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Um bom exemplo empresarial no meio de tanta disparidade

A remuneração das mulheres sofre com a discriminação ainda muito enraizada na Suíça. Uma contradição,  porque a igualdade entre os gêneros é frutífera, até do ponto de vista empresarial, observa Pierre-Alain Urech, diretor geral da Romande Energia, incluída entre as raríssimas empresas helvéticas que conseguiram um atestado de paridade salarial.

Este conteúdo foi publicado em 06. março 2015 - 11:00
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No geral, as mulheres ganham 7,7 bilhões de francos suíços por ano menos do que os homens, dos quais cerca de 2,9 bilhões devidos à pura discriminação. Gaetan bally / KEYSTONE

«A Suíça oferece o melhor exemplo de certificado empresarial sobre a igualdade salarial entre homens e mulheres»: o veredito foi expresso numa publicação da Comissão européia de 2014, dedicada às medidas para a eliminação das diferenças de remuneração entre os sexos. Neste caso, a certificação é a equal-salary, lançada pela homônima fundação, com sede em Vevey. E é também aquela obtida pelo quinto maior distribuidor de eletricidade da Suíça, a já citada Romande Energie.

O procedimento para a verificação se uma empresa pratica uma política salarial de igualdade entre os gêneros dura de 4 a 6 meses. O Observatório do trabalho da Universidade de Genebra e uma auditoria internacional realizam a investigação. Se  encontram disparidades, a empresa deverá eliminá-las para poder ganhar a marca equal-salary, com validade de três anos.

«Admito que não pensava que esta perícia fosse tão longe», sublinha Pierre-Alain Urech. E ele nos faz uma minuciosa análise de todo o processo que passa a limpo a documentação empresarial, inclui entrevistas ao pessoal e perguntas à queima roupa aos dirigentes. «A cada afirmação minha me pediam para comprová-la com os fatos: declarações, regulamentos, contra-cheque, etc...».

Para Pierre-Alain Urech, diretor de Romande Energie, a igualdade entre homens e mulheres é um valor empresarial fundamental. zvg

O diretor do grupo energético, com sede em Morges (oeste), confessa também que «teve até mesmo um momento no qual arrisquei perder as estribeiras, porque tinha a sensação de não passar credibilidade, uma vez que praticamos, cotidianamente e já faz anos, uma política de paridade. E não apenas nos salários».

Perda de vontade

Entretanto, as glórias e bons auspícios de Bruxelas e de Pierre-Alain Urech para este instrumento soam como um paradoxo. Na Suíça, realmente, as empresas que usam este instrumento são uma exceção. Atualmente, apenas nove companhias possuem a marca equal-salary.

Nem mesmo o mais suave Diálogo sobre a paridade salarial – um programa da Confederação e das organizações patronais e sindicais, que permitia às empresas, com pelo menos 50 empregados, a uma verificação gratuita de que não existissem disparidades salariais entre os sexos e de correção às eventuais discriminações – sensibilizou as empresas: de um total de dez mil, 51 participaram, das quais 36 públicas ou paraestatais.

No entanto, na Suíça, a diferença salarial entre mulheres e homens voltou até mesmo a aumentar, nos últimos anos. Segundo os dados do Departamento federal de estatística, em 2012, na economia privada ela chegava a 18,9% ,contra 18,4%, de 2010.

A diferença de remuneração de gênero ( gender pay, GPG) varia, intensamente, entre os setores: vai de 6 a 32%, como indica o gráfico abaixo.

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Certamente, a Suíça não brilha no confronto internacional. Como se observa no gráfico seguinte, o país apresenta um GPG superior ao da média dos países da Organização para a cooperação e do desenvolvimento ecônomico (OCDE) e está atrás de três grandes vizinhos: Alemanha, França e Itália

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Parte da diferença salarial não se explica com alguns fatores objetivos,  por exemplo, a formação, a competência, a experência ou  a responsabilidade.  Então, se trata de pura discriminação. E na economia privada, em 2010, segundo os cálculos do Departamento federal de estatística,  ela se traduzia em quase 38% de diferença salarial média entre homens e mulheres.

Novas medidas legais

Anunciando que o governo encarregou os ministérios competentes na elaboração de um projeto de lei até a metade de 2015, a ministra da Justiça, Simonetta Sommaruga, em outubro passado, antecipou que as empresas estariam livres para a escolha do fiscal da igualdade salarial:  os parceiros sociais, uma auditoria externa de revisão ou um organismo reconhecido pelo Estado. O resultado deverá ser publicado no relatório de gestão mas sem a obrigação de mencionar o percentual da diferença de um eventual “gap” salarial entre os gêneros. Se fossem constatadas discriminações e a empresa não corrigisse o tiro, o Estado não interveria oficialmente para obrigá-la a sanar o problema: os diretos interessados são quem deverão agir por meios legais.

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O governo quer agir

Diante destes indicadores e da evidência de que não existe uma vontade patronal generalizada para aprumar a mira, o governo federal anunciou a intenção de obrigar as empresas- com 50 dependentes, no mínimo - a verificarem o respeito da igualdade salarial, periodicamente. O projeto de lei está previsto para a metade deste ano.

Imediatamente, a União suíça das artes e dos ofícios declarou que se « opõe vigoramente» à introdução de controles externos obrigatórios. Segundo a organização das pequenas e médias empresas, se trataria de  «um exercício burocrático, caro e complexo». Ela quer a continuação do debate através do diálogo. Opinião completamente compartilhada pela União suíça dos empresários que se refere a «uma obrigação inútil » e de «um ato de desconfiança contra a economia ».

Mesmo considerando «absolutamente indecente que, pela igualdade de competência e de experiência num mesmo trabalho, uma mulher seja remunerada menos do que um homem», até Pierre-Alain Urech é crítico sobre a ideia de uma análise externa imposta por lei. «Acho que deveria se apelar para a responsabilidade das direções empresariais, sem que se faça uma mobilização geral ».

Uma questão de responsabilidade

E foi mesmo o senso de responsabilidade, «seja consigo próprio, seja social », que incentivou a companhia Romande Energie a submeter-se, volutariamente, à certificação equal-salary. «Prioritariamente, com uma perícia externa, neutra e rigorosa, queríamos provar ao nosso pessoal que um dos valores fundamentais proclamados na empresa realmente acontece», explica Pierre-Alain Urech. «Creio que isto garante a serenidade, a qualidade do trabalho, além de evitar tensão e suspeita».

Quanto aos efeitos externos, a certeza de que o grupo pratique a paridade de tratamento « nos dá uma possibilidade extra de trazer ainda mais talentos, reforça a nossa atração».

Segundo o diretor de Romande Energie, cada empresa deveria se interessar em conduzir uma gestão paritária de recursos humanos e, idealmente, a submeter-se a uma auditoria externa e neutra. Porque isto «é sensato mesmo em termos econômicos: a satisfação do pessoal se reflete também no seu desempenho, porque se sente mais motivado, trabalha melhor e mais para a empresa ». Uma mensagem da qual se espera que muitos dos mais de 750 empregados do grupo energéticos se transformem em embaixadores, em porta-vozes. 

Constituição desrespeitada por 34 anos

O tema da Jornada internacional da mulher 2015 na Suíça é a paridade salarial entre os gêneros. Uma vasta coalizão de organizações femininas, sindicatos e partidos políticos organizou um protesto nacional, sábado, na Praça federal, em Berna, para exigi-la sem nenhuma indulgência. Aos seus olhos, é inadmissível que um artigo constitucional de 1981 e uma lei de 1996, que sancionam a igualdade entre a mulher e o homem, sejam letras mortas e ainda não tenham sido aplicados no mercado, sem desconto algum. 

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