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Estudantes suíços procuram por microplásticos nos Alpes

Uma amostra de água retirada do Lago Silvaplana, na região da Alta Engadina, que será analisada para detectar possíveis microplásticos. swissinfo.ch

Saídos diretamente de um cartão postal, os lagos e rios profundamente azuis da Alta Engadina parecem cristalinos, mas será que eles carregam minúsculos fragmentos de plástico e fibras em suas águas? Uma equipe de cientistas suíços quer descobrir.

Este conteúdo foi publicado em 05. agosto 2021 - 11:45

Ao longo da margem norte do Lago de St. Moritz, estende-se uma fila de caminhões, 4x4 e motocicletas, presos em obras rodoviárias. Os picos nevados das montanhas e os hotéis de luxo cinco estrelas aparecem refletidos no corpo de água que se prolonga ao longe.

Num canto, preso a uma ponte onde o rio Inn se separa do lago, um objeto alado similar a uma cobra balança lentamente, movido pela correnteza.  

“Frequentemente temos que dizer aos espectadores curiosos que ‘não, não estamos tentando pescar’”, brinca Dave Elsener.

Após 30 minutos, o jovem cientista de Zurique puxa sua rede de arrasto – feita de plástico e alumínio – para inspecionar o que foi capturado. 

Usando água filtrada, peneiras e baldes, ele e um colega cuidadosamente lavam o sedimento, a grama, as folhas e outros materiais presos na malha fina da rede de arrasto.

“Aqui... estas parecem bolas de isopor”, diz ele, apontando para pequenos pontos brancos na lama marrom espessa. Ele raspa os detritos e os coloca num recipiente plástico selado, no qual derrama a amostra de água do lago.

O pesquisador da ETH Zürich Dave Elsener aponta para o que ele pensa serem grânulos de poliestireno, coletados em uma amostra de água do Lago de St Moritz. swissinfo.ch

Hoje é o último dia das “expedições de pesca” de microplásticos na região de St. Moritz.

Elsener faz parte de um grupo de estudantes do Instituto Federal de Tecnologia de Zurique (ETH). Eles passaram os últimos três meses coletando amostras de água na região da Alta Engadina, como parte de um projeto de pesquisa sobre microplásticos.

Eles querem verificar sua hipótese da existência de microplásticos – partículas de 0,1 milímetro, invisíveis a olho nu – em regiões alpinas de grande altitude, como a Alta Engadina, no sudeste da Suíça.

Para seu projeto, os pesquisadores coletaram periodicamente amostras em onze locais da área, incluindo a nascente do Rio Inn e os lagos Sils, Silvaplana e St. Moritz.

Amostras de água foram coletadas regularmente em onze locais na região da Alta Engadina entre maio e julho. swissinfo.ch

Dentro dos peixes e no alto das montanhas

É a primeira vez que é realizado um estudo tão longo e tão abrangente sobre microplásticos nos Alpes suíços, explica Roman Lehner, que está supervisionando o estudo. O pesquisador fundou a organização Sail & Explore Association, que realiza pesquisas sobre microplásticos em todo o mundo.

“É importante realizar esse estudo na Suíça para mostrar que o problema não se limita aos mares”, diz Lehner. “É um problema global que se origina na superfície da terra e não na água.”

Vários estudos realizados ao redor do mundo mostraram que os microplásticos estão em todo lugar: na água, no solo, no trato digestivo dos peixes, nos resíduos descartados por seres humanos. Eles são encontrados até mesmo perto do cume do Monte Everest. Na Suíça, a cada ano, cerca de 14.000 toneladas de resíduos plásticos de todos os tamanhos acabam no solo e na água, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente. As principais origens dos microplásticos são a abrasão e a decomposição de produtos plásticos – como pneus de automóveis, plástico filme e outros produtos utilizados na construção e na agricultura, além da decomposição de lixo.

Pesquisas realizadas nos últimos dez anos identificaram microplásticos em lagos e rios suíços localizados em áreas mais baixas, como o Lago de Genebra e o Rio Reno.

Microplásticos suspensos no ar também foram detectados em regiões montanhosas mais remotas. Um estudo de 2019 encontrou uma abundância de microplásticos no Ártico, no norte da Alemanha, nos Alpes da Baviera e da Suíça (Davos) e na ilha de Helgoland, no Mar do Norte. Isso demonstrou que os fragmentos podem ser transportados pelo ar de forma semelhante ao pó, pólen e partículas finas, sugados para a atmosfera e transportados por longas distâncias.

Os pesquisadores do ETH esperam que seu projeto na Engadina ajude a esclarecer a extensão do problema nas regiões alpinas de grande altitude.

Uma rede de arrastão flutua no rio Inn, perto de Celerina. swissinfo.ch

Borracha, têxteis e kitesurf

Numa ponte de madeira perto da famosa pista de tobogã Cresta Run, em St. Moritz, dois estudantes recolhem amostras do rio enquanto pessoas passam em carros e em bicicletas elétricas.

“É difícil de imaginar, mas acreditamos que os microplásticos podem vir da atmosfera. Fibras têxteis, por exemplo, ou borrachas de pneus de motocicletas e carros, que são levadas pela água da chuva para os rios e lagos”, diz a estudante do ETH Zurique Tessa Stuker.

“Temos quase certeza de que encontraremos algo.”

Os pesquisadores suspeitam que as práticas de windsurf e kitesurf no Lago Silvaplana também poderiam ser responsáveis por liberar fibras e plásticos no meio ambiente.

Essa firme convicção se baseia parcialmente num estudo sobre microplásticosLink externo realizado anteriormente na região pela estudante local Anna Sidonia Marugg. A pesquisa feita por Sidonia para obter o diploma do ensino médio foi premiada com o Prêmio Ciência e Juventude em 2020. A estudante identificou 22 tipos diferentes de plástico em lagos e rios locais.

“Nós ainda temos uma visão muito idílica da Engadina, por isso ninguém a associa à poluição microplástica”, explica Sidonia, que está participando do estudo do ETH Zurique. “Mas acho que devemos nos preocupar mais com isso porque o Lago de Lugano [a nascente do Rio Inn] é uma das maiores bacias hidrográficas da Europa: suas águas fluem para o Mediterrâneo, o Mar Negro e o Mar do Norte.”

Os pesquisadores da ETH Zürich preparam uma amostra da água coletada no rio Inn. swissinfo.ch

Digerindo a lama

Ao final de um dia agitado, os alunos guardam seus equipamentos e voltam para Zurique de trem. Suas redes de arrasto são desmontadas e as amostras são cuidadosamente embaladas para serem enviadas ao Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne (EPFL) para análise.

É lá que elas serão submetidas à chamada fase de “digestão”. Nela, a matéria orgânica é decomposta utilizando hidróxido de potássio ou enzimas. O resultado é uma sopa, que é filtrada, aquecida e seca, para se livrar do excesso de água. Um espectrômetro infravermelho é utilizado para analisar o material restante.

“O dispositivo nos permite saber se o que resta é plástico ou não. Também somos capazes de identificar exatamente que tipo de plástico é – se é uma fibra, fragmento, pelota ou partícula”, explica Lehner.

O pesquisador já examinou visualmente as amostras. Ele diz não ter visto nenhuma que aparente ser de plástico.

“Se houver plástico, é provável que seja majoritariamente fibras”, observa ele. A ausência de turistas no ano passado devido à pandemia de Covid-19 pode ter influenciado os resultados, acrescenta.

Microplásticos no Mont Blanc

Em junho, uma equipe de cientistas suíços e franceses coletou amostras das correntes glaciais na região do Mont Blanc para estudar a poluição por microplásticos. A equipe “Clean Mont Blanc”, responsável pelo estudo exploratório, saiu do resort de montanha Chamonix no dia 2 de junho para completar uma volta de 160 km ao redor do Mont Blanc, cruzando as fronteiras da França, Itália e Suíça. Foram retiradas amostras das geleiras Trient, Tour, Argentière e Mer de Glace. Elas serão analisadas na Universidade Savoie Mont Blanc, em Chambery, França.

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Quando os resultados estiverem disponíveis, saberemos exatamente que tipos de plástico são encontrados nas águas da Alta Engadina e em que quantidades.

“Aqui em Silvaplana, todos que param para falar conosco dizem que estamos perdendo tempo e que não vamos encontrar nada”, diz a pesquisadora de Zurique Helena Golling, enquanto esvazia o conteúdo de sua rede de arrasto numa peneira. Ao fundo, dezenas de praticantes de kitesurf atravessam o lago cintilante.

“Mas realmente precisamos investigar essa questão para saber o que está acontecendo.”

Adaptação: Clarice Dominguez

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