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A sorte e o acaso sempre influenciam no sucesso, diz ganhador suíço do Prêmio Nobel

Rolf Zinkernagel no "Erudite Conclave 2011" da Faculdade de Medicina em Thiruvananthapuram, Índia. Wikimedia Commons/Aasemsj

O médico suíço Rolf Zinkernagel decifrou os mecanismos fundamentais do nosso sistema imunológico. Por isso, ganhou um Prêmio Nobel e o status de porta-voz da ciência.

Este conteúdo foi publicado em 14. julho 2021 - 10:30
Beat Glogger, higgs.ch

O sucesso é sempre também uma questão de sorte, diz o ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 1996. Ele, por exemplo, teve a sorte de sua esposa Kathrin ter concordado em se mudar para a Austrália em 1973. Ambos tinham 29 anos na época, haviam se casado cedo, suas filhas Annelies e Christine tinham dois anos e meio e onze meses, e Rolf Zinkernagel estava à procura de um emprego.

O casal havia se conhecido na Universidade da Basileia, onde estudavam medicina juntos. Ela se especializou em oftalmologia, ele queria se tornar cirurgião. Porém, logo percebeu que não era o caminho certo.

Foi assim que, entre dois empregos, ele frequentou um curso de medicina experimental – ofertado pela Universidade de Zurique e único na Suíça dos anos 60. Para Rolf Zinkernagel, essa foi a experiência decisiva: decidiu dedicar-se à pesquisa.

Após dois anos no Instituto de Bioquímica da Universidade de Lausanne, ele e Kathrin procuravam novos cargos como pesquisadores. Depois de mais de 50 tentativas, ele finalmente recebeu uma resposta positiva... da Austrália. Felizmente, Kathrin concordou em se aventurar do outro lado do mundo.

“Há muitas coisas na vida que podem nos aborrecer. É assim que as coisas são. Não vale a pena lamentar e olhar para trás”

Rolf Zinkernagel

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Em Camberra, a jovem família se mudou para uma pequena casa totalmente mobiliada, de propriedade da Universidade Nacional Australiana. “Isso facilitou a nossa chegada”, lembra Zinkernagel. “Eu pude começar a trabalhar de imediato”.

E é aí que entra o acaso. Na verdade, o médico suíço foi à Austrália para pesquisar agentes patógenos da tuberculose, salmonela e listeriose, junto a um pesquisador chamado Bob Landon. Foi por acaso que ele conheceu o jovem australiano Peter Doherty. “No instituto, todos os laboratórios estavam completamente lotados. Só havia lugar com Peter”, lembra-se.

A pesquisa de Doherty sobre doenças infecciosas cerebrais também fascinava Zinkernagel, e o suíço dominava métodos em imunologia que interessavam ao australiano. Os dois homens então planejaram um projeto conjunto.

Outra feliz coincidência do acaso fez com que o instituto trabalhasse com uma espécie de rato cinza chamada CBA, que normalmente não é utilizada em pesquisas. A maioria dos laboratórios normalmente utiliza os chamados ratos Black-6, uma espécie próxima, de pelagem preta. “Se tivéssemos feito nossas experiências com esses ratos, nunca teríamos alcançado nosso resultado”, explica Zinkernagel. Porque, como ele iria descobrir um pouco mais tarde, a experiência só funciona com ratos cinzentos.

Rolf Zinkernagel resume a pergunta de sua pesquisa da seguinte forma: “Após um transplante, o corpo rejeita o órgão transplantado, a menos que a operação ocorra entre gêmeos idênticos. Essa rejeição se deve ao que chamamos de antígenos de transplante, que são encontrados na superfície das células e são diferentes em cada indivíduo. O sistema imunológico reconhece assim o que pertence ao corpo e o que é estranho a ele. Então, por que existem esses antígenos? A natureza não vai inventar algo só para contrariar os cirurgiões”.

Com seus testes, os dois pesquisadores conseguiram mostrar que o sistema imunológico mobiliza os mesmos mecanismos de defesa para rejeitar um órgão transplantado que usa para se defender contra uma infecção viral. Para descobrir isso, eles infectaram os ratos com o vírus da meningite e estudaram suas reações imunológicas.

Rolf Zinkernagel. René Ruis

Após cinco meses de trabalho, eles obtiveram resultados que foram imediatamente publicados na “Nature”, a mais renomada das revistas científicas. A dupla de pesquisa havia acabado de decifrar o mecanismo pelo qual o sistema imunológico distingue as células infectadas das células saudáveis. Por um lado, os antígenos de transplante lhe permitem reconhecer se a célula pertence ou não a seu próprio organismo e, por outro lado, ele identifica um pedaço do vírus introduzido, que se projeta para fora da célula.

E os antígenos de transplante também desempenham um papel nesse segundo passo: pegam um pequeno pedaço do vírus e o apresentam na superfície da célula. Desta forma, eles avisam ao sistema imunológico: “essa é uma de suas próprias células, mas está infectada. Você precisa rejeitá-la”.

A descoberta do papel dos antígenos de transplante na defesa imunológica foi uma surpresa. E alimentou esperanças: por exemplo, que uma vacina contra o câncer fosse possível no futuro. Até hoje, essas esperanças, entretanto, praticamente não foram concretizadas. Rolf Zinkernagel é filosófico a esse respeito: “há muitas coisas na vida que podem nos aborrecer. É assim que as coisas são. Não vale a pena lamentar e olhar para trás.”

A família Zinkernagel estava bem em Camberra. Kathrin havia encontrado um trabalho de meio período como oftalmologista e o casal pôde celebrar o nascimento de seu terceiro filho, Martin. Mas, após dois anos e meio, a bolsa da Fundação Nacional de Ciência da Suíça expirou. Veio então uma oferta do famoso Instituto de Pesquisa Scripps, na Califórnia. Rolf Zinkernagel trabalhou lá como professor de 1976 a 1979, antes de a família decidir voltar para casa a fim de mandar seus filhos à escola na Suíça.

“Nós, pesquisadores, geralmente falamos muito pouco sobre o que fazemos”

Rolf Zinkernagel

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Rolf Zinkernagel ingressou na Universidade de Zurique, onde mais tarde fundou o Instituto de Imunologia Experimental. Junto ao biólogo molecular Hans Hengartner, ele conduziu ali suas pesquisas durante 32 anos. Mais uma vez, uma dupla de mentes brilhantes trabalhando em conjunto.

Zinkernagel sempre reconheceu a enorme importância do conhecimento que adquiriu como jovem cientista. Ainda assim, o telefonema que ele recebeu em 7 de outubro de 1996 às 11h20 em seu laboratório o pegou completamente de surpresa. “O Comitê Nobel me deu dez minutos para informar minha família”. Depois disso, a notícia espalhou-se pelo mundo.

Esse Prêmio Nobel não o mudou muito, diz Rolf Zinkernagel. Mas a força de sua autoridade lhe deu uma voz pública. Por exemplo, em 1999, durante a campanha acerca da iniciativa popular “Pela proteção genética”, que queria introduzir regulamentações mais rígidas para “proteger a vida e o meio ambiente da manipulação genética”.

Para Zinkernagel, esse texto teria limitado muito a pesquisa científica. Assim, o vencedor do Prêmio Nobel marchou com centenas de colegas segurando cartazes pela Bahnhofstrasse de Zurique. Pesquisadores se manifestando – uma visão única.

Além disso, ninguém pode esquecer os cinco anos que Rolf Zinkernagel passou como colunista para a imprensa. Ele escreveu uma série de artigos sobre temas de pesquisa para o jornal diário “Blick”. “Foi uma tentativa de aproximar a ciência do público em geral”, diz ele. “Nós, pesquisadores, geralmente falamos muito pouco sobre o que fazemos”. Deu certo? Ele não sabe. O fato é que a iniciativa de proteção genética foi amplamente rejeitada nas urnas.

Desde então, o envolvimento de Zinkernagel foi na política de pesquisa: nos conselhos europeu e suíço de ciência. Ele faz campanhas pela promoção da excelência e pelo “ser melhor”, como ele diz.

Seu lema: “não são apenas os alunos com mais dificuldade que precisam de apoio”. É como nos esportes, “ninguém pensaria em parar de apoiar os atletas olímpicos só porque eles já estão no topo”. A ciência precisa exatamente da mesma coisa. Somente se ela investir na excelência é que a comunidade científica suíça poderá manter sua posição e sua importância para a economia.

Rolf Zinkernagel se aposentou em 2008. Seu nome permanece ligado à medicina em geral e à imunologia em particular. Sua filha Annelies é especialista em doenças infecciosas no Hospital Universitário de Zurique, seu filho Martin é chefe da policlínica oftalmológica do Hospital Universitário de Berna, e sua filha Christine é psiquiatra em Basileia.

O aposentado Rolf Zinkernagel aceitou um novo desafio e agora se dedica ao violoncelo. Os instrumentos de cordas sempre o fascinaram e o acompanharam ao longo de sua vida. Sua esposa não era apenas oftalmologista, mas também uma excelente musicista, tocando a viola, que se assemelha ao violino.

No entanto, os dois nunca tocarão em duo. Dois anos após sua aposentadoria, Kathrin faleceu devido a um câncer. “Sim, é possível morrer disso”, diz ele. “Mas eu tento olhar para o futuro, mesmo agora”. Aos 70 anos, ele ainda sonha alto. Seus passeios nas montanhas são “controles de qualidade internos”, afirma, antes de acrescentar com uma risada: “ainda há muitos picos de 4000 metros”.

Este artigo foi publicado em 4 de novembro de 2018 na higgs.chLink externo, a principal revista científica independente da Suíça. A swissinfo.ch reproduz artigos da higgs sem seguir uma ordem específica.

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Adaptação: Clarice Dominguez

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