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Mineração de empresas suíças contamina peruanos

Os moradores dizem que a mina de Tintaya-Antapaccay causou a morte ou o aborto de animais de seus rebanhos e que as pessoas ficaram gravemente doentes. Paula Dupraz

Após a publicação de relatórios, cresce a preocupação sobre danos causados à saúde de populações tradicionais peruanas que vivem no entorno de um complexo de mineração da Glencore. A empresa, sediada na Suíça, nega a responsabilidade e afirma que a presença de metais é uma característica natural do meio ambiente local.

Este conteúdo foi publicado em 07. agosto 2021 - 12:00
Paula Dupraz-Dobias

A mais de mil quilômetros da capital do Peru e a meio mundo de distância da sede da Glencore em Zug, na Suíça, comunidades rurais de uma das regiões mais pobres do país andino vivem perto de um enorme complexo de mineração da empresa sediada na Suíça. As populações locais, vulneráveis, estão sofrendo dramaticamente os efeitos da pandemia de Covid- 19.

Depois que o Peru impôs uma das medidas de bloqueio mais severas do mundo, ordenando o fechamento de empresas e a suspensão do transporte entre regiões por longos períodos, muitos dos habitantes da região de Espinar afundaram ainda mais na pobreza, perdendo seus empregos no setor informal. Em maio de 2020, depois que o primeiro caso de Covid-19 chegou ao distrito montanhoso no sudeste do Peru, os serviços médicos logo ficaram sobrecarregados, antes das ondas subsequentes de infecção ainda mais graves no início de 2021.

A falta de água potável, que os moradores do distrito de Espinar há muito tempo atribuem à atividade da mina da Glencore, complicou os efeitos colaterais do bloqueio sanitário.

Quando as viagens intermunicipais foram retomadas com limitações, somente os moradores com parentes em outras aldeias podiam viajar para outras localidades e trazer água engarrafada. Com o bloqueio sanitário, as comunidades que vivem isoladas no entorno da mina foram forçadas a usar  a água que havia disponível no local para tudo.

“Minha irmã trouxe água [engarrafada], porque não podemos beber esta água que temos”, disse Yenny Kana Magaño à swissinfo.ch em junho. Ela falou de Huisa, uma pequena comunidade próxima à mina, onde voltou para a casa de sua família depois de perder o emprego como trabalhadora de campo em 2020 em uma província vizinha. Ela disse que anos atrás a família costumava usar um poço de água próximo. “Mas a água praticamente sumiu atualmente. Antes a água era cristalina, mas agora é gordurosa, cheia de sedimentos”, lamenta.

As relações entre as comunidades locais e a operação de mineração da Glencore já eram tensas antes da pandemia, como mostrou o relatório EspinarLink externo, de 2019 . Enquanto a gigante da mineração com sede na Suíça planejava uma expansão de de sua mina Tintaya-Antapaccay que custaria US $1,47 bilhão (CHF 1,35 bilhão), os moradores indígenas denunciavam como a operação da mineradora afetam a qualidade de vida das populações locais. A falta de água limpa e a contaminação por metais tóxicos causam morte ou aborto nos animais das comundiades locais e as pessoas ficam gravemente doentes, apontaram.

“A poeira é constante”, disse Kana Magaño durante uma ligação no WhatsApp. “Suja a água, o rio e entra nos meus olhos. Às vezes ligamos para o gerente da mina. Antes minha mãe não dizia nada. Mas hoje, não mais".

O complexo, localizado a aproximadamente 4.100 metros acima do nível do mar, extrai principalmente cobre, mas também prata e ouro. A parte mais antiga da mina, Tintaya, que foi em grande parte desativada e se estende por uma das quatro bacias hidrográficas localizadas dentro do complexo, é um reservatório de rejeito, onde os resíduos da escavação são despejados. Outros reservatórios com rejeitos da mineração se espalham pela enorme propriedade da Glencore, guardados por sua própria força de segurançaLink externo.

O peso dos dados

Em maio, a Anistia Internacional publicou um estudo que descobriu que os níveis de metais e substâncias tóxicas em participantes de testes de 11 comunidades e em amostras de água recolhidas perto das minas apresentavam riscos para a saúde da população da área. A investigação, conduzida entre 2019 e abril deste ano, encontrou níveis elevados de metais e substâncias tóxicas, incluindo arsênio, manganês, cádmio, chumbo e mercúrio em amostras de sangue e urina de 78% das pessoas que foram voluntárias na pesquisa.


Evidências científicasLink externo confirmam que a exposição às substâncias tóxicas pode causar de tudo, desde dores de cabeça e náuseas a sérios danos aos órgãos, incluindo doenças renais, lesões pulmonares e cerebrais e até a morte. Os metais também são prejudiciais à saúde animal.

“Este é um primeiro nível de evidência, um primeiro passo”, disse Fernando Serrano, que chefiou a pesquisa. Metais tóxicos podem entrar no corpo através da respiração de um ar contaminado, do consumo de água e alimentos contaminados ou pelo contato com poeira contaminada, de acordo com Serrano, professor da Universidade de St Louis em Missouri, nos Estados Unidos. Ele explicou, porém, que um monitoramento regular da água e do meio ambiente, ao longo do tempo, seria necessário para definir a origem exata da contaminação em Espinar.

Embora estudos anteriores tenham sido conduzidos em resposta às preocupações das comunidades locais, o estudo da Anistia realizado em colaboração com o grupo regional de direitos civis, o DireitosLink externo Humanos sem FronteirasLink externo, foi a primeira investigação independente rigorosa que testou os próprios residentes de toda a região afetada e foi feito de acordo com padrões de referência atualizados.

A Glencore havia argumentado que resquícios de metais que haviam aparecido em testes anteriores com água e animais eram normais de um ambiente rico em minerais. A empresa não respondeu diretamente às perguntas sobre o último relatório publicado pela Anistia que relaciona a atividade de mineração e os níveis de resíduos tóxicos no abastecimento de água.

“A área de influência da operação da Antapaccay inclui os rios Cañipia e Salado. Ambos os rios possuem água mineralizada devido à presença natural de minerais no solo. Isso foi previamente confirmado pelas autoridades peruanas, entre elas a Autoridade Nacional de Águas”, disse Glencore em respostas por e-mail às perguntas da SWI swissinfo.ch.

Na mesma época em que a investigação da Anistia foi publicada, outro estudo conduzido pelo Ministério da Saúde que monitorou a água em 13 comunidades próximas à mina chegou a conclusões semelhantes às da Anistia, mostrando a presença de arsênio, além de outros metais nas amostras de água. Apenas em um dos 43 locais ao redor da mina onde as amostras de água foram coletadas, os testes indicaram que a água era adequada para consumo humano.

Pobreza em saúde

No hospital em Espinar, uma cidade de 32.000 habitantes a cerca de 30 minutos em uma estrada não pavimentada do ponto mais próximo do extenso complexo da Glencore, Nubia Blanco Pillco, ex-diretora do hospital, disse à SWI swissinfo.ch que durante a pandemia, os residentes se sentiram abandonados devido à falta de atenção médica adequada, especialmente em áreas remotas. Blanco Pillco dirigiu o hospital até 7 de julho, quando um sucessor assumiu o posto.

As instalações de saúde em Espinar são limitadas, mesmo na cidade principal do distrito, onde, em termos de estrutura, o hospital está apenas um degrau acima dos postos de saúde básicos espalhados nas comunidades que cercam o enorme complexo de mineração.

No próprio hospital, a água é escassa, disponível apenas algumas horas por dia. “É a mesma água que todos recebem. Não é tratada para retirada dos metais e resíduos obstruem as tubulações (no prédio) ”, disse a funcionária do hospital.

Além da demanda de saúde esmagadora do Covid-19, desde o ano passado uma das enfermeiras do hospital desenvolveu câncer de pulmão, enquanto um médico foi diagnosticado com câncer de tireoide. Meia dúzia de pacientes desenvolveram outras formas da doença. O hospital não possui máquina de tomografia computadorizada, laboratório para coleta e análise de sangue e nem cadeira de rodas adequada. “Falta muita coisa”, disse Blanco Pillco.

A Glencore doou oxigênio para suprir a escassez causada pelo aumento da demanda devido à Covid-19. Blanco Pillco diz que os representantes da mineradora também pediram ao hospital uma lista do que era necessário e disse que contratariam um médico para examinar a lista e avaliar o que poderia ser feito. No entanto, um porta-voz da Glencore disse à SWI swissinfo.ch que a empresa não se comprometeu a contratar equipe médica para o hospital porque apenas o Ministério da Saúde do Peru pode contratar tal equipe.

Apesar de advertências anteriores sobre os efeitos nocivos da exposição a metais tóxicos, o investimento em saúde públicaLink externo para o atendimento de pacientes que sofrem os efeitos da exposição às substâncias no Peru diminuiu nos últimos anos.

Exposição tóxica

Em 2020, o ministério da saúde do Peru emitiu uma declaração importanteLink externo, apontando que cerca de 10 milhões de peruanos corriam o risco de exposição a metais pesados ​​e outras substâncias tóxicas, incluindo 6 milhões de pessoas expostas a arsênio e metalóides. A plataforma preexistente conhecida como Estratégia Nacional de Saúde para o Cuidado da Contaminação com Metais Pesados ​​e outras Substâncias QuímicasLink externo identificou Espinar como uma área onde a população está em risco de exposição.

Nesse ínterim, uma decisão do Tribunal Superior de Cusco determinou que o ministério da saúde do Peru elaborasse e implementasse uma estratégia de saúde pública exigida um ano antes por um tribunal de Espinar, para tratar da questão da contaminação por metais pesados, em um prazo de 90 dias.

O relatório da Anistia condenou o Estado peruano por ter falhado por muito tempo em sua obrigação de garantir o direito à saúde às comunidades indígenas próximas à mina Antapaccay. Também recomendou que uma estratégia holística de saúde pública e ambiental seja implementada para lidar com a contaminação e exposição às substâncias tóxicas, além de garantir o acesso à água segura a saneamento para as comunidades indígenas.

Serrano, entretanto, lamentou que o Peru não tivesse capacidade para projetar e implementar um programa de saúde dedicado aos metais tóxicos. “No geral, o sistema de saúde está tão falido - o que ficou evidente com a pandemia - e especificamente com relação a essa questão, que teremos que mover céus e terra”.

Ao testar o sangue e a urina das pessoas em busca de cinco metais tóxicos, Serrano disse que ficou paralisado pelas grandes discrepâncias nos valores de referência encontrados nas regulamentações peruanas em comparação com os padrões internacionais. “Como sabemos se (os níveis de sangue e urina) estão altos ou baixos, se você está protegido ou em perigo?”

A falta de conscientização dos funcionários públicos sobre os níveis mais elevados de risco de exposição aos metais irrita Blanco Pillco, ex-diretora do hospital. “Em outros países, se essas porcentagens [de metais tóxicos no sangue] fossem registradas, a mineradora estaria infringindo a lei e seria punida.”

Funcionários do ministério da saúde e autoridades regionais de saúde não responderam aos pedidos de comentários.

Reparações

Outro estudo do ministério do meio ambiente com amostras de água e solo de áreas ao redor da mina começou em março para determinar a fonte da contaminação. O ministério do meio ambiente não respondeu a vários e-mails e mensagens de WhatsApp para discutir sua própria investigação e outros estudos recentes. No passado, funcionários do ministério, bem como das administrações de saúde pública e agricultura mantiveram um argumento semelhante ao da mineradora, afirmando que a contaminação seria “natural”.

Os resultados do estudo do Ministério do Meio Ambiente devem servir de base para um plano de reparações, conforme exigido pelo tribunal de Cusco, para as comunidades afetadas pela contaminação por metais tóxicos.

Serrano, chefe da pesquisa da Anistia, havia investigado anteriormente a contaminação tóxica em Cerro de Pasco, outra cidade mineira peruana que foi considerada um dos lugares mais poluídos do mundo. A operação de mineração lá agora é parcialmente propriedade da Glencore, após ter sido administrada por várias entidades ao longo de mais de 100 anos de história. Serrano acredita que as discussões sobre as indenizações podem mudar o jogo.

“A ideia de reparação é nova e agora a temos em um marco jurídico, no contexto da decisão de Cusco. Quando você junta isso, dá esperança de que, se comunidades continuarem pressionando possamos ver algum movimento e alguma mudança, o que seria muito bom”.

Mas de volta à região de Espinar, os moradores estão ficando cada vez mais impacientes e exigem uma vida mais saudável.

“[Glencore] deveria vir e ver por si mesma”, disse Kana Magaño enquanto falava ao lado da cerca do complexo de mineração, a poucos metros da casa de sua família. “Vejo como se vendem dentro do país, dizendo que geram desenvolvimento. Mas acho que deveríamos ter pelo menos água potável. Se todos tivessem água, pessoas como eu não teriam que sair. ”

Glencore disse em uma resposta por e-mail que: “Antapaccay incentiva esforços para melhorar o acesso à água para as comunidades rurais e urbanas de Espinar, apoiando iniciativas que abordam questões de quantidade e qualidade da água”.

A empresa acrescentou que investiu em um sistema de irrigação para a produção agrícola e infraestrutura hidráulica para coletar a água da chuva em uma barragem. “Prevê-se que dez atividades agrícolas e pecuárias de diferentes comunidades serão beneficiadas pela barragem”, disse Glencore.

COVID-19, conflito social e contribuições da comunidade

Como um dos países mais afetados globalmente pela pandemia, o Peru revisou sua contagem oficial de mortes pela doença em maio, mais do que dobrando uma estimativa inicial e colocando-o atualmente como o líder global em termos de mortes confirmadas por milhão de habitantes. Na região de Espinar, o vírus evidenciou uma situação de saúde que já era preocupante.

A Anistia Internacional informou que quase 80% das pessoas questionadas disseram não ter seguro de saúde e quase dois terços não tinham acesso a cuidados de saúde nas suas comunidades. Todas as pessoas entrevistadas disseram estar preocupadas com a água e 71% afirmou que não a tinham em quantidade suficiente.

Em 2019, os líderes comunitários em Espinar pediram à Glencore fundos para construir um laboratório para o hospital como parte do acordo-quadro de longo prazo da empresa com o município, que se compromete a investir 3% de seus lucros anualmente em projetos locais, como saúde, educação, infraestrutura hídrica e segurança alimentar. Mas Nubia Blanco Pillco, diretora do hospital Espinar, disse que nada se materializou após atrasos burocráticos, longas negociações e a promessa da empresa de contribuir com um milhão de soles (CHF 230.000).

No entanto, a Glencore aceitou desembolsar “pagamentos de solidariedade” individuais sem compromisso de um fundo de emergência para os residentes, no valor de 44 milhões de soles, “para ajudar durante a pandemia COVID-19”, disse a empresa.

A Glencore disse que contribui para “projetos de desenvolvimento sustentável que incluem saúde, educação, agricultura e infraestrutura” e, desde 2004, financiou projetos no valor de 390 milhões de soles. Desde o início da pandemia, a empresa escreveu que doou uma planta de oxigênio ao hospital para conter a escassez de oxigênio. O hospital disse à SWI swissinfo.ch que recebeu a estrutura assim como testes Covid-19, kits de proteção, uma máquina de raio-x e outros equipamentos.

A população local organiza protestos regularmente, solicitando o monitoramento oficial da contaminação tóxica e mais investimentos da Glencore em infraestrutura de saúde.

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Adaptação: Clarissa Levy

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