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Como a diplomacia e a ciência podem trabalhar juntas

O Globo de Ciência e Inovação no CERN, a Organização Européia de Pesquisa Nuclear, perto de Genebra, com as bandeiras dos países-membros. Olrat / Alamy Stock Photo

A Suíça é uma defensora fervorosa da "diplomacia científica", que considera essencial para enfrentar desafios globais como a pandemia de Covid-19, explica Alexandre Fasel, enviado especial da diplomacia científica suíça em Genebra.

Este conteúdo foi publicado em 07. outubro 2021 - 10:00

Quando os cientistas descobrem algo, nem sempre sabem qual será sua utilidade prática ou as consequências que suas descobertas possam ter para a sociedade.  O mesmo se aplica aos engenheiros que desenvolvem tecnologias associadas. Quando Otto Hann e Lise Meitner descobriram a fissão nuclear em Berlim, em 1938, os dois cientistas ainda não sabiam que ela levaria alguns anos mais tarde à bomba atômica. 

Os diplomatas, por outro lado, que têm que resolver os problemas do mundo, nem sempre sabem em quais desenvolvimentos importantes eles devem se concentrar para resolver os desafios de amanhã.  Tecnologias como a inteligência artificial (IA) e a nanociência nunca evoluíram tão rapidamente como hoje.

Com isto em mente, a Suíça está promovendo uma abordagem inovadora para enfrentar os desafios do mundo ao apoiar uma nova plataforma: o Antecipador de Ciência e Diplomacia de Genebra (GESDA, ver quadro abaixo), que realizará sua primeira cúpula de 7 a 9 de outubro. 

swissinfo.ch: Como a ciência é utilizada nas negociações diplomáticas? 

Alexandre Fasel: A diplomacia científica engloba uma ampla gama de atividades. Há três aspectos importantes: diplomacia para a ciência, ciência para a diplomacia e ciência na diplomacia.

A diplomacia a serviço da ciência é quando a diplomacia deve agir para que a ciência possa ser feita, para que a colaboração científica internacional possa ser estabelecida. Um exemplo é o Conselho Europeu de Pesquisa Nuclear (CERN). Foi necessário muito trabalho diplomático para reunir os países em torno desta ideia, para estabelecer uma convenção, para encontrar financiamento, etc. 

Depois há a ciência para a diplomacia. O Centro de Pesquisa Transnacional do Mar Vermelho é um projeto de pesquisa sobre os corais muito especiais do Mar Vermelho, através do qual estamos fazendo diplomacia através da ciência.  Os dez países do Mar Vermelho, que nem sempre têm excelentes relações diplomáticas, encontraram um interesse comum neste projeto científico, o que cria as condições para que os países que normalmente não gostam de cooperar trabalhem juntos e construam confiança mútua. Isto torna possível discutir outras questões menos científicas e mais diplomáticas.

Finalmente, a ciência na diplomacia é quando a ciência se torna um instrumento de diplomacia de pleno direito. Um bom exemplo é o Painel Intergovernamental sobre Mudança Climática (IPCC). Ao reunir o conhecimento científico existente sobre a mudança climática, é possível oferecer uma visão orientada por dados que seja aceita pela comunidade internacional. Esta visão é cientificamente estável e robusta, o que ajuda a definir o foco da discussão e os desafios que a diplomacia deve enfrentar. Sem o IPCC, o acordo climático de Paris não teria sido alcançado. 

swissinfo.ch

swissinfo.ch: A diplomacia suíça pretende ir além destas três dimensões. Por que?

A.F.: Sim, queremos estabelecer uma quarta categoria, que chamamos de diplomacia científica antecipatória. Nanociência, biologia, neurociência, tecnologia da informação (TI) são todas disciplinas que estão convergindo e criando novos campos de descoberta e acelerando o desenvolvimento de tecnologias. O ser humano aumentado, a eco-regeneração, a descarbonização, a inteligência artificial quântica e avançada mudarão rapidamente a face do mundo e a vida dos seres humanos. Precisamos entender o que está acontecendo conosco para que possamos administrá-lo com uma governança global apropriada.

swissinfo.ch: Por que isso é tão importante para a Suíça?

A.F.: Porque como país-anfitrião das organizações internacionais em Genebra, temos uma responsabilidade acrescida: somos chamados a nos empenharmos incessantemente para que o sistema de governança global seja eficaz, forte e sólido. Isto se soma ao nosso peso científico. A Suíça, neste aspecto, é uma grande nação, com recursos substanciais e redes em todo o mundo que nos permitem contribuir para este esforço de antecipação. É, portanto, uma dupla motivação que nos impulsiona a investir na diplomacia científica. A Fundação Antecipadora da Ciência e Diplomacia de Genebra (GESDA), criada pelo governo federal e o governo cantonal de Genebra, é uma grande realização concreta desta política.

swissinfo: Um dos tópicos mais quentes da diplomacia internacional é a pandemia de Covid-19. Como a diplomacia científica está sendo usada para enfrentar este desafio?

A.F.: No contexto da pandemia, a vacina é uma vitória incrível para a ciência! Ninguém pensou que seria possível desenvolver vacinas eficazes e seguras em tão pouco tempo. A diplomacia científica contribuiu para este sucesso ao facilitar a colaboração entre pesquisadores, produtores e distribuidores. 

Em contraste, o programa Covax, o instrumento internacional para disponibilizar vacinas para o maior número possível de pessoas, ainda não deu os frutos esperados. Isto destaca a dificuldade de traduzir os avanços científicos em realidade e torná-los disponíveis para as pessoas que deles necessitam. 

swissinfo.ch: A diplomacia pode realmente ser baseada em dados científicos?

A.F.: Este é todo o debate sobre a “política baseada em evidências”. A ciência e a força do conhecimento científico devem ser a base do debate. Mas então temos que integrar esta dimensão nas discussões diplomáticas entre os atores da governança global. 

Esses atores têm interesses nacionais, posições geopolíticas e outras motivações que condicionam a conduta dos Estados. É uma questão de assegurar que a base de sua conduta e decisões esteja solidamente ancorada a fim de reunir os vários atores em torno de um consenso. 

Adaptação: DvSperling

GESDA e sua primeira cúpula

O Antecipador de Genebra para a Ciência e Diplomacia (GESDA), uma fundação apoiada pelo governo suíço e pelas autoridades de Genebra, está organizando sua primeira cúpula em Genebra, de 7 a 9 de outubro. A lista de palestrantes é impressionante, assim como as questões que serão discutidas, incluindo a descarbonização do planeta, a negociação dos limites da genética, a inteligência artificial e as lições que precisamos aprender com a pandemia da COVID-19.

A GESDA rompe barreiras para fazer os diplomatas e cientistas pensarem juntos. Trabalhando em conjunto, é possível antecipar importantes avanços científicos e tentar prever suas consequências dentro de cinco, dez ou vinte e cinco anos. É então necessário identificar as ações necessárias para acompanhar o desenvolvimento tecnológico em termos de governança.  Um terceiro aspecto do trabalho da GESDA consiste em levantar fundos para implementar as soluções.

"A ideia é sair desta cúpula com visões muito concretas sobre certos assuntos e sobre o que precisa ser feito para resolver os problemas identificados", explica Olivier Dessibourg, Diretor de Comunicação e Divulgação Científica da GESDA.

A GESDA foi oficialmente lançada em setembro de 2019. Seus fundadores são o governo suíço, o cantão e a cidade de Genebra, que juntos disponibilizaram 3,6 milhões de francos suíços (3,9 milhões de dólares) para a fase piloto de três anos, até o final de agosto de 2022 (3 milhões de francos do governo federal suíço, 300.000 francos cada vindos do cantão e da cidade de Genebra). A fundação também arrecadou 6,4 milhões de francos a partir de doações privadas. 

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