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Como a cólera alimentou a democracia direta em Zurique

Em dezembro de 1867, milhares de pessoas se reuniram em Zurique para questionar a ordem política e exigir mais direitos democráticos. Keystone / Anonymous

Uma epidemia de cólera espalhou-se em Zurique durante o verão de 1867. Quando de sua erradicação no outono, o cantão estava prestes a estabelecer “o sistema político mais democrático do mundo”.

Este conteúdo foi publicado em 10. outubro 2021 - 10:00
swissinfo.ch

Após o primeiro caso de cólera ter sido comprovado em julho de 1867, a doença se propagou rapidamente, sobretudo nas áreas mais pobres e insalubres da cidade, escreve o historiador suíço de medicina Flurin Condrau.

As autoridades sanitárias – ainda em seus primeiros passos na época – tomaram as medidas comuns necessárias: colocar em quarentena as casas com infectados e separar estritamente as pessoas saudáveis daquelas que padeciam da enfermidade.

Entretanto, os cidadãos desconfiavam desses esforços. E à medida que a taxa de mortalidade aumentava, eles também se deixavam infectar por uma atmosfera sinistra, como escreveu, em 28 de setembro de 1867, o jornal "Landbote de Winterthur":

“Quem não esteve em Zurique nas últimas semanas, não pode realmente compreender a situação, tanto na rua quanto em sua mente [...] Os efeitos da terrível epidemia e a pressão da solidão súbita pesam muito sobre a população, e aqueles que têm vivido nessas situações durante semanas não podem escapar de uma impressão tão sombria”.

Dez pérolas do nosso acervo sobre democracia

Seis anos, 6600 contribuições: Este é o acervo SWI swissinfo.ch que temos completado com conteúdos sobre nosso foco SWI sobre a democracia durante 66 meses. Neste verão europeu, apresentamos dez destaques desta coleção. Porque a democracia, junto com a questão climática e a previdência, é um dos principais tópicos discutidos na Suíça... e no mundo!

Das Redaktionsteam der Demokratie-Experten von swissinfo.ch (von links nach rechts): Urs Geiser, Bruno Kaufmann, Larissa Bieler und Renat Künzi. Jonas Glatthard ist nicht abgebildet. swissinfo.ch/Christian Raaflaub
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E apesar dos apelos das autoridades à solidariedade e à comunidade, “muitos membros das classes mais ricas viram as coisas de maneira muito diferente e fugiram da cidade”, escreve Condrau.

Então, no final de outubro, a epidemia terminou: 481 pessoas tinham morrido e a doença não se tinha propagado para além dos limites da cidade, muito menos no cantão ou na Suíça.

Um êxito? Não para as autoridades, pelo menos. A epidemia provou ser o catalisador para a queda do regime liberal – personificado pela figura onipotente do empresário Alfred Escher – que governou Zurique durante décadas.

Em vez disso, os cidadãos exigiam agora mais democracia: primeiro em Zurique, onde uma nova constituição foi aprovada em 1869 (que durou até 2005), depois em grande parte do país, quando outros cantões se inspiraram no que aconteceu em Zurique.

Em 1874, o direito ao referendo foi consagrado na Constituição suíça como instrumento de controle das leis aprovadas pelo Parlamento; em 1891, foi acrescentado o direito às iniciativas constitucionais do povo.

Teste de estresse

Como sempre, há a difícil questão histórica de saber até que ponto um evento resulta diretamente em uma mudança de regime ou se as tensões pré-existentes estão apenas à espera de uma faísca.

Para Condrau, que leciona na Universidade de Zurique, “as condições em 1867 eram exatamente propícias a uma mudança”. Ele coloca a epidemia em uma tríade de tendências decisivas em Zurique na década de 1860. As outras duas foram uma retração econômica e o movimento democrático em ascensão, que já havia começado a desafiar a ordem política elitista.

Na melhor das hipóteses, os aspectos sociais, econômicos e políticos influenciar-se-iam uns aos outros, diz Condrau. Mas uma crise – neste caso uma epidemia – é sempre um “teste de estresse” para a sociedade. Porque de repente as fraquezas e desigualdades são reveladas, ao mesmo tempo em que se questiona antigos valores e regras, que parecem incapazes de fornecer respostas.

Disso puderam beneficiar-se novos movimentos. Neste caso, uma vez que a cólera havia afetado mais fortemente os bairros da classe trabalhadora, a epidemia foi naturalmente percebida aos olhos da população não apenas como uma crise sanitária, mas também como uma crise social.

O movimento democrático “imediatamente” vinculou tais circunstâncias aos seus esforços de reforma política, sendo assim bem-sucedido na coleta de apoio e assinaturas em favor da reforma constitucional.

O empresário e político Alfred Escher perdeu seu poder após os movimentos democráticos de 1867. © Keystone / Christian Beutler

Olhar nos bastidores

Andreas Gross, cientista político e parlamentar suíço de longa data, descreve a epidemia como um “indicador social”. Como a camada mais pobre da população foi claramente mais afetada, a crise expôs a mentira que se escondia no cerne do discurso dos governantes liberais de Zurique: A cidade não era a metrópole de prosperidade e bem-estar geral que se pensava ser.

Gross cita outro relatório do Landbote: “A cólera levou a um olhar mais profundo sobre a vida de nosso povo. Por ocasião da cólera, descobriu-se que muitos de nossos concidadãos se encontram em uma condição tal que lhes é impossível, com a melhor vontade do mundo, alimentar-se adequadamente [...] O trabalhador está realmente lá para adquirir com todos os esforços apenas uma parte de suas necessidades vitais, a fim de ficar dependente da caridade para o resto? Não fazem ideia de que tais condições devem ter um efeito deprimente e perturbador em seu senso de honra e valores morais?”

Embora tivesse havido em geral um surto econômico, as classes mais baixas tinham sido pouco capazes de participar dele. Os liberais, sob a liderança de Alfred Escher, injetaram dinheiro na infraestrutura e na indústria, mas isso foi feito de cima para baixo, e os lucros não foram distribuídos de maneira uniforme, diz Gross.

“Eles negligenciaram o povo, não cuidaram de suas necessidades e não criaram um sistema tributário justo. Preocupavam-se apenas com a classe média alta. A cólera trouxe à luz as reais necessidades das pessoas e quantos delas ainda viviam na miséria”, continuou Gross.

Desafio global

Mas a questão ainda mais difícil é como aplicar esses ensinamentos na crise atual. Segundo Gross e Condrau, o impacto global da Covid-19 ainda não é claro. A trama e o efeito de tais epidemias, dizem eles, só podem ser discernidos depois de terem passado.

A partir de um ponto de vista democrático, no entanto, Gross faz um prognóstico: ele está convencido de que a suspensão da coleta de assinaturas e dos referendos na Suíça não prejudicará o sistema a longo prazo.

“As pessoas hoje estão muito mais conscientes de seus direitos políticos e reagem de modo mais sensível do que no passado”, continua ele. Mostram-se cautelosas em abdicar de suas liberdades democráticas durante demasiado tempo.

Isso foi exatamente o que aconteceu após a Segunda Guerra Mundial: quando a Suíça exorcizou o desejo do Conselho Federal de um governo autoritário.

Contudo, quanto aos “problemas ocultos” que tais crises podem revelar, podemos encontrar grupos – por exemplo, pessoas sem abrigo ou requerentes de asilo – cuja vulnerabilidade é exposta, diz Gross. Também podemos aprender a lição mais intangível sobre os efeitos que um tal confinamento terá “na alma”.

De modo geral, porém, a crise da Covid-19 poderia abrir os olhos das pessoas à desigualdade e à miséria a nível mundial, como fez a epidemia de 1867 em Zurique: “Milhões poderiam morrer em países como Índia, Bangladesh, Equador ou Congo, embora elas sobreviveriam se residissem na Europa. Este é um escândalo pelo qual uma sociedade humana não pode assumir a responsabilidade”, diz Gross.

Condrau acrescenta que as boas condições do sistema de saúde e da economia dão ao país melhores chances do que a maioria das outras nações de passar no teste de estresse atual sem que surjam fissuras profundas.

Ele concorda que o grande impacto seria sentido em outro lugar. Assim como a crise de 1867 em Zurique expôs um sistema de saúde pública abaixo da média, muitos países estão agora descobrindo que seus hospitais não estão preparados para lidar com enormes epidemias.

Ademais, nações com economias mais fracas – Condrau menciona Espanha e Itália – serão exigidas ao limite.

Para além de cidades ou países individuais, ele vê a principal lição da atual pandemia – ao contrário da de 1867 – na “dimensão global”. É evidente que “esta não pode ser tratada a nível nacional, pelo que o papel de organizações internacionais como a Organização Mundial de Saúde e a União Europeia é cada vez mais importante”.

Depois de anos negligenciando essas organizações, estamos novamente reconhecendo a importância da cooperação internacional, diz Condrau. Ou seja, se tais instituições sobreviverem ao teste de estresse.

Adaptação: Karleno Bocarro

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