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O desespero que envolve os eleitores da direita populista

Christian Lutz

A população mais pobre fica longe das urnas ou têm maior probabilidade de votar em populistas de esquerda. A ascensão de partidos populistas de direita na Europa está ligada a outros fatores além da pobreza.

Este conteúdo foi publicado em 30. julho 2021 - 12:00
Sibilla Bondolfi (texto), Christian Lutz (imagens), Ester Unterfinger (iconografia)

Para os populistas, a sociedade é formada por um povo e uma elite. Por enriquecer e oprimir o povo, essa elite deve ser despojada de seu poder para que o povo assuma as rédeas.

Pode-se pensar que esse tipo de discurso encontra um terreno particularmente fértil quando existe um cenário de desequilíbrio de poder e desigualdade social em uma sociedade. Mas isso é apenas parcialmente verdade. Na maioria das vezes, a população pobre se abstém de votar ou vota em um partido populista de esquerda que promete distribuição de riquezas.

Então, quais são as preocupações daqueles que votam em partidos populistas de direita? O que os torna receptivos às promessas da extrema direita?

O fotógrafo suíço Christian Lutz foi atrás da resposta para essa pergunta em vários lugares da Europa onde os partidos populistas de direita estão experimentando significativo sucesso. Em seu livro "Citizens" - “Cidadãos”, em português - ele mostra o desespero que move as pessoas que votam na direita radical. 

O livro "Cidadãos", do fotógrafo suíço Christian Lutz

O fotógrafo suíço Christian Lutz visitou lugares da Europa onde os partidos populistas de direita estão tendo um sucesso particular: no Reino Unido com o UKIP, na Dinamarca com Dansk Folkeparti (DF), na Áustria com o FPÖ, na Alemanha com o nacionalista AfD, na Espanha com a Vox ou mesmo na Suíça com a Partido Popular Suíço (SVP).

Quer sejam retratos, fotos de encontros, paisagens pós-industriais ou bares, em todos os lugares o cinza das imagens revela um profundo desespero. "Com programas manipuladores e demagógicos, os partidos populistas de direita costumam ter sucesso onde os cidadãos sofrem, porque perderam seus empregos ou têm problemas econômicos", disse Christian Lutz à SWI swissinfo.ch.

Na Suíça, a situação é mais complexa. “Passei muito tempo no centro da Suíça, no cantão de Nidwalden, onde o Partido Popular Suíço (SVP) obteve mais de 80% dos votos nas eleições para o Conselho Nacional de 2015”, diz o fotógrafo. Lá, a população não sofre de preocupações econômicas em geral e o padrão de vida é alto. “Os slogans e o conteúdo são os mesmos de outros partidos populistas de direita na Europa, mas não têm como alvo as mesmas pessoas”, segundo Christian Lutz.

Do que essas pessoas têm medo? Ter um emprego é muito importante na Suíça e perdê-lo é visto como um desastre, afirma o fotógrafo. Na Suíça, segundo ele, o principal é manter um padrão de vida elevado graças ao protecionismo e manter a autonomia em relação à UE. O núcleo duro do SVP - “um clube bilionário de Zurique” - prioriza os negócios e a indústria. O que é inaceitável para Christian Lutz. "Poderíamos baixar um pouco nosso padrão de vida para vivermos melhor juntos."

O fotógrafo não considera seu trabalho como jornalismo, mas como documentário. “Não sou cientista político”, diz ele. “Expresso de um ponto de vista muito pessoal a minha preocupação com estes movimentos na Europa. Para mim, é um pesadelo”. Atualmente, ele tem se definido como uma pessoa desiludida: "Para mim, há algo desesperador, sem esperança, na forma como nossas sociedades funcionam agora", lamenta. Como fotógrafo, ele pode focar o olhar nos fenômenos sociais e essa é a sua contribuição.

"Citizens" publicado pela Edição Patrick Frey

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“Há um sentimento geral entre muitos desses eleitores de que suas necessidades e preocupações estão sendo ignoradas e negligenciadas pelos partidos tradicionais”, disse Anna Grzymala-Busse, diretora do “Europe Center” da Universidade de Stanford, na Califórnia. É isso que, segundo ela, torna os discursos dos partidos populistas muito poderosos, pois verbalizam a decepção e o sentimento de abandono.

No entanto, não existe uma relação direta com a desigualdade social, acrescenta ela. “Por décadas, vimos muitos países onde havia desigualdade sem populismo, e populismo em sociedades relativamente igualitárias como a Polônia ou a Hungria”, diz Anna Grzymala-Busse. A maioria dos eleitores em partidos populistas não pertence ao grupo mais fraco economicamente, explica ela. "Eles têm muito medo da pobreza e do declínio."

Perda de status social

O cientista político suíço David Weisstanner, professor assistente da Aarhus University na Dinamarca e pesquisador associado da Oxford University, estuda a ligação entre status social e populismo. Segundo ele, as pesquisas sobre o populismo de direita levam a diferentes conclusões. “Alguns estudos mostram que quando as pessoas estão indo mal econômica e socialmente, elas querem alertar os partidos estabelecidos votando em populistas de direita”. Mas também há estudos que duvidam disso, diz ele. Pesquisas mais recentes identificam outra causa: a perda de status social.

De acordo com David Weisstanner, a percepção subjetiva do próprio status social é mais determinante do que riqueza e renda. Esta seria a razão pela qual as pessoas da classe média também votam em partidos populistas de direita. Principalmente quando sentem que seu status está ameaçado.

É precisamente esse medo que os movimentos populistas de direita visam. “Esses partidos estão oferecendo um programa que dá às pessoas a sensação de que podem melhorar seu status social”, explica o cientista político. Por exemplo, fazendo uma distinção clara entre nacionais e estrangeiros.

De acordo com Anna Grzymala-Busse, a questão é menos sobre a situação socioeconômica objetiva e mais sobre a incapacidade ou relutância dos partidos estabelecidos em responder às preocupações do eleitorado. "Os populistas podem tirar proveito dessa negligência para amplificar os medos e colocar as ameaças em palavras".

Suíça, um caso especial

Nos Estados Unidos e no Reino Unido, a crise financeira e econômica após 2008 criou desigualdades sociais significativas, e as mudanças econômicas podem ter desempenhado um papel nos fenômenos Trump e Brexit a esse respeito. Mas o populismo de direita existe na Suíça, Áustria e Noruega desde o final dos anos 1980 ou início dos anos 1990.

“Na Suíça, o sucesso do populismo de direita não pode ser explicado pela desvantagem econômica, mas por fatores culturais”, segundo David Weisstanner. Embora tenha ocorrido uma crise econômica na Suíça justamente na década de 1990, o debate sobre a política europeia foi mais determinante para o sucesso do Partido Popular Suíço (SVP), explica o cientista político. Em 1992, o eleitorado suíço rejeitou por pouco a adesão ao Espaço Econômico Europeu (EEE).

“Não é preto no branco; em geral, fatores econômicos e culturais interagem”, diz David Weisstanner. "As questões de política identitária geralmente ganham importância quando, ao mesmo tempo, a situação econômica não é favorável."

O peso da educação

Os movimentos populistas de direita são, portanto, não apenas alimentados pela pobreza e mudanças estruturais, mas também pela insatisfação das pessoas com o lugar que ocupam na sociedade ou pelo medo de perderem suas identidades.

De acordo com David Weisstanner, a percepção do status social nas sociedades de hoje depende muito da educação. A formação e o nível educacional tornaram-se importantes fatores de prestígio, diz ele. “Muitas pessoas hoje têm melhor educação do que seus pais, mas ao mesmo tempo existem mais diferenças sociais entre quem tem alto nível de educação e quem não tem. Isso leva à polarização. ”

Entre as pessoas com educação universitária, os valores tradicionais, como boas relações familiares ou mesmo a unidade familiar tradicional, perderam seu prestígio, explica David Weisstanner. Nas pessoas com baixo nível de escolaridade, esses valores têm mais peso, acrescenta. “Essa mudança no que é considerado prestigioso pode desestabilizar e causar desconforto”, finaliza o especialista.

Adaptação: Clarissa Levy

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