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Por que o degelo das geleiras nos afeta?

Em direção a um mundo de geleiras negras

Mais de 29 mil quilômetros quadrados da geleira de Khumbu, Nepal está coberto de escombros. O acúmulo de sedimentos muda a cor da geleira. Blazej Lyjak/Alamy

O recuo acelerado das geleiras nas cordilheiras dos Andes e do Himalaia ameaça a vida de milhões de pessoas na América Latina e Ásia. Uma nova abordagem científica é necessária para entender a dinâmica do derretimento e até o aumento de algumas geleiras, explica uma pesquisadora suíça.

Este conteúdo foi publicado em 03. junho 2021 - 10:00

Francesca Pellicciotti está impaciente. Quase dois anos depois da sua última expedição, mal pode esperar para voltar ao campo. "Em 2020 tivemos que cancelar nossas medições de geleiras na Índia e Tibete devido à pandemia. Este ano não será diferente", afirma a italiana, atuante desde 2017 como glacióloga no Instituto para Pesquisas de Neve e AvalanchesLink externo (WSL). "É uma situação complicada, pois as medições devem ser feitas continuamente e a linha de financiamento da pesquisa expira em algum momento."

Professora da Universidade de Northumbria (Reino Unido), Pellicciotti participa de vários projetos financiados pelo Conselho Europeu de Pesquisa. Sua especialidade são geleiras de alta altitude na América Latina e Ásia. "Conhecemos bem as geleiras alpinas, mas muito pouco sobre as de outras regiões do planeta. Por isso gostaria de pesquisar as geleiras dos Andes e Himalaia."

Francesca Pellicciotti na geleira de Langtang Lirung, Nepal. © Eduardo Soteras

Suíça seis metros embaixo d'água

Quase todas as geleiras do mundo - independentemente da altitude ou latitude - estão derretendo de forma crescente, perdendo espessura e massa. É o que mostra uma pesquisaLink externo realizada em parte por pesquisadores da Escola Politécnica Federal de Zurique (ETH) e publicado em abril na revista científica Nature. Trata-se da análise mais abrangente e precisa das 217.175 geleiras encontradas no globo.

Entre 2000 e 2019, uma média anual de 267 bilhões de toneladas de gelo derreteu, produzindo uma quantidade suficiente de água para submergir toda a Suíça sob seis metros de água. Dentre as regiões, onde as geleiras derretem com mais rapidez: Alasca, Ásia e Alpes.

Em apenas poucas áreas, dentre elas na Escandinávia, as taxas de derretimento das geleiras diminuíram durante o período analisado. Os pesquisadores atribuem isso a uma anomalia climática no Atlântico Norte, que causou maiores precipitações e menores temperaturas localmente.

Populações ameaçadas

"A situação é particularmente preocupante na Cordilheira do Himalaia", afirma na pesquisa Romain Hugonnet, principal autor do estudo.

Durante a estação seca, a água de fusão é uma fonte importante para rios importantes como o Ganges, Brahmaputra e Indus. "Entretanto, se as geleiras nos Himalaias continuarem a encolher neste ritmo, países populosos como Índia e Bangladesh poderão enfrentar escassez grave de água e alimentos nas próximas décadas", advertiu Hugonnet.

Em comparação com as geleiras alpinas, as dos Himalaias, do Planalto Tibetano e Karakorum são muito maiores e de maior importância, explica Pellicciotti. "O desaparecimento das geleiras na Suíça levaria a problemas para os ecossistemas alpinos ou para a produção de energia hidrelétrica". Mas se as geleiras asiáticas desaparecessem, milhões de pessoas na Índia, China, Paquistão, Afeganistão e Nepal seriam afetadas."

Risco de inundação nos Himalaias

Com o recuo das geleiras, novos lagos são criados nas montanhas. No Himalaia, onde está o maior número de geleiras fora das regiões polares, um em cada seis lagos glaciais representa hoje um risco para as populações vizinhas, como mostra recente estudo da Universidade de GenebraLink externo. Nas próximas décadas, o risco de inundações causadas pelo súbito esvaziamento desses lagos poderia triplicar devido ao aquecimento global.

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Nestas regiões, marcadas pela má governança e conflitos por água, "as geleiras são elementos primordiais para garantir a estabilidade da região", ressalta o estudo.

De acordo com um estudo do WSLLink externo publicado na Nature Communications em maio, cerca de um quinto do gelo das cordilheiras asiáticas derreterá até 2100, mesmo se o aquecimento global for interrompido.

Cordilheira de Karakorum

Em algumas regiões da Ásia, as geleiras perderam cerca de 60% de seu volume desde a era pré-industrial, se assemelhando ao recuo observado nos Alpes, observa Pellicciotti. Porém há exceções.

Uma delas é a Cordilheira de Karakorum, localizada na fronteira entre Paquistão, China e Índia, onde algumas geleiras permaneceram estáveis ou até mesmo aumentaram em massa entre 2000 e 2010. "É uma anomalia. Não sabemos como explicá-la até então, embora várias hipóteses já foram formuladas", diz.

De acordo com a ex-colaboradora da ETH, o horizonte de pesquisa deve ser ampliado. Geleiras não devem mais serem consideradas como entidades isoladas, mas sim parte de um contexto hidrológico mais amplo. Um sistema no qual, por exemplo, o papel da vegetação circundante no ciclo da água também é considerado.

"Precisamos de uma abordagem holística e modelos diferentes para as geleiras. Somente desta forma será possível decifrar a complexidade das geleiras e prever como elas evoluirão no futuro", argumenta Pellicciotti.

Um grupo de pesquisadores caminhando em uma trilha nas montanhas de Langtang, Nepal. Francesca Pellicciotti

Centímetros de neve

Pellicciotti testemunhou em primeira mão a complexa evolução das geleiras durante as pesquisas realizadas na Ásia, Chile e Peru. "Cada região tem sua própria dinâmica", diz.

Nos Alpes, há um acúmulo de neve e gelo durante o inverno e derretimento no verão. No Himalaia, o acúmulo e o derretimento ocorrem na mesma estação, a estação das monções.

Nas áreas dos Andes peruanos, a única proteção para as geleiras são os poucos centímetros de neve que caem durante a estação chuvosa. "Se a neve se transformasse em chuva devido ao aumento da temperatura, estas geleiras desapareceriam dentro de uma década", calcula Pellicciotti.

>> O vídeo explicando como pesquisadores tentam preservar a água de fusão das geleiras na Bolívia utilizando conhecimentos ancestrais e novas tecnologias:

A pesquisadora, hidrologista de formação, pesquisa atualmente um dos fenômenos glaciais menos compreendidos, até hoje ignorado pelos modelos científicos: os detritos que cobrem geleiras.

Geleiras pretas

À medida que o gelo recua, os declives ao redor se tornam instáveis. Detritos rochosos erodidos deslizam rio abaixo e se acumulam na superfície da geleira. O derretimento também libera material aprisionado no gelo. Como resultado: as geleiras se escurecem. "Com o aquecimento do clima o planeta será povoado de geleiras negras", afirma.

Geleira em Kangri Garpo, Tibete, em outubro de 2019. Marin Kneib

Através da análise de inúmeras imagens produzidas por satélite, Francesca Pellicciotti e Sam Herreid, da Universidade de Northumbria, descobriram que mais de 29 mil quilômetros quadrados de geloLink externo de alta altitude ao redor do mundo estão cobertos de escombros. "No passado, pensava-se que estes detritos atuavam como um 'cobertor', protegendo as geleiras do derretimento. Hoje acredita-se que estas geleiras encolhem a um ritmo igual, se não maior do que as que estão descobertas", explica Pellicciotti.

Na superfície de uma geleira coberta no Himalaia chegou a se medir temperaturas de até 40 graus Celsius. "Percebemos que uma geleira coberta de detritos pode absorver muito mais energia térmica do que uma geleira branca. Entretanto ainda não compreendemos como a energia é absorvida pela camada de detritos e como esta é transferida para o gelo abaixo. Agora queremos entender o que está impulsionando o derretimento e o desbaste destas geleiras."

Adaptação: Alexander Thoele

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