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O impacto global da peça “A Visita da Velha Senhora”, de Friedrich Dürrenmatt

A velha senhora de Dürrenmatt visita uma pequena cidade do Sahel na adaptação do filme "Hyenas" de 1992 do diretor senegalês Djibril Diop Mambéty. Alamy Stock Photo

No centenário de nascimento do dramaturgo suíço Friedrich Dürrenmatt, a SWI swissinfo.ch apresenta um olhar sobre a influência mundial exercida por sua obra de 1956 “A Visita da Velha Senhora”, que foi responsável pela fama do autor e é, até hoje, encenada ao redor do mundo.

Este conteúdo foi publicado em 16. janeiro 2021 - 11:00

“A Visita da Velha Senhora” possui uma trama universal: a viúva bilionária Claire Zachanassian retorna ao seu vilarejo natal, chamado Güllen – palavra que significa estrume líquido, chorume. Chegando ao local, ela faz uma oferta aos moradores: em troca de uma enorme quantia, eles matariam Alfred Ill, o homem que, anos antes, havia engravidado Claire e, negando sua paternidade, a condenara à miséria.

Nos dias que seguem à chegada da senhora, toda resistência à sua proposta imoral desaparece – a perspectiva de riqueza é tentadora demais. Por fim, os aldeões matam Ill diante da mulher que encomendara seu assassinato. O drama se desenrola na tensão entre a proposta e o assassinato em si: como necessidades egoístas são priorizadas, disposições morais evaporam e todos os escrúpulos desaparecem.

Friedrich Dürrenmatt

Filho de pastor, Friedrich Dürrenmatt nasceu em 5 de janeiro de 1921, em Konolfingen, no cantão de Berna, e morreu em 14 de dezembro de 1990, em Neuchâtel.

Dürrenmatt é o autor e dramaturgo suíço mais traduzido ao redor do mundo, sendo conhecido por suas peças “A Visita da Velha Senhora” (1956) e “Os Físicos” (1962), assim como pelas adaptações cinematográficas de seus romances policiais “O Juiz e seu Carrasco” (1952) e “A Promessa” (1958).

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“Sr. Dürrenmatt, o senhor nos estapeou com sua peça. Ela é um verdadeiro tapa na cara. Obrigado, Sr. Dürrenmatt, por esse tapa na cara. Por favor, continue nos estapeando assim, Sr. Dürrenmatt.”. Essa foi a reação de um dos espectadores da primeira exibição de “A Visita da Velha Senhora” na Alemanha, relembra Dürrenmatt.

No país, a obra foi vista como um espelho refletindo a nação no seu pós-guerra. Uma das principais temáticas da peça, como aponta cirurgicamente Peter Rüedi – biógrafo de Dürrenmatt –, é “o nascimento da prosperidade geral a partir da culpa coletivamente reprimida”.

Na Alemanha pós-guerra, as pessoas estavam particularmente suscetíveis ao tema. Pouco mais de uma década após o fim da Segunda Guerra Mundial, os alemães se encontravam em um paraíso econômico e seu passado assassino, aparentemente esquecido. Na primeira versão filmada da peça em língua alemã, de 1959, os aldeões dançaram ao redor de propagandas luminosa após receberem o cheque de pagamento pelo assassinato de Ill.

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Em 1958, a peça de Dürrenmatt passou pela Broadway. Em 1964, foi produzida uma versão da obra em Hollywood, estrelando Ingrid Bergman como Zachanassian e Anthony Quinn como Alfred Ill.

De certa forma, essa versão foi um retorno da obra às suas origens: inicialmente, Dürrenmatt havia concebido o material como um conto intitulado “Eclipse Lunar”, que se passava nos Estados Unidos. No enredo, um antigo morador da aldeia, agora rico, pagava os aldeões para eliminarem seu velho rival. Ironicamente, a versão hollywoodiana de Güllen remete vagamente aos Balcãs e foi filmada utilizando cenários romanos.

Ingrid Bergman como a velha senhora do filme "A Visita" de 1964. Imago/zuma Press
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A história termina com um final feliz ambíguo: no último segundo, Ill é poupado por Zachanassian, mas precisa continuar convivendo com aqueles que estavam dispostos a assassiná-lo. Dürrenmatt não gostou muito do filme. Ele raramente gostava de filmes.

Sua opinião sobre a série de televisão libanesa inspirada em sua peça é desconhecida. A série “Allo Hayeti” – “Olá, minha vida” – tem um casal como protagonista. Os altos e baixos do seu relacionamento são intercalados com literatura.

No quinto episódio, uma atriz lê parte da obra de Dürrenmatt e os dois atores principais entram nos papéis de Zachanassian e Ill. Assim, “A Visita da Velha Senhora” torna-se teatro de relacionamento.

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Logo após a estreia da peça, a carreira de Dürrenmatt começou a decolar em países socialistas. Ainda em 1958, “A Visita da Velha Senhora” já estava traduzida para o russo.

As obras de Dürrenmatt foram encenadas durante o período conhecido como o “degelo” na União Soviética, ocorrido após a morte de Stalin, em 1953, e durante o qual houve uma considerável diminuição da censura. Nos anos sessenta, no entanto, as peças de Dürrenmatt foram banidas dos teatros soviéticos e foi apenas com a Perestroika, nos anos oitenta, que elas puderam retornar aos palcos. “A Visita da Velha Senhora” poderia ser interpretada tanto como uma crítica ao capitalismo quanto ao comunismo.

Igor Petrov, jornalista da SWI, relembra sua reação à versão filmada da peça, dirigida por Michail Kozakov em 1989. “Essa peça foi devastadora para mim, porque sua essência é a questão da fundamentação moral da sociedade. Eu entendo o que atraiu o diretor para esse material: ele quis explorar a duplicidade moral à qual a utopia soviética do ‘socialismo real’ finalmente sucumbiu.

Na época, também notei o plano diabólico de Claire, que consistia em não matar Alfred com suas próprias mãos, mas fazer com que a comunidade o assassinasse. Alfred parecia ser a única pessoa nessa cidade perversa com a capacidade de exercer autorreflexão crítica. Ainda assim, ele quem foi condenado à morte.

Também me perturbou a questão da origem da moralidade, que Dürrenmatt apresenta na peça com um radicalismo sem precedente. A afirmação de que toda sociedade, toda multidão, todo grupo de pessoas – até mesmo aqueles que se veem como extremamente progressistas – é capaz de trair alguém em um piscar de olhos foi muito chocante para mim.”

Hienas

A adaptação mais fiel e ao mesmo tempo mais surpreendente de “A Visita da Velha Senhora” foi produzida em 1992, pelo diretor senegalês Djibril Diop Mambéty, que faleceu de câncer aos 53 anos e deixou para trás uma obra pequena, mas importante o suficiente para assegurar-lhe um lugar de destaque no cinema africano. Sua adaptação da peça de Dürrenmatt, chamada “Hienas”, se passa em Colobane, uma cidade pequena e pobre na região do Sahel, localizada na África.

Apesar da pobreza, há esperança: Linguère Ramatou, nativa da região, torna-se extremamente rica e volta à sua cidade natal após 30 anos distante. Ela oferece à comunidade a impressionante quantia de 100 bilhões de francos CFA – moeda utilizada em alguns países da África. Uma condição para o pagamento é imposta: a morte de Dramaan Drameh, o comerciante local. A mulher procura por vingança: 30 anos antes, Drameh abandonara Linguère Ramatou após engravidá-la.

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O diretor senegalês se manteve fiel ao texto original e trabalhou junto a Friedrich Dürrenmatt. O dramaturgo suíço, que morreu em 1990, nunca chegou a ver o resultado. Mas quando “Hienas” foi exibido no Festival de Cannes em 1992, Mambéty deixou um lugar vazio ao seu lado, reservado em memória de Dürrenmatt.

Apesar de seguir fielmente o texto original, o enredo do filme se passa no Saara. O diretor senegalês pretendia usar seu trabalho para defender as pessoas comuns frente aos poderosos. Ele também expressou certa decepção com os novos estados africanos que surgiram em decorrência da descolonização.

Em “Hienas”, Djibril Diop Mambéty transformou a história de Friedrich Dürrenmatt em uma espécie de denúncia acerca das tentações do colonialismo e da subjugação da África ao capitalismo global. Quando a liderança local decide sacrificar o comerciante, ela também está se rendendo aos bens do primeiro mundo.

As hienas que ocasionalmente aparecem na tela podem ter uma gama de significados: podem significar as elites africanas, a população que prontamente se rende ao consumismo, o sistema internacional que explora a África... em última instância, cabe ao espectador determinar quem as hienas realmente representam.

Apesar de o texto atualmente fazer parte dos cânones da literatura, sua recepção inicial na Suíça, após sua estreia em 1956 no Teatro Municipal de Zurique (Zurich Schauspielhaus), não foi muito boa. Por exemplo, foi negado o requerimento feito à fundação Pro Helvetia – responsável pela promoção cultural suíça – que pedia apoio para encenar internacionalmente a obra de Dürrenmatt. A decisão apresentava o argumento de que a obra “não era muito característica ou representativa do espírito suíço”.

No entanto, a peça apenas se beneficiou disso. Até hoje, ela ainda é encenada ao redor de todo o mundo, desde o Teatro Nacional da Grã-Bretanha até pequenos palcos na Mongólia.

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Adaptação: Clarice Dominguez

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