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O Leão de Lucerna entre o turismo e a polêmica

O famoso Leão de Lucerna está localizado em uma cavidade que lembra a silhueta de um javali. Diz a lenda que o escultor escolheu essa forma incomum como vingança pelo pagamento. Keystone / Urs Flueeler

O bicentenário da inauguração do Leão de Lucerna, um dos monumentos mais famosos da Suíça ocorreu em agosto. O memorial, que honra o sacrifício dos guardas suíços do rei francês, causou muita controvérsia ao ser erguido. Dois séculos depois, a controvérsia em torno doa leão parece ter arrefecido, mas pode ressurgir a qualquer momento.

Este conteúdo foi publicado em 22. agosto 2021 - 10:00

O Leão de Lucerna está localizado um pouco fora da cidade velha, nas colinas. É um enorme monumento em arenito, com cerca de 10 metros de comprimento e seis de largura, localizado atrás de um espelho d’água. Ele apresenta um leão com uma lança empalada em suas costas. O orgulhoso animal está agonizando. Sua pata esquerda descansa sobre um escudo com a flor-de-lis da monarquia francesa ao lado de outro escudo com uma cruz suíça.

Evento histórico

Além dos símbolos, o monumento também traz inscrições: uma dedicatória em latim, Helvetiorum Fidei ac Virtuti (à lealdade e bravura dos suíços), datas, também em latim, uma lista de 26 nomes e dois números em algarismos romanos, DCCLX (760) e CCCL (350).

O monumento refere-se a um momento chave da Revolução Francesa: a captura do Palácio Tuileries por uma multidão de rebeldes armados em 10 de agosto de 1792. Este importante evento marcou uma virada na Revolução, com a queda da monarquia e o início do Terror, que culminou com os massacres de setembro.

Do lado suíço, este dia está acima de tudo associado ao sacrifício dos guardas suíços que defenderam o palácio. Os nomes inscritos no monumento são os dos oficiais que morreram naquele dia e os números 760 e 350 se referem respectivamente ao número aproximado de guardas mortos e sobreviventes.

Monumento polêmico

O monumento foi erguido por iniciativa de Karl Pfyffer von Altishofen de Lucerna, um oficial da Guarda que estava de licença em Lucerna no dia fatídico. Em 1819, um quarto de século após os acontecimentos, ele publicou as memórias de seus companheiros em um livro intitulado "Relato da Conduta do Regimento de Guardas Suíços em 10 de agosto de 1792".

A comoção provocada pelo livro o levou a organizar uma subscrição pública entre os círculos católicos conservadores para financiar a construção de um memorial em Lucerna.

“O livro de Pfyffer é mais uma hagiografia do que um estudo histórico”, diz Alain-Jacques Tornare, um historiador especializado na Revolução Francesa e nas relações franco-suíças. “Tudo nesta história foi manipulado para criar a imagem de uma Guarda Suíça massacrada por revolucionários impiedosos”.

O número de vítimas, em particular, é problemático. Embora o número de 26 oficiais mortos seja exato, as perdas de soldados rasos estão infladas. Estudos históricos recentes colocam o número de guardas mortos em cerca de 300, não os 760 listados no monumento. "O maior número de sobreviventes e o fato de que mais ou menos o mesmo número de guardas e revolucionários foram mortos, temperam a ideia de um 'massacre' da Guarda", observa Alain-Jacques Tornare.

Mas além dos números, é sobretudo a visão da Suíça transmitida pelo Leão que tem provocado controvérsia. É uma obra que glorifica uma Suíça conservadora e contrarrevolucionária, que foi sentida como uma provocação pelos círculos liberais da época, que até tentaram interromper a inauguração e danificar o monumento.

Esta foi a reação de uma Suíça protestante e liberal que preferia o desenvolvimento econômico interno a esta emigração militar para o exterior", explica Alain-Jacques Tornare. Por outro lado, os liberais veem o monumento como um lembrete de uma ligação extremamente estreita com uma potência estrangeira, num momento em que estão tentando criar uma Suíça que voa em suas próprias asas".

Atração turística

A controvérsia não prejudicou de forma alguma a atratividade do lugar. O Leão de Lucerna tornou-se uma atração turística quase que imediatamente. Tudo foi feito para garantir que o cenário estivesse perfeito", diz o historiador. Rodeado por pequeno lago e um jardim inglês, este monumento em baixo-relevo fascina e se encaixa bem na atmosfera romântica da época".

Produtos vendidos em uma loja de souvenirs em Lucerna lembra um dos principais monumentos da cidade alpina. © Keystone / Gaetan Bally

"Além disso, o monumento tem sido objeto de merchandising muito eficiente, inclusive com a venda de pequenos leões esculpidos", continua ele. É engraçado, trata-se de um modernismo comercial a serviço de uma visão arcaica da história".

A fórmula funciona, e os turistas do século 19 vieram em grande número. Entre esses admiradores estavam artistas e escritores, incluindo o famoso autor americano Mark Twain, que chamou o Leão de "o pedaço de pedra mais triste e mais comovente do mundo".

Monumento politicamente sensível

A fama do Leão de Luzern também atravessou o Atlântico de forma mais concreta, pois serviu de modelo para o Leão do Cemitério de Oakland em Atlanta, uma homenagem ao soldado desconhecido do exército confederado. Como muitos outros monumentos do Sul, este também foi recentemente objeto de depredações, na esteira do movimento "Black Lives Matter".

Conteúdo externo

Nada parecido acontece em Lucerna. No entanto, também aqui o contexto histórico do monumento pode se tornar uma questão sensível. Como um memorial à contrarrevolução, o Leão de Lucerna tornou-se um ponto de encontro para movimentos de extrema direita na década de 1940. O fenômeno atingiu seu auge entre 1989 e 1992, quando a votação sobre a adesão da Suíça ao Espaço Econômico Europeu estava inflamando os espíritos.

As autoridades de Lucerna tomaram medidas para impedir que o monumento fosse explorado politicamente. Tudo foi feito para esterilizar o Leão, para torná-lo inofensivo", diz Alain-Jacques Tornare. “Foram acrescentadas notas explicativas, como é feito hoje em dia com certas estátuas controversas.

O local foi ocupado, por exemplo, com concertos, para evitar reuniões. As autoridades eram mais restritivas quanto às reuniões públicas. Em 1992, por exemplo, não recebi permissão para dar uma simples palestra lá para a Alliance Française de Lucerne".

Um cartaz de protesto pendurado no monumento em agosto de 1989 pelo "Grupo por uma Suíça sem Exército". Keystone / Str

Três décadas depois, a situação está calma. Mas será que as coisas poderiam se aquecer novamente junto ao velho leão? “Isto poderia acontecer novamente muito rapidamente se soltássemos as rédeas”, diz Alain-Jacques Tornare. “Todo movimento identitário precisa de lugares para se identificar. Mas na Suíça, não há muitos deles. Vejo dois em particular: o Leão de Lucerna e o prado de Rütli”.

Adaptação: DvSperling

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