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Pandemia joga trabalhadores de baixa renda na precariedade

© Keystone / Gaetan Bally

As medidas tomadas para conter a disseminação da Covid-19 na Suíça têm se tornado pesadas para a economia e para os trabalhadores. Para várias pessoas, pagar as contas está cada vez mais difícil. Hélène e Frédéric contam como têm feito para lidar com as dificuldades financeiras. 

Este conteúdo foi publicado em 21. dezembro 2020 - 15:05

Na Suíça, 660 000 pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, o que representa 7,9% da população. Dentre essas pessoas, 3,7% são profissionalmente ativas. 

Enquanto, inicialmente, a pandemia dificultou a vida de todos que perderam seus empregos, atualmente até mesmo aqueles que estão empregados, mas que possuem baixa renda, encontram-se em dificuldade. Trabalhadores autônomos, operários e trabalhadores em tempo parcial foram os primeiros a sentir as consequências das medidas de restrição contra a Covid-19. Quanto mais se prolonga a crise, mais esses profissionais se aproximam da precariedade. 

A pobreza esquecida de um dos países mais ricos do mundo 

Com um patrimônio médio de 598 410 dólares por adulto, ao fim do ano de 2019, os suíços eram o povo mais rico do mundo, segundo o Relatório de Riqueza Global (Global Wealth Report, em inglês), estudo acerca da fortuna mundial promovido pelo banco Credit Suisse. Na segunda posição, encontra-se Hong Kong, com um patrimônio médio de 518 810 dólares, seguido pelos Estados Unidos e pela Austrália. 

Ainda assim, entre 2015 e 2018, 20,6% a população residente na Suíça viu-se ao menos uma vez em risco de chegar ao nível de pobreza, segundo o Escritório Federal de Estatísticas. A média europeia é de 27,8%.

A instituição Caritas constata que a questão da pobreza não é uma prioridade para as autoridades suíças, uma vez que aqueles atingidos por ela não têm visibilidade e não são ouvidos. A instituição de caridade destaca que aproximadamente 30% das pessoas que têm direito a benefícios sociais não fazem uso deles.

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Frédéric tem 50 anos e um filho sob seus cuidados. Ele trabalha no setor de hotelaria e restauração, assim como sua esposa. Desde o início da pandemia, ambos têm trabalhado em regime parcial, recebendo apenas 80% de seus salários. Isso significa que, nos momentos mais difíceis da pandemia, o grupo familiar perdeu 1 500 francos de sua renda mensal. 

“Para nós, é uma perda tripla”, explica Frédéric. “Nós ganhamos menos dinheiro, não temos mais refeições disponibilizadas pelos nossos empregadores, uma vez que os restaurantes estão fechados, e a minha esposa não recebe mais gorjetas, as quais rendiam 200 francos”. 

Resgatando da poupança 

A família logo percebeu que não podia mais pagar o aluguel e as taxas do seguro de saúde sem utilizar suas economias. "A Confederação nos impede de trabalhar, mas somos nós que temos que gastar o dinheiro que estava guardado para as férias ou para o dentista", diz Frédéric. “Não creio que isso seja justo". O representante decidiu, então, apelar para o fundo de solidariedade criado no cantão do Jura a fim de eventualmente auxiliar pessoas em dificuldade. Obtiveram uma ajuda financeira que lhes permitiu pagar o aluguel e dois meses do seguro de saúde. 

A família também adaptou seu estilo de vida e mudou seu orçamento: "Passamos as nossas férias na varanda, compramos produtos locais e mais baratos", conta Frédéric. “Tentamos poupar em alguns itens. Por exemplo, trocamos o nosso seguro de saúde, optamos por um carro e por seguros mais baratos. O problema é que é difícil realmente estabelecer um orçamento, porque não sabemos quanto tempo a situação irá durar ou quanto poderemos trabalhar durante as próximas semanas". 

Graças a tais ajustes, a família conseguirá reduzir 400 francos nas suas despesas mensais a partir de janeiro. Ainda assim, Frédéric se preocupa: “Se os restaurantes fecharem, será impossível para o setor gastronômico. Muitas pessoas não vão conseguir”. 

Apertando ainda mais o cinto 

A situação já estava no limite para Hélène* antes da pandemia. A operária de 57 anos de idade tinha acabado de conseguir pagar todas as suas dívidas e estabilizar as suas finanças. Ainda assim, mesmo trabalhando em tempo integral, ela ganha apenas 3 200 francos líquidos por mês e tem, portanto, um orçamento muito apertado. Com a chegada do novo coronavírus, ela foi colocada em regime parcial por três meses. Ela teve de se contentar com 20% a menos de seu salário. 

“O problema é que o preço do seguro de saúde e do aluguel não baixam, tampouco o custo de vida", aponta Hélène. Para lidar com a situação, tentou reduzir ainda mais as suas despesas, aproveitou um vale de alimentação da organização Caritas e pediu que lhe dessem mais tempo para alguns pagamentos. 

Atualmente, ela pôde retornar ao trabalho integralmente e recebe 100% do seu salário. "Mesmo assim, no dia 14 de dezembro, só me restam 24 francos para me manter até receber meu salário no dia 18 de dezembro", afirma. Também ela, como Frédéric, tem medo da insegurança permanente causada pelo coronavírus e não possui mais nenhum plano para o futuro próximo. 

“Eu estava começando a me ajeitar, pensava que poderia enfim me permitir alguns prazeres” conta Hélène. “Já estava planejando umas pequenas férias. Fazia realmente anos que eu não podia sair de férias. E agora desapareceu tudo outra vez, pior do que antes. Uma pessoa fica tentada a revoltar-se". 

No entanto, ela destaca que tem sorte de ter um emprego e de poder ir a pé para o trabalho, já que não tinha dinheiro para comprar um carro. "Às vezes, tenho muita vontade de pegar o trem. Mas um bilhete é tão caro que não o posso pagar", suspira Hélène. “É isso que é a vida? Trabalhar só para pagar as contas?" 

Ajudar as pessoas a tempo 

Em seis meses, a organização de caridade Caritas Jura, no cantão do Jura, distribuiu, apenas no distrito de Delémont, a quantidade de doações que normalmente distribui em três anos para todo o cantão. "É uma bomba relógio", disse o diretor da instituição, Jean-Noël Maillard. “As pessoas que já recebiam assistência social não conseguem dispensá-la e outras estão gradualmente atingindo uma situação precária, uma vez que suas condições financeiras já eram instáveis. Uma grande onda de precariedade se aproxima". 

Por enquanto, não se constata nenhum aumento na demanda de assistência social. Todavia, Jean-Noël Maillard acredita que é apenas uma questão de tempo, uma vez que a classe média baixa aos poucos esgotará suas escassas economias e os desempregados por causa da Covid-19 verão o fim de seus benefícios em dois anos. 

“Nós precisamos instituir, agora, medidas de prevenção para que as pessoas não atinjam uma situação de precariedade” afirma o diretor da Caritas Jura. “Dar 100% do salário para pessoas com rendimentos modestos que estão em regime parcial de trabalho e criar benefícios para famílias e trabalhadores pobres”, recomenda.  

Tal apelo foi parcialmente ouvido pelo parlamento suíço: em dezembro, planejou-se acrescentar uma cláusula para indivíduos de baixa renda que estejam trabalhando em tempo reduzido. Aqueles que ganham menos de 3 470 francos poderão receber 100% de sua renda, bem como aqueles que ganham entre 3 470 e 4 340 francos, caso sofram uma perda total de rendimentos. Esse novo regulamento será implementado pelo governo com efeito retroativo a 1º de dezembro. 

*Pseudônimo

Adaptação: Clarice Dominguez


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