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"Quanto mais tempo dermos ao vírus, maior o risco de termos mutações"

A técnica de laboratório Anna Schenini prepara uma amostra extraída de RNA para testes PCR para detectar mutações de coronavírus, na EOLAB em Bellinzona, sexta-feira, 22 de janeiro de 2021. Keystone / Pablo Gianinazzi

Variantes do coronavírus: devemos ter medo das mutações? As vacinas continuarão sendo eficazes? Emma Hodcroft, epidemiologista do Instituto de Medicina Social e Preventiva de Berna, responde essas e outras questões.

Este conteúdo foi publicado em 02. fevereiro 2021 - 17:00

As variações de Covid-19 preocupam cientistas e governos. Com razão, como explica a epidemiologista anglo-americana Emma Hodcroft, que explica à SWI swissinfo.ch porque é essencial manter as infecções baixas e a propagação de variantes sob controle. Embora as mutações sejam comuns entre vírus, em alguns casos este mecanismo pode gerar variantes muito mais perigosas. "Não devemos subestimar a lição aprendida nos últimos meses: mesmo que algo seja improvável, isso não significa que não acontecerá", adverte a pesquisadora.

swissinfo.ch:  O que sabemos e ainda não sabemos sobre essas mutações?

Emma Hodcroft: Antes de mais nada, existem três variantes principais sendo analisadas pelos cientistas atualmente. Alguns já falam em uma quarta variante, mas os pesquisadores ainda não conhecem sua periculosidade. Essas variantes são encontradas principalmente no Reino Unido, África do Sul. Duas outras surgiram no Brasil. A que circula no Reino Unido, denominada 501Y.V1 ou B.1.1.7, é a primeiro a ser anunciada. E segundo as informações atuais, é a que se espalha na maioria dos países europeus. Esta variante preocupa, pois é mais contagiosa e, portanto, mais difícil de administrar do que, por exemplo, as variantes do SARS-CoV-2 que circulavam no verão. Embora não haja provas claras de que seja mais perigosa ou letal, se mais pessoas forem infectadas e depois ficarem doentes, o risco é colocar o sistema de saúde em uma situação crítica como já ocorre no Reino Unido.

Sabemos menos sobre as outras variantes. A cepa sul-africana do coronavírus tem algumas mutações semelhantes à britânica, mas tem uma mutação adicional na posição 484, uma que preocupa particularmente os cientistas. As duas variantes que circulam no Brasil também têm esta mutação. De acordo com alguns estudos, esta variante é muito mais contagiosa, mas ainda não temos dados suficientes para poder afirmar com certeza. O que é realmente mais alarmante é que a mutação 484 pode tornar o vírus capaz de reinfectar as pessoas que já contraíram o SARS-CoV-2. E isto, naturalmente, também pode afetar a eficácia das vacinas. A boa notícia é que dados recentes divulgados pela farmacêutica Moderna sugerem que a resposta vacinal à variante 501Y.V1 e à mutação 484 ainda é bastante boa.

Oliver Hochstrasser

swissinfo.ch: Isto significa que as mutações podem afetar as vacinas?

E.H.: Mesmo se as vacinas se tornarem menos eficazes, é improvável que se tornem completamente ineficazes. Portanto, não estaríamos em uma situação em que a vacina perderia sua utilidade. A questão é que a eficácia poderia cair, por exemplo, de 95% a 85-90%. Não seria uma boa notícia, mas não significa que não teríamos mais vacinas. Se mutações afetarem profundamente as vacinas, então elas se tornariam ineficazes.

A experiência com outros patógenos mostrou que a resposta imunológica obtida com as vacinas é melhor do que a gerada naturalmente. As vacinas ensinam melhor nossos corpos a se defenderem. Se isto valer também para o SARS-CoV-2, então pode ser que esta mutação não afete as vacinas - ou apenas em um pequeno grau. A partir de dados recentes fornecidos pela Moderna, parece que este é o caso.

A boa notícia: a partir dos testes iniciais, parece que a mutação 501 - comum a três das quatro variantes identificadas - não afeta o sistema imunológico. Assim esperamos que ela também não afete as vacinas. Por isso, acho que não achar que as vacinas não funcionarão se não temos ainda provas concretas.

swissinfo.ch: Estas variantes o preocupam?

E.H.: De um ponto de vista científico, a evolução do vírus é completamente normal. Não há nada de surpreendente nisso. Mas toda vez que o vírus se replicar, há uma chance de que um erro ocorra e que isto gere uma mutação. Quanto mais tempo a pandemia durar, com um número elevado de casos e uma alta concentração do vírus em circulação, maiores são as chances de que a próxima mutação seja mais perigosa. Nunca poderemos excluir essa possibilidade - ou impedi-la completamente - a menos que eliminamos completamente o vírus. Em todo caso, certamente poderemos reduzir essa possibilidade ao assegurar que o vírus tenha menos acesso a situações incomuns ou a pessoas com sistemas imunológicos francos, pois é dessa forma que o vírus encontra uma situação favorável para se desenvolver. Não devemos subestimar a lição aprendida nos últimos meses: mesmo que alguma coisa seja improvável, não significa que não vai acontecer. Quanto mais tempo dermos espaço ao vírus, mais corremos o risco de que a próxima mutação mais perigosa. É importante lembrar que o vírus está sempre evoluindo. Embora a grande maioria dessas mutações sejam inofensivas, é absolutamente do nosso interesse manter o número de casos o mais baixo possível.

swissinfo.ch: Nós denominamos essas cepas de "britânica", "sul-africana" ou "brasileira. Temos certeza de que elas realmente vêm desses países? Como os cientistas fazem para descobrir a origens das mutações?

E.H.: É realmente difícil não usar esses nomes geográficos. Eles se tornaram parte do uso cotidiano e da mídia. Além disso, também é uma forma mais clara de identificar as variantes. Nós, pesquisadores, evitamos ao máximo utilizar essas denominações, pois podem prejudicar gravemente a reputação desses países. Elas também não são totalmente apropriadas já que é difícil saber com certeza de onde vêm essas mutações.

Por exemplo, o que podemos dizer com algum grau de certeza é que a cepa britânica do coronavírus pode não ter tido origem no país, mas foi onde cresceu. O alto número de resultados encontrados após o sequenciamento genético e a propagação dessa variedade por todo o Reino Unido parece sugerir que se espalhou para lá e não em lugares na Europa. Não sabemos se, na verdade, ela veio de fora da Europa, onde nenhum sequenciamento foi feito, mas podemos dizer com certeza que não veio de outro país europeu. Caso contrário teríamos mais amostras em toda a Europa.

Já nos casos do Brasil e da África do Sul, é mais difícil determinar a origem dessas mutações. Antes de tudo por razões geográficas já que os países não estão isolados como a Grã-Bretanha, mas sim tem fronteira com muitos outros países. A África do Sul consegue fazer bem o sequenciamento do novo coronavírus, mas muitos dos países vizinhos não têm essa mesma capacidade. Portanto não sabemos se a mutação ocorreu em outro país da África Austral e depois foi detectada na África do Sul. A situação é ainda mais complexa na América do Sul, já que nem o Brasil ou seus vizinhos estão fazendo bem esses sequenciamentos genéticos. É por isso que é preciso ter cuidado com as etiquetas: o local onde a variante "decola" nem sempre é de onde ela se originou.

swissinfo.ch: É importante, do ponto de vista científico, saber a origem exata de uma mutação?

E.H.: Sim, é importante saber que ambiente pode favorecer certas mutações e promover sua propagação. Em m um ambiente onde há muitas infecções, o vírus se beneficia do mecanismo da reinfecção. Embora a vantagem seja mínima onde os casos são baixos. Deste ponto de vista, é relevante entender como diferentes ambientes podem estimular a produção destas variantes.

swissinfo.ch: Você considera possível termos na Suíça um crescimento vertiginoso do número de casos como ocorreu na Grã-Bretanha? O governo precisa aplicar medidas ainda mais rígidas?

E.H.: A variante britânica já está circulando na Suíça. É preciso estar preparado para uma piora da situação. Assim consideramos muito importante manter as infecções baixas para frear essa tendência. É uma estratégia da qual só podemos nos beneficiar: se formos bem sucedidos, então interrompemos a propagação. Se, por outro lado, não conseguirmos conter o vírus, mas mantivermos os casos em baixa, então o sistema de saúde não será sobrecarregado e poderá reagir se a situação piorar. Não queremos acabar com um sistema seriamente comprometido e filas de ambulâncias fora dos hospitais, como aconteceu no Reino Unido.

swissinfo.ch: A luta contra o vírus se tornou realmente uma corrida contra o tempo?

E.H.: Não vejo as coisas dessa maneira, pois é improvável conseguir vacinar as pessoas mais rapidamente do que os vírus mutantes se espalham. Ao invés disso, precisamos nos concentrar em manter o número de casos em baixa através do distanciamento social e medidas de higiene já conhecidas para retardar a propagação do vírus até que todos possamos todos ser vacinados.

swissinfo.ch: O que você quer dizer àqueles que são contra ou têm medo da vacina?

E.H.: Muitos se preocupam com a rapidez com que essas vacinas foram desenvolvidas. Geralmente se acredita que você necessita de cinco a dez anos para colocar uma vacina no mercado. Muitas das vacinas aprovadas recentemente foram desenvolvidas para outros vírus, em alguns casos até para outros coronavírus. Portanto, não estamos começando do zero. A tecnologia já existia. Em segundo lugar, o que prolonga o tempo para desenvolver uma vacina não é a ciência, mas sim a burocracia em torno dela. Uma grande parte do trabalho dos cientistas é encontrar financiamento, escrever relatórios e convencer um certo número de voluntários a participar de testes. Tudo isso torna o processo realmente longo e difícil.

A pandemia provocada pelo novo coronavírus eliminou muitos desses problemas. Os governos deram dinheiro e forneceram infraestrutura com rapidez. Também um número grande de pessoas se prontificou a testar a vacina. Não foi a ciência que acelerou o ritmo do desenvolvimento da vacina, mas sim a burocracia. E, em um aspecto, estas vacinas foram testadas de uma forma mais cuidadosa, pois havia muitos voluntários. É uma prova de onde a ciência pode ir quando há cooperação entre todos os grupos de interesse.

Outra preocupação são os efeitos a longo prazo. Em relação a isso, gostaria de dizer que as vacinas permanecem no corpo o tempo suficiente para ensinar ao sistema imunológico como combater um determinado vírus. Depois desaparecem. É por isso que têm muitos poucos efeitos colaterais e são muito menos perigosas do que o próprio vírus, pois não são infecciosas. Elas não causam danos aos órgãos do corpo como ocorre após a contaminação pelo novo coronavírus.

swissinfo.ch: Que lições podemos tirar da pandemia para o futuro?

E.H.: Nós sabemos muito pouco sobre vírus. Grande parte da pesquisa se concentrou nos vírus da influenza e do HIV. Porém a importância dos coronavírus e outros patógenos foi muito subestimada nos últimos anos. Há milhares de vírus lá fora e não sabemos quando virá a próxima pandemia. Espero que o que está acontecendo agora ajude a aumentar a consciência da importância da pesquisa dos vírus.

Biografia

Emma Hodcroft é epidemiologista anglo-americana atuante no Instituto de Medicina Social e Preventiva da Universidade de BernaLink externo. Durante a pandemia de Covid-19, seu trabalho concentrou-se no estudo das variantes do SARS-CoV-2 a partir do sequenciamento genético do vírus disponibilizados por cientistas de todo o mundo.

Ela participa do desenvolvimento do programa de computador de código aberto Nextstrain, que acompanha a evolução dos patógenos.

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Adaptação: Alexander Thoele

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