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O bispo suíço que participou do etnocídio americano

Alegoria representando a Conquista do Oeste. (1872) John Gast

Martin Marty quis salvar os sioux do fogo do inferno e chegou até mesmo a tentar converter Touro Sentado, participando assim do extermínio da cultura indígena. Como um monge beneditino suíço passou a “civilizar” nativos em nome do Estado americano?

Este conteúdo foi publicado em 10. agosto 2021 - 15:00
David Eugster, texto e Thomas Kern, edição de imagens

A Bishop Marty Memorial Chapel em Yankton, na Dakota do Sul, foi construída nos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial, como um “monumento a um bispo santo graças ao qual os beneditinos vieram para a Dakota”. Lá, o monge beneditino suíço Martin Marty ficou conhecido como “apóstolo dos sioux” – várias escolas e um pequeno povoado receberam seu nome.

Nessa capela, um vitral relembra a tentativa (fracassada) de Marty de converter o obstinado chefe Touro Sentado, pouco antes deste ser morto. A obra de arte mostra Marty olhando para o grande chefe com respeito e reverência, enquanto mulheres indígenas cantam ao fundo, com livros de hinos em suas mãos.

Parte de um vitral na Capela do Bishop Marty Memorial em Yankton, Dakota do Sul, EUA. Collection Manuel Menrath

O historiador suíço Manuel Menrath, que estudou em detalhes a história de Martin Marty e seu papel na "civilização" dos Sioux, sempre achou este retrato de hipocrisia absolutamente irritante. "Em retrospectiva, Martin Marty é reverentemente retratado cantando devotamente, na companhia de índios com cabelos longos e cocar de forma bastante estereotipada. No céu, eles podiam ser deixados à sua própria sorte, mas nos internatos dirigidos por Martin Marty, as coisas eram muito diferentes: os ornamentos e os cabelos compridos eram as primeiras coisas a serem deixadas, pois eram considerados pagãos e maus".

O fato de muitos Sioux ainda serem católicos hoje é obra de Martin Marty. Seus colégios internos ajudaram a transformar crianças indígenas em bons americanos e, mais importante, em católicos. Martin Marty é um exemplo perfeito de como um homem com objetivos religiosos se tornou um capanga do colonialismo. Mas como um monge do centro da Suíça acabou na América do século XIX?

Atraído pelo Faroeste

Filho de um sacristão, Martin Marty cresceu em uma igreja, por assim dizer. Seus três irmãos tornaram-se todos padres. Desde os cinco anos de idade, ele foi ensinado pelos jesuítas e foi inspirado pelo trabalho deles como defensores itinerantes da fé. Quando criança, ele encontrou um modelo a seguir em São Francisco Xavier, que havia realizado missões no Japão, Moçambique e Índia no século XVI. Embora São Francisco Xavier nunca tenha visitado a América, ele também era venerado na Suíça Central como um "apóstolo dos índios".

Retrato de Martin Marty, então prelado de Saint Meinrad, ca. 1865. Collection Manuel Menrath

Mas na Suíça, Martin Marty não poderia se tornar jesuíta. A ordem tinha sido proibida pela constituição do novo Estado federal de 1848, pois era considerada hostil ao Estado e respondia apenas a Roma. Martin Marty, portanto, tornou-se monge beneditino aos 16 anos de idade e recebeu o nome religioso "Martin".

Dentro do Estado federal, os outros católicos suíços também se viram cada vez mais dominados pelos cantões protestantes. Em muitos cantões, os mosteiros e colégios católicos estavam fechados. O mosteiro de Einsiedeln, ao qual Martin Marty pertencia, procurou escapar da ameaça de dissolução.

Assim, os monges foram enviados para os Estados Unidos. Em 1854, fundaram o Priorado de St. Meinrad em Indiana, perto de Tell City, onde muitos colonos suíços se mudaram na década de 1850. As pessoas não só buscavam refúgio, mas também seguiam os emigrantes católicos. "Temia-se que eles pudessem se tornar protestantes em um país estrangeiro", diz o historiador.

Mas o priorado no faroeste não funcionava como Einsiedeln queria. Em 1860, Martin Marty, aos 26 anos de idade, foi enviado para lá para acertar as coisas. Ele conseguiu: fundou uma escola para os filhos dos colonos, em torno da qual cresceu uma pequena cidade. Em 1870, o priorado de São Meinrad foi elevado à categoria de abadia e Martin Marty à de abade.

A natureza sedentária da vida monástica, no entanto, não lhe convinha. Ele se via como um missionário da Conquista do Oeste e queria levar a verdade católica aos "pagãos na escuridão e na sombra da morte". Embora ele tenha chegado como administrador clerical, era a hora certa para que ele se aproximasse de seu objetivo de se tornar um "apóstolo dos índios".

"Civilizar" ao invés de exterminar

Após a Guerra Civil, os americanos estavam cansados de lutar, inclusive com os povos indígenas. Os humanistas e os representantes da igreja pediram, portanto, uma abordagem menos violenta das populações indígenas. De acordo com o Departamento do Interior na época, o objetivo agora era educar a "raça perdida e ignorante" dos nativos americanos de acordo com os "ensinamentos de nossa civilização cristã superior".

Ao fazer isso, não se tratava de criar igualdade por nascimento. "Eles não queriam uma elite, mas serviçais, trabalhadores de fábrica, bons cristãos que pudessem beneficiar a sociedade", diz Manuel Menrath. Foi aqui que entraram em jogo as igrejas de todas as orientações: as reservas nas quais a cavalaria havia estacionado as tribos, sob ameaça de execução, foram alocadas para as diversas organizações missionárias. As que já eram mais ativas no local, ganhavam o contrato.

É importante notar que a "política de paz" não foi uma renúncia à destruição dos povos indígenas, mas sim o ato final da política do Estado americano de destruir a língua, a cultura e a espiritualidade deles. Hoje, isto é chamado de etnocídio. Tais programas, segundo Manuel Menrath, são típicos dos povoamentos dominados por colonos, como também pode ser visto na Austrália e na Nova Zelândia.

"No início, tudo parece idílico; os colonos partem para uma região, precisam de alguma terra, os nativos saem e todos podem viver. Mas em algum momento, o consumo de terra pelos colonos aumenta e os nativos de repente se encontram no caminho. A partir daí, havia duas opções: extermínio e reeducação", resume o historiador.

Outra característica dos povoamentos é que os colonos não têm necessariamente que ser da mesma nacionalidade que o poder colonial. Há muitas oportunidades para a participação de pessoas de todos os países - desde que elas pertençam à raça considerada superior.

Isto também permitiu que Martin Marty desempenhasse um papel importante. No entanto, Manuel Menrath adverte para as condenações unilaterais: "Não se deve contentar com uma crítica apressada à Igreja: antes de tudo, estes programas foram iniciados pelo Estado. As pessoas da Igreja assumiram que estavam fazendo algo de bom porque, como auxiliares da nova política, eles estavam pelo menos salvando fisicamente as pessoas".

Política centrada na criança

Quando o Conselho das Missões Católicas Indígenas, fundado em 1874, entrou em contato com Martin Marty para procurar missionários, ele também viu sua chance de finalmente tomar o caminho com o qual sonhava. Em 1876, apesar de sua posição de abade, ele deixou o mosteiro de São Meinrad para dedicar-se à obra missionária dos Sioux na reserva de Standing Rock.

Martin Marty falava regularmente contra políticas violentas contra os indígenas e estava ciente de que somente a estratégia americana havia transformado os Sioux que conheceu em "ociosos e mendigos". No entanto, ele considerava a cultura deles retrógrada e dificilmente valia a pena protegê-la. A princípio, portanto, ele planejou dividir a terra para adaptar os nativos ao modelo agrícola europeu.

Entretanto, ele logo percebeu que precisava se concentrar nas crianças, que ele sentia que eram mais fáceis de civilizar do que os adultos. Para isso, elas tiveram que ser separadas de seus pais. Segundo Martin Marty, não fazia sentido ensinar as crianças indígenas se "lhes fosse permitido voltar em intervalos regulares ao seu círculo familiar imoral, onde os males existentes não tinham sido corrigidos".

O objetivo era separar as crianças até atingirem a idade adulta, para que pudessem então, como bons católicos, começar suas próprias famílias. Em 1876, ele construiu um internato com os Sioux e assim os deixou, como Manuel Menrath apropriadamente escreve, "para cavar sua própria sepultura cultural".

Retratos de Touro Sentado em 1885 e do Bispo Martin Marty por volta de 1895. Library of Congress/Collection Manuel Menrath

Muitos pais confiavam voluntariamente seus filhos a Marty e a seus assistentes – principalmente para evitar que as crianças fossem levadas para internatos militares fora das reservas, onde a probabilidade de morrerem era alta.

Mesmo antes de Martin Marty, os Estados Unidos já enviavam crianças indígenas para internatos fora de suas reservas, onde elas eram privadas de sua cultura nativa. Fazia parte da “política de paz”. Como resultado, muitas dessas crianças morriam: vírus e bactérias se proliferavam facilmente nos dormitórios. Cada internato tinha seu próprio cemitério – 190 crianças foram enterradas somente em Carlisle, na Pensilvânia.

Nos internatos católicos dirigidos por Marty, as condições eram um pouco menos militares, e as crianças podiam falar sua própria língua. Mas isso se devia menos ao respeito pela sua cultura nativa e mais a uma estratégia missionária: acreditava-se que o Evangelho acessaria mais facilmente as almas em sua língua materna. Porém, também aqui, quando chegavam ao internato, seus longos cabelos eram logo cortados e suas roupas tradicionais substituídas por vestes brancas.

Martin Marty e dois padres com os primeiros comungantes na Escola Indígena da Imaculada Conceição, Stephan, Crow Creek Reservation, Dakota do Sul, ca. 1888. Collection Manuel Menrath

O ensino em ambientes fechados provavelmente foi uma mudança radical para essas crianças. O historiador Manuel Menrath explica que elas saíram de um mundo em que os ciclos naturais e as trajetórias do sol e das estrelas serviam como pontos de orientação, e foram para um ambiente onde o retângulo dominava: “havia escrivaninhas, camas e portas retangulares. A floresta foi substituída por um jardim ordenado com canteiros retangulares: isso por si só já era uma violação da alma indígena.”

Espancamentos e humilhações

A maneira como as crianças eram tratadas nos internatos católicos seguia um modelo similar ao que era adotado pelas instituições europeias até o século XX: “tudo o que contrariava a concepção burguesa de sociedade deveria ser corrigido”, explica Menrath. O internato era orientado por uma pedagogia nefasta – a disciplina era extrema e as crianças eram trancadas, espancadas, humilhadas.

“Nas escolas cristãs, em particular, isso era considerado legítimo, já que se dizia que aqueles que recebessem punições neste mundo já estavam fazendo penitência pela vida após a morte. Punir o corpo poupava a alma de um tormento maior no purgatório”, lembra o historiador. Além do trabalho e do castigo, as escolas católicas também impunham a reza: as missas eram celebradas antes das aulas da escola e, por isso, o dia começava ainda mais cedo.

Um modelo importante para a vida de Martin Marty: São Francisco Xavier. Wolfgang Sauber

“Matar o índio e salvar o homem” era o novo lema da “política de paz” – que nem sempre funcionou. A doença também era um problema nos internatos católicos e muitas das crianças morriam. A prioridade dada à salvação da alma, e não da pessoa, é ilustrada por um caso grotesco ocorrido na Reserva de Rosebud por volta de 1890.

Enlutado pela morte de seu filho, um pai indígena invadiu o internato da Missão St. Francis e levou seu corpo para casa a fim de dar-lhe um enterro tradicional – um ato escandaloso do ponto de vista religioso, pois a alma católica da criança estaria, assim, perdida. O pai foi então preso, e o corpo da criança morta foi confiscado e enterrado numa cerimônia católica.

Em 1896, quando Martin Marty morreu, mais de 6.000 sioux haviam se tornado católicos – ele foi considerado um dos missionários mais eficazes nos Estados Unidos. Manuel Menrath, porém, não acredita que a política civilizatória tenha sido um sucesso: “é verdade que a maioria dos lakota [sioux] hoje em dia são católicos e ‘civilizados’. Mas as escolas públicas, em particular, ao reunirem crianças de diferentes tribos, criaram um movimento pan-indígena.”

O historiador continua: “a leitura e a escrita lhes permitiu fortalecer sua cultura e transformar as reservas em pátrias. Embora muitos tenham sofrido e perdido suas vidas, no que diz respeito ao objetivo de erradicar tudo o que era indígena nesses povos – a língua, a espiritualidade, a decoração com penas, o cachimbo sagrado –, o etnocídio falhou.”

Adaptação: Clarice Dominguez

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