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"A Suíça deve saber para onde quer ir no mundo"

O ministro suíço das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, durante sua visita à Argélia Keystone / Youcef Dehouche

O plebiscito da identidade digital (E-ID), programado para 7 de março, e o voto dos suíços do estrangeiro. A nova estratégia da Suíça para a África e seu papel no Oriente Médio: o ministro suíço das Relações Exteriores, Ignazio Cassis, responde a essas e outras perguntas.

Este conteúdo foi publicado em 24. fevereiro 2021 - 10:00

swissinfo.ch: As pesquisas indicam uma maioria apertada para a proposta da identidade digital. O Senhor nos convidou para conversarmos sobre esse assunto. O Conselho Federal (n.r.: o governo da Suíça) precisa do apoio dos suíços do estrangeiro para conseguir uma aprovação à essa proposta de lei?

Ignazio Cassis: Sim, é claro que o Conselho Federal precisa dos suíços no estrangeiro. Necessitamos do apoio da maioria (dos eleitores). Se esses votos vêm da Suíça ou do exterior, não importa. Mas os suíços do estrangeiro têm mais um motivo para votar a favor da proposta: eles querem um melhor serviço nos consulados.

Um melhor serviço significa não ter de viajar duas horas para apresentar a identidade no guichê ou enviar uma cópia de seu passaporte - ou o passaporte - pelo correio. A identidade eletrônica seria, de fato, a solução perfeita para permitir uma identificação simples e segura para os serviços consulares.

swissinfo.ch: A Organização dos Suíços do Estrangeiro (OSE) votou a favor da identidade eletrônica, mas sem muita convicção. O vice-presidente da OSE, Filippo Lombardi, disse que a identidade eletrônica tem uma importância questionável para os suíços do estrangeiro. Ele se enganou?

I.C.: Em todo caso, tenho outra opinião. As pessoas frequentemente misturam temas como a votação eletrônica e a identidade eletrônica. Porém elas não estão diretamente relacionadas. A votação eletrônica também é possível sem uma identidade eletrônica, mas ela seria muito mais fácil de implementar se essa forma de identificação existisse.

swissinfo.ch: Durante anos, a Quinta Suíça (n.r.: forma como os suíços denominam a comunidade de suíços que vivem no exterior) lutou contra a diminuição da rede de embaixadas e consulados. Recentemente, o Ministério das Relações Exteriores confirmou que as representações menores serão novamente fortalecidas. Onde ocorrerá esta expansão?

I.C.: A análise das necessidades ainda está em andamento. Mas estamos falando de uma reestruturação, não de uma expansão. Os postos de trabalho estão sendo transferidos da Suíça para o exterior. Nos últimos anos reduzimos pessoal nas representações e os substituímos por funcionários contratados localmente. Durante a crise da pandemia, percebemos a importância de ter uma rede no exterior para apoiar cidadãos suíços em necessidade.

Em uma crise global como essa, as embaixadas e consulados menores atingem rapidamente seus limites. É claro que é possível enviar funcionários de Berna em caso de necessidade, mas certas representações devem ser reforçadas em princípio, tanto com pessoal consular como diplomático.

swissinfo.ch: Foi a pandemia que levou o governo a mudar de ideia?

I.C.: Não. A crise do Covid mostrou de forma mais clara essas deficiências, mas mesmo antes da pandemia, tinha a impressão de que algumas missões estavam operando nos limites do que era viável. Em parte, devido às restrições de recursos; em parte, devido à falta de objetivos e mandatos claros. Porem minhas instruções já eram claras, pois sempre considerei que o nosso trabalho não é feito em Berna, mas sim nas nossas representações no exterior.

swissinfo.ch: Em suma, o senhor determinou uma reorientação da estratégia?

I.C.: Não é tão simples assim. Estamos constantemente avaliando a nossa rede de embaixadas e consulados para ver se ela atende aos desafios atuais. Um consulado é fechado em um lugar, enquanto um novo é aberto em outro. O fechamento de quatro pode ser seguido pela abertura de cinco novas representações. Analisando a longo prazo o quadro, percebemos que a Suíça tem uma presença bastante constante no mundo com suas 170 representações. Mas sim, também cometemos erros: Chicago foi um deles. Não deveríamos ter fechado aquele consulado. Eu reverti essa situação.

swissinfo.ch: Um grande problema para os suíços do estrangeiro no momento é o acesso às vacinas. Muitos consideram a possibilidade de viajar à Suíça para serem vacinados. O EDA estaria tendo conversações com o Departamento Federal de Saúde Pública (BAG, na sigla em alemão) sobre a questão. Existe uma solução?

I.C.: Tivemos conversações entre o EDA e o BAG, mas se limitou a tratar da questão de vacinação de diplomatas estrangeiros na Suíça, bem como os funcionários internacionais em Genebra. No caso dos suíços do estrangeiro, eles devem sempre se vacinar em seu país de residência. No entanto, isto não os impede de viajar para a Suíça para se vacinarem. Entretanto, somente as pessoas que têm um seguro de saúde na Suíça têm direito à vacinação gratuita.

swissinfo.ch: O senhor acaba de retornar de uma visita oficial à Argélia, Mali, Senegal e Gâmbia. Há algum progresso nos acordos de migração, particularmente com a Argélia?

I.C.: A Argélia desempenha não apenas um papel fundamental na redução do fluxo migratório da África Ocidental à Europa, mas também na proteção desses grupos. O fato de não haver problemas muito maiores na rota de migração da África Ocidental também é graças à Argélia. Esse reconhecimento, que a Argélia tem uma boa atuação, ocorreu durante a viagem.

O desafio que esses países enfrentam é muitas vezes esquecido quando falamos de migração na Suíça. Reconhecê-lo abriu a porta a conversações sobre readmissão de migrantes, assim como acordos bilaterais de readmissão em geral.

swissinfo.ch: Porém o objetivo da Suíça é fazer com que as readmissões de migrantes funcionem, certo?

I.C.: Essa afirmação seria uma simplificação e precisa ser avaliada com diferenciações. O que está em jogo é a existência humana e as sensibilidades interculturais. A Argélia, por exemplo, quer evitar imagens de voos de repatriação fretados por razões políticas internas, mesmo se esses migrantes estiverem retornando de forma voluntaria. Essas sensibilidades precisam ser consideradas nessas conversações e soluções construtivas elaboradas em conjunto.

swissinfo.ch: Como o senhor analisa a reputação da Suíça nos países visitados?

I.C.: Esses quatro países respeitam muito a Suíça pelo fato de termos nossa própria estratégia em relação à África. É preciso saber: é a primeira vez que a Suíça tem uma estratégia específica para a África, ou seja, uma visão a partir da qual os objetivos são determinados. Essas metas levam a medidas. E os resultados dessas medidas podem ser medidos em relação às metas.

swissinfo.ch: Soa como papel, mas não algo muito concreto...

I.C.: Mas é. Pegue o exemplo do Mali, país que tem hoje um governo de transição. As pessoas vivem em grande insegurança, apesar da forte presença de forças de paz estrangeiras. A Suíça oferecemos um acompanhamento das próximas eleições na primavera. Também poderíamos apoiar o país no processo constituinte.

Também na área de cooperação para o desenvolvimento a Suíça está presente nesse país. Eu visitei uma fábrica de laticínios. Antes a produção era de dois a três litros de leite diários por vaca. Graças ao nosso apoio, elas agora produzem entre sete a oito litros por dia. O objetivo é chegar a 20 litros por dia, dez vezes mais com o mesmo rebanho.

swissinfo.ch :E por que o Mali é uma prioridade para a Suíça?

I.C.: Trata-se de uma política externa proativa, algo importante para mim. A política externa da Suíça é frequentemente vista como oportunista e reativa: nos prestamos ajuda ou oferecemos nossos bons ofícios. Tudo isso é importante - e continua o sendo - mas não basta. A Suíça deve determinar sua direção no mundo. Por isso elaboramos estratégias geográficas e temáticas. Minha viagem à África foi o ponto de partida para a implementação da chamada Estratégia para a África Subsaariana.

swissinfo.ch: Em termos de migração, cresce a importância da região do Magreb (n.r.: que compreende uma grande parte do norte da África). Uma questão que entrou no radar do país?

I.C.: Sim, a crescente importância do Magreb é a razão da minha viagem à região. Eu visitei o Egito em 2019. Nos últimos quinze anos nenhum ministro suíço das Relações Exteriores havia visitado a Argélia, assim como por muitos anos também a Tunísia, Marrocos ou Líbia. Esses países têm sido negligenciados nos últimos anos. Por isso meu objetivo agora é visitá-los consecutivamente.

swissinfo.ch: Sua visita à Jordânia em 2018 ainda é discutida na Suíça. A pressão interna deve-se, em parte, às suas críticas à Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Próximo Oriente (UNRWA). Como está a situação no Oriente Médio hoje?

I.C.: O fato de um número crescente de países árabes ter normalizado as relações com Israel é um desenvolvimento muito importante. Isso mostra que, em uma região onde o conflito e a desconfiança dominam, também são possíveis cooperação e a reconciliação. Ao mesmo tempo, devemos ter cuidado para que isto não crie fissuras no Oriente Médio.

Esta dinâmica positiva leva os palestinos a discutir seriamente novamente sobre reconciliação interna. A Autoridade Palestina em Ramallah, por exemplo, não pode hoje decidir o que acontece em Gaza. Esta divisão enfraquece a legitimidade das instituições palestinas. Minha esperança é que, em breve, sejam organizadas eleições e os palestinos possam falar com uma só voz novamente. Então, o mundo inteiro ouvirá.

swissinfo.ch: Israel também?

I.C: Primeiro visitei Israel no ano passado. Depois os territórios ocupados. Lá também conheci o primeiro-ministro e meu colega de pasta. Eu disse a ambos: "precisamos voltar à mesa de negociações, mas não com os resultados prontos em mente". Também ofereci Genebra como local para futuras negociações.

swissinfo.ch: A Suíça como mediadora no conflito do Oriente Médio? Isso ocorre, de fato?

I.C.: Eu percebi mais uma vez quão forte é a confiança na Suíça em ambas os lados. Nossos bons serviços são colocados à disposição deles. Agora as partes devem concordar em começar a negociar. Porém eu acredito que haverá atrasos com as próximas eleições em Israel e nos territórios ocupados

swissinfo.ch: Mas o contexto já está definido: a Suíça apoia a solução dos dois Estados?

I.C.: Sim, a solução dos dois Estados é o objetivo. O direito internacional é o contexto. Mas cabe às partes negociar para saber como chegar a esse objetivo. E isso, com apoio da Suíça e da comunidade internacional.

swissinfo.ch: A situação munda com a chegada de um novo presidente em Washington. Dentre outros, Joe Biden propõe solucionar rapidamente o conflito no Iêmen. A Suíça poderá participar nesse processo como mediadora?

I.C.: Nós oferecemos obviamente nossos bons ofícios. Também apoiamos a ONU em seus esforços para encontrar uma solução política para o Iêmen. A decisão de Joe Biden é importante. Ela tem o potencial de pressionar para uma solução pacífica e política do conflito.

Em 1º de março, eu e minha colega de pasta da Suécia organizaremos em Genebra uma conferência de doadores sobre ajuda humanitária. As necessidades são imensas. Chegou realmente a hora de um cessar-fogo permanente no Iêmen.

Adaptação: Alexander Thoele

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