quer aparecer como não 'tomando partido' e [ao mesmo tempo] quer tirar o máximo proveito de [ambas as relações]", disse Grano. "No final, a Suíça está tentando sobreviver".

Adaptação: Fernando Hirschy

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