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O acaso como ingresso para o museu do futuro

Marc-Olivier Wahler, diretor do Museu de Arte e História de Genebra. Eduardo Simantob/swissinfo.ch

O museu do futuro virá da África ou Ásia. Esta é a convicção de Marc-Olivier Wahler, diretor do Museu de Arte e História de Genebra. O curador e crítico de arte ousa fazer uma tentativa radical de romper com os muros do museu.

Este conteúdo foi publicado em 29. agosto 2021 - 10:00

Os museus, como os conhecemos, são uma invenção do século 18. Eles surgiram na esteira do impulso enciclopédico, cujo grande objetivo era esclarecer as massas.

Nos últimos 200 anos, os museus ocidentais também se tornaram um refúgio para os saques coloniais e imperialistas de todo o mundo. Durante este período, a forma como as obras de arte e os artefatos são expostos e classificados permaneceu praticamente inalterada.

Agora, uma nova geração de curadores e diretores de museus se propôs a desafiar radicalmente os conceitos ultrapassados. Eles estão tentando não apenas aceitar o legado colonial, debatendo o retorno das obras de arte a seus países de origem, mas estão também desenvolvendo visões e perspectivas sobre como o museu do século 21 deve funcionar.

Marc-Olivier Wahler pertence a esta geração radical de curadores, cujas carreiras são marcadas sobretudo pela experimentação. As "obsessões" de Wahler são a busca de respostas a duas perguntas que sempre o preocuparam: como habitar um espaço artístico e o que faz de um objeto uma obra de arte?

Após dois mandatos no renomado Palácio de Tóquio (2006-2012), o mais importante centro de arte contemporânea de Paris, e um período no Eli and Edythe Broad Art Museum da Michigan State University (2016-2019) nos EUA, Wahler assumiu o Museu de Arte e História de Genebra há dois anos. Este abriga a mais antiga coleção de obras de arte, artefatos e objetos arqueológicos da Suíça (desde 1776).

Marc-Olivier Wahler convidou o artista e designer vienense Jakob Lena Knebl - que representará a Áustria na próxima Bienal de Veneza - para organizar uma exposição original com objetos da coleção em diálogo com novas obras. Eduardo Simantob/swissinfo.ch

swissinfo.ch: Depois do Palácio de Tóquio - um espaço de arte sem uma coleção - você agora está à frente de um museu tradicional suíço, com uma enorme coleção. O que isso muda na sua carreira?

Marc-Olivier Wahler: Na verdade, trata-se de uma continuidade. No Palácio de Tóquio o trabalho ocorre em um nível horizontal: diretamente com o artista, o processo criativo, a inovação. O ritmo é mais rápido - as exposições são realizadas muito rapidamente.

Mas com uma coleção você pode trabalhar em ambos os eixos, horizontal e vertical. No seguimento do meu trabalho em Michigan, continuo a me concentrar aqui no que significa arte contemporânea, baseada em uma coleção.

Eu continuo me perguntando como se define um museu atualmente. Em 1995, escrevi um artigo chamado "Como se habita um espaço de arte?” Esta pergunta tem sido a base de tudo o que faço desde que fui diretor do Centro de Arte de Neuchâtel (CAN). Lá, entrei em um café-restaurante e depois, por uma porta dos fundos, subi as escadas para um centro de arte.

Foi nesta mesa em 1584 que Genebra e os cantões reformados de Berna e Zurique formaram uma aliança contra a Casa de Savóia, que, juntamente com os cantões católicos, ameaçava a então jovem república calvinista. Lena Knebl reuniu figuras em torno dela e as vestiu com roupas vitorianas da coleção do museu. Eduardo Simantob/swissinfo.ch

swissinfo.ch: Que público você está procurando?

M-O.W.: Para mim, a questão fundamental é: "Por que as pessoas vêm a estes lugares?" A resposta é óbvia, se você estiver interessado em arte ou tiver a sorte de ter pais que o levaram a associações de arte e museus, por exemplo.

Mas a maioria das pessoas não tem tanta sorte, então, por que elas deveriam vir? Eu também fui confrontado com esta pergunta, pois não nasci em uma família interessada em arte. Tudo com o que me deparei foi por acaso. Em Neuchâtel da minha juventude não havia nenhuma cena de arte contemporânea. É por isso que eu confio tanto neste tipo de casualidades: para dar às pessoas a chance de encontrar a arte.

Em 2007 ou 2008, o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem sobre Paris, com um guia de viagem e resenhas. Ele havia mencionado o Palácio de Tóquio como o melhor lugar para um encontro.

Eu pensei: "Rapaz, estou tentando fazer exposições radicais e esta é toda a reação que eu recebo" (risos). Mas depois pensei melhor sobre isso e achei ótimo ir ao Palácio de Tóquio, e me apaixonar pela exposição. Então ela ficará para sempre em sua memória!

Instalação exibindo a cozinha ao longo dos séculos, da Grécia até o design de papel de parede nos anos 1970. Eduardo Simantob/swissinfo.ch

swissinfo.ch: E como você faz as pessoas em Genebra se apaixonarem pela arte?

M-O.W.: Se você pode mostrar que tudo o que está exposto em um museu já foi contemporâneo. Esta é uma maneira de conectar pessoas e épocas, e construir algo que vai além da arte contemporânea.

Aqui você tem relojoaria, numismática e artes e ofícios, entre outras coisas. Talvez não sejam os artistas em si que criaram estas obras, mas os artesãos com uma mente muito criativa. Não faço distinção entre um artesão com uma mente criativa e um artista.

swissinfo.ch: Esta é uma velha pergunta, mas ainda muito atual: como se pode avaliar artisticamente um artefato ou objeto?

M-O.W.: Muitos filósofos lidaram com esta questão, especialmente depois de Marcel Duchamp, mas ninguém realmente encontrou uma resposta.

Quando terminei meu trabalho no Palácio de Tóquio, não consegui encontrar outra instituição que me entusiasmasse e me desafiasse tanto. Por isso, decidi criar eu mesmo a Chalet Society. Este espaço era uma espécie de escola. Era um espaço íntimo, onde eu podia experimentar com artistas de fora.

O escritório do diretor: um saco plástico de Jeremy Deller em um cinzeiro francês, uma foto do grupo inglês Led Zeppelin e um taco de baseball do artista Mathieu Mercier. swissinfo.ch

Ali eu expus uma coleção de objetos educacionais do artista Jim Shaw, sobre a propaganda feita por cultos e ordens religiosas para os seus seguidores. Isso certamente não pode ser chamado de arte. Mas a seleção de Jim consistiu em obras de artistas muito talentosos: pintores, desenhistas, designers, fotógrafos. Não se pode considerá-los arte, mas também não se pode considerá-los objetos comuns - eram coisas “meio-a-meio”.

Se eu tivesse exposto estes objetos no Palácio de Tóquio, teria sido imediatamente arte. Assim que você entra em um museu, há uma autoridade institucional que diz: "O que você vai ver aqui é arte." Mas a Chalet Society não era reconhecida como uma instituição de arte e, portanto, sempre havia esta tensão entre o objeto comum e a obra de arte.

swissinfo.ch: É por isso que você também menciona Duchamp, com seu “urinol”,  e sua crítica às obras de arte?

M-O.W.: Era isso que Duchamp queria alcançar, e em 1917 era muito fácil transformar um objeto comum em uma obra de arte. Mas então ele passou o resto de sua vida - e esta é sua tragédia - fazendo exatamente isso, voltando ao objeto comum, mas perguntando-se: "Podemos criar uma obra que não seja uma obra de arte?”

Então ele passou o resto de sua vida dizendo: "Não sou um artista, sou um engenheiro" e experimentou muitas coisas. Eu acho que ele conseguiu, mas o público não estava preparado para isso, porque as hierarquias e categorias ainda eram muito fortes até os anos 1990. Somente nos últimos 15 anos é que as pessoas começaram a contemplar este tipo de "entre uma coisa e outra", ou “meio-a-meio” como dito antes.

Ícone da arte do século 20: a fonte de Duchamp, é uma das obras de arte mais famosas do mundo. O original, que alegam ter sido jogada no lixo em 1917, consistia em um urinol colocado na horizontal. O Tate Gallery em Londres tem uma réplica datada de 1964. Marcel Duchamps/Public Domain/Alfred Stieglitz

swissinfo.ch: Dada a enorme produção artística das últimas décadas, o curador não se torna ainda mais importante, porque ele é o único que pode dar sentido a toda essa produção?

M-O.W.: Joseph Beuys disse que toda pessoa é um artista. Mas hoje, todos também podem ser curadores. Fazer listas de compras, por exemplo, é curadoria. E todos são também colecionadores. Então, o que tudo isso significa?

Existe arte boa e arte ruim. Se é boa ou não, depende apenas de seu gosto. É muito confuso para as pessoas, porque não podemos confiar em uma autoridade superior.

Seu gosto é baseado em sua própria história e em suas crenças. Quanto mais um objeto é interpretado, mais coerente, denso e eficaz ele é. Com uma ou duas interpretações, você tem uma cadeira simples; com três ou quatro, uma cadeira de designer; com cinco, seis, sete, pode se tornar uma obra de arte; com 15, 20, torna-se uma obra prima.

Mesmo uma obra de arte bem projetada, digamos uma pintura acadêmica do século 19, que permite apenas uma ou talvez duas interpretações, pode não ser boa. É provavelmente por isso que Duchamp é um dos maiores artistas: cada geração o redescobre com novas interpretações.

swissinfo.ch: Então como você lida com essas convicções quando trabalha em uma instituição, e tem que apresentar e comunicar o objeto a um público?

M-O.W.: A função (da instituição) é apresentar o objeto de tal forma que ele permaneça como deve ser: ou seja, neutro. Mas também tenho que criar as condições para que os visitantes possam expressar livremente sua interpretação, sem se sentirem intimidados pela autoridade da instituição.

A "Venus Italica" do escultor Antonio Canova (1757-1822) colocada em um chuveiro. Ao fundo "A empregada trazendo água para o banho da íris" (Utagawa Kunisada, 1786-1865). De acordo com Marc-Olivier Wahler, o valor artístico de um objeto reside na riqueza de interpretações que possam ser feitas dele. Eduardo Simantob/swissinfo.ch

swissinfo.ch: Esta é uma diretriz para o museu do futuro?

M-O.W.: Não apenas isso. Nos últimos 10 a 15 anos, ficou claro que o museu como o conhecemos vai mudar. Há centenas de artigos e livros sobre o museu do futuro, todos fazendo esta pergunta, mas ninguém sabe a resposta. Eu também não tenho uma resposta, mas tenho dez anos para pensar sobre isso, e para experimentar.

swissinfo.ch: O que você pode dizer sobre isso até agora?

M-O.W.: Para mim, uma coisa é certa: o museu também deve ser um projeto urbano. Quase todos os artigos e análises que li sobre o museu do futuro são sempre sobre o que acontece dentro das quatro paredes do museu.

Para mim, entretanto, o museu tem que se desenvolver como um projeto urbano aonde as pessoas que vêm não sabem realmente se já estão no museu ou se ainda estão na rua. Imagine andar de skate e de repente se encontrar em uma exposição.

swissinfo.ch: Então você quer derrubar “os muros do museu” e sair para a rua?

M-O.W.: Sim, eu gostaria de integrar os museus ao planejamento urbano. O melhor exemplo que posso encontrar em relação ao nosso contexto atual é o Centro Pompidou, inaugurado em 1977.

A estátua de Ramsés II. (1290-1224 v. Chr.) frente a uma cama que Marc-Olivier Wahler utilizaria para uma performance no dia da entrevista realizada por SWI swissinfo.ch. Eduardo Simantob/swissinfo.ch

Ali, o espaço foi concebido para servir de passagem entre duas ruas. Isto aconteceu por três anos, quando o centro estava sob a direção do curador sueco Pontus Hultén, mas depois a administração acabou com todo o plano.

swissinfo.ch: Resta a questão da origem da coleção e o debate atual sobre a devolução dos objetos saqueados. O conceito do museu em si é uma ideia ocidental. Então, o que esta questão tem a ver com o futuro dos museus?

M-O.W.: Tomemos a questão em torno do "cancelamento da cultura" (a punição do mau comportamento com exclusão). Se eu tivesse que exibir uma estátua de alguém que estivesse envolvido no tráfico de escravos, eu o faria. Mas eu a exibiria com as informações apropriadas, porque faz parte de nossa cultura. O mesmo acontece com os museus.

O museu é uma invenção ocidental e colonial - não precisamos disfarçar isso, temos que aceitá-lo. Mas com todas as ferramentas críticas que aproximam as pessoas de nosso passado, e lhes mostram por que este tipo de ferramentas são necessárias.

Quando pensamos no museu do amanhã, penso que a resposta virá da África ou de partes da Ásia. Não da América do Norte nem da Europa.

Lá existem muitas restrições para mostrar certas obras e, mesmo com espírito ocidental, eles têm que encontrar uma maneira criativa de mostrá-las.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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