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Centro de memória cultural preserva o patrimônio do povo rohingya

Solima Khatun está registrada com 120 anos de idade e é uma das pessoas mais velhas da etnia rohingya - e do mundo! Ela fugiu de sua casa na Birmânia - hoje Mianmar - junto com 1 milhão de outras pessoas. Os refugiados querem preservar sua cultura e transmiti-la para a geração mais jovem. IOM

Perseguida em Mianmar, a minoria muçulmana rohingya teme que a sua cultura também esteja ameaçada. Por isso, a Organização Internacional para as Migrações (OIM), sediada em Genebra, lançou um centro de memória cultural.

Este conteúdo foi publicado em 06. agosto 2021 - 15:00

Além de divulgar os trabalhos artísticos dos membros dessa minoria, o projeto e arquivo digital, que é financiado por doadores como a Suíça, também tem como objetivo apoiar a saúde mental de cerca de um milhão de refugiados rohingya nos campos de Bangladesh.

O Centro de Memória Cultural Rohingya é “uma das primeiras tentativas expressivas de preservar e documentar amplamente o patrimônio do povo rohingya”, disse a OIM no lançamento do projeto no início deste ano. Por enquanto, ele é apenas online, mas estão sendo desenvolvidos planos para montar uma estrutura física nos campos de refugiados de Cox's Bazar, em Bangladesh, com exposições e oficinas para artistas e artesãos refugiados.

Após uma brutal repressão por parte do exército de Mianmar, em agosto de 2017, muitos membros da minoria rohingya se tornaram refugiados. Várias de suas casas, no estado de Rakhine, foram destruídas, e há poucas perspectivas de que os refugiados voltem para o país num futuro próximo, principalmente devido ao golpe militar realizado em fevereiro deste ano. Atualmente, Bangladesh não oferece aos refugiados a possibilidade de obterem vistos de trabalho, e as condições nos campos – atingidos por fortes chuvas e um lockdown devido à Covid-19 – são precárias.  Apesar de todos os outros problemas, a preservação de sua história cultural ainda é uma prioridade para os refugiados.

“A cultura é a maior identidade de uma nação”, disse Nurujahan. A refugiada de 44 anos, que é carpinteira e mãe de oito, conversou com a SWI swissinfo.ch numa entrevista feita por e-mail, facilitada pela IOM em Bangladesh. “Estou muito feliz de estar diariamente envolvida em atividades culturais, melhorou a minha vida. Sem isso, nossa nova geração esqueceria sua cultura e suas tradições, então é essencial preservar a nossa cultura.”

Mohammad Zaber, de 53 anos, concorda. O carpinteiro e engenheiro também é pai de oito e acredita na importância da preservação cultural. “Se nos envolvemos em atividades culturais, reduzimos nosso estresse e a nossa tensão. Tudo o que nos é dado nos campos de refugiados em Bangladesh é temporário. Mas a cultura que estamos preservando aqui é permanente. Eu consigo ver a vida dos meus ancestrais na nossa cultura.”

Perda de identidade

“Tudo começou como uma questão de saúde mental e apoio psicossocial”, explica Manuel Marques Pereira, vice-coordenador da missão da OIM em Bangladesh. Estudos sobre saúde mental mostraram que perder a sua cultura era uma grande preocupação para os refugiados.  Pereira diz que já havia culinária comunitária e reuniões musicais nos campos, assim como alguns artesãos. A OIM, então, achou que seria uma boa ideia desenvolver mais essas atividades. Ela começou traçando o perfil dos artesãos, num projeto realizado junto ao governo sueco.

De acordo com Pereira, a coleção atual é ampla, contendo objetos que os refugiados escolheram como representações de sua cultura. Entre eles, estão pinturas, bordados, cestas e artigos domésticos, bem como modelos de arquitetura, ferramentas agrícolas e barcos tradicionais rohingyas.

Além das vítimas, as guerras e conflitos muitas vezes têm um grande impacto sobre os patrimônios culturais. Por vezes, monumentos históricos têm sido alvos diretos de ataques, como nos casos de Palmira, na Síria; os Budas de Bamiyan, no Afeganistão; e os mausoléus em Timbuktu, no Mali. Tudo isso ocorre apesar da Convenção de Haia de 1954, que supostamente deveria proteger o patrimônio cultural em tempos de guerra, e afirma que causar danos ao patrimônio cultural de qualquer povo é causar “danos ao patrimônio cultural de toda a humanidade”.

Subsistência e treinamento

Alguns dos refugiados rohingyas conseguiram trazer pertences consigo, e outros também fazem arte e artesanato nos campos. Pereira afirma que o projeto não pega esses pertences valiosos, e sim pede aos refugiados que façam cópias ou tirem fotografias. “Todos os objetos da coleção foram comprados, pedimos-lhes que os construíssem ou fizessem”, disse ele à SWI swissinfo.ch. “Pagamos pelos seus materiais e por suas horas de trabalho”. Isso ajuda os refugiados a manterem uma forma de subsistência e sua dignidade, explica Pereira. Ele espera que, ao treiná-los nas novas oficinas, “possamos ajudá-los a transformar suas habilidades e técnicas numa forma viável de subsistência” no futuro.

A coleção digital nem sempre é acessível a todos os refugiados, já que os nativos digitais são majoritariamente os mais jovens. Além disso, a conexão de internet nos campos é precária. Todavia, a coleção ajuda a preservar sua cultura para o futuro, além de ser uma fonte para a diáspora e para qualquer pessoa interessada na cultura rohingya.

Pereira espera que o centro físico – que, por ser feito de materiais naturais, não será necessariamente permanente – esteja pronto até o final do ano.

Seis vezes refugiada

Um dos itens da coleção é uma “loda”, pertencente a Solima Khatun, uma senhora cujo registro afirma ter 120 anos. Esse pote de água de latão, usado para limpar o corpo, foi dado por sua mãe e é um dos únicos bens remanescentes de sua vida em Mianmar.

O "loda" de Solima Khatun, que foi dado por sua mãe, é usado para lavar o corpo. IOM

Segundo o site da OIM, Solima foi seis vezes refugiada e é uma das rohingyas mais velhas. O projeto cultural também tem como objetivo possibilitar que os mais velhos e os artesãos transmitam seus conhecimentos à geração mais jovem. Quanto mais tempo permanecerem nos campos, maior o risco que correm de perder o contato com sua herança cultural.

Sobre seu item favorito na coleção, Pereira indica que é uma tapeçaria feita por mulheres rohingyas ilustrando seu acampamento em Bangladesh (veja nossa galeria de fotos acima). Para Pereira, a tapeçaria marca outro momento de sua história. “Foi fascinante ver o que as mulheres acrescentaram à tapeçaria, e como ela realmente tenta registrar um pouco de sua vida em Bangladesh. A tapeçaria levou muitas horas para ser feita e é muito bonita. Haverá um espaço especialmente dedicado a ela no novo centro cultural.”

Nurujahan, a carpinteira, faz uma escolha diferente. “Os diferentes estilos de casas de madeira são meus favoritos”, diz ela. “Quando as vejo, lembro-me de minha casa em Arakan.”

Adaptação: Clarice Dominguez

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