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Canadense reinventa a reciclagem do plástico

A pesquisadora canadense Samantha Anderson, hoje empreendedora na Suíça. swissinfo.ch

Reciclagem industrial de plásticos volta a estar na mira dos empreendedores. Diversas startups investiram no setor, impulsionados pela crescente conscientização ecológica, dentre elas DePoly, da pesquisadora canadense Samantha Anderson.

Este conteúdo foi publicado em 14. abril 2021 - 10:00

Não muito distante da estação de trem de Sion, o novo parque de inovação Energypolis simboliza uma revolução industrial no Valais, um cantão montanhoso ao sul da Suíça. O governo local investiu maciçamente ao longo de duas décadas na criação de centros de competência nos campos da biotecnologia, saúde e ecologia, um passo para abandonar a indústria pesada e poluente do passado, que ocupava as margens do rio Ródano.

"Depois de Zurique e Vaud, Valais é o terceiro cantão mais avançados em termos de inovação em tecnologias limpas", afirma Eric Plan, secretário-geral da iniciativa CleantechAlps. A implantação de uma filial da Escola Politécnica Federal de Lausanne (EPFL) no centro Energypolis em 2015 ajudou a impulsionar esse ecossistema de inovação.

Impacto no cotidiano

Samantha Anderson, uma pesquisadora canadense de 33 anos, escolheu esse local para dar o início ao seu projeto: desenvolver uma nova tecnologia para a reciclagem do plástico chamada "despolimerização". Esse novo processo utiliza solventes para quebrar as ligações químicas no material PET, gerando um líquido (etilenoglicol) e um pó (ácido tereftálico), que podem ser então reutilizados para reproduzir o plástico na mesma forma que o material original.

Seis anos depois de chegar na Suíça para concluir o doutorado em ciência de materiais, Anderson aproveitou as boas condições oferecidas para jovens empreendedores. Ela e dois colegas de pesquisa, Bardiya Valizadeh e Christopher Ireland, fundaram sua própria empresa, DePoly, para industrializar e comercializar suas descobertas feitas em laboratório.

Para Anderson, a Suíça oferece condições muito mais atraentes para abrir uma nova empresa do que no Canadá. swissinfo.ch

"Sempre quis pesquisar em áreas de impacto na nossa vida cotidiana. É surpreendente descobrir que a produção mundial de plástico continua a crescer apesar do problema crescente da poluição e presença de microplásticos no corpo humano. Queremos ajudar a combater esse problema global", explica a canadense.

Plásticos por todos os lados

Segundo um estudoLink externo realizado em 2017 nos Estados Unidos, mais de oito bilhões de toneladas de plástico foram produzidos no mundo entre 1950 e 2015. Mais da metade desse material foi jogado em aterros sanitários ou disperso no meio ambiente. O restante continua a circular ou foi incinerado. E apenas sete por cento de tudo foi reciclado.

Com a crise do Covid-19 e o aumento da poluição por máscaras de proteção descartáveis, luvas e embalagens de alimentos jogados no lixo, o plástico se tornou ainda mais onipresente nos últimos meses, representando uma ameaça significativa para os oceanos e sistemas ecológicos.  

Entretanto, após décadas de estagnação no desenvolvimento de novas tecnologias - e frente à cobrança do consumidor por sustentabilidade - os fabricantes despertaram para a urgência de reduzir o impacto do plástico sobre a saúde e o meio ambiente. Um exemplo é dado pela multinacional alimentícia Nestlé, o terceiro maior consumidor mundial de plástico, que se comprometeu a tornar todas suas embalagens recicláveis - ou reutilizáveis - e reduzir seu uso de plástico em um terço até 2025.

Ambição global

Essa foi a oportunidade de Samantha Anderson. Em dois anos, DePoly pretende inaugurar sua primeira fábrica de despolimerização com uma capacidade de processar até 10 mil toneladas de PET por ano. Os jovens empreendedores procuram investidores capazes de colocar entre cinco e 7,5 milhões de francos para atingir esses objetivos. "Iniciaremos nossas operações na Suíça, certamente no cantão Valais. Depois queremos nos estabelecer em países da União Europeia e outros continentes. Nosso plano é se tornar uma empresa global", afirma confiante Anderson.

Samantha Anderson desenvolveu seu novo processo de despolimerização de garrafas PET nos laboratórios na Escola Politécnica Federal em Lausanne (EPFL). swissinfo.ch

Entre a dezena de startups suíças ativas na reciclagem do plástico ou desenvolvimento de materiais alternativos, DePoly é considerada uma das mais promissoras pelos especialistas do ramo. Em seu primeiro ano de existência, a jovem empresa já conseguiu arrecadar um milhão de francos em financiamentos e entrou no ranking das 100 jovens empresas de futuro na Suíça.

Em comparação com os métodos atuais de reciclagem de PET, a tecnologia desenvolvida pela DePoly tem três aspectos interessantes: "O processo ocorre à temperatura ambiente e, portanto, consume menos energia. Os solventes utilizados são recicláveis. Além disso, todos os tipos de PET, inclusive os misturados com outros plásticos, podem ser triturados sem precisar de tratamento ou limpeza anterior", explica Eric Plan, da CleantechAlps.

Os responsáveis explicam que o processo economiza sete toneladas de petróleo por tonelada de PET produzido e reduz em dois terços a energia necessária para a produção de PET virgem.

No futuro, Samantha Anderson e seus parceiros planejam lidar com outros tipos de plásticos além do PET. "É possível reciclar qualquer um. O desafio é encontrar as reações químicas certas para chegar a um bom resultado", diz.

Críticas de ecologistas

Alguns grupos ambientalistas não acreditam nesse tipo de inovação. "O ganho ambiental da reciclagem de plásticos é marginal. Muitas vezes é apenas uma forma de greenwashing (n.r.:  a injustificada apropriação de virtudes ambientalistas em produtos). Precisamos fazer uma verdadeira transição para um sistema de embalagens reutilizáveis", declara Florian Kasser, do Greenpeace.

Baseando-se em um estudo recém-publicado, a ONG ambientalista afirma que o transporte de 70% de lixo plástico a centros de reciclagem e coleta durante um ano equivale à renúncia de um bife. Já a associação setorial Swiss Recycling anuncia implantação de um sistema nacional de reciclagem de plástico na Suíça até 2022.  

Samantha Anderson, por outro lado, diz que estes são dois lados da mesma moeda. "Também acho essencial encontrar alternativas ao plástico. Mas esse material é ainda tão importante, que levaremos muito tempo para substituí-lo. Quando isso ocorrer, gostaria de buscar soluções para reciclar os bioplásticos, cuja eliminação também é bastante complicada."

Adaptação: Alexander Thoele

Reciclagem de plástico na Suíça

Segundo um estudo do fundo de investimento Loop Partners, citado pelo portal Heidi.News, cerca de 70 empresas em todo o mundo desenvolvem atualmente novas tecnologias para a reciclagem de plásticos.

Dentre elas, startups suíças. Elas pesquisam não apenas na área de reciclagem e conversão do plástico já em circulação, mas também na busca de novos materiais como alternativas menos poluentes ao plástico:

  • Bloom BiorenawablesLink externo desenvolveu uma tecnologia que permite explorar biomassa e utilizá-la como substituto ao petróleo.
  • UHCSLink externo fabrica casas utilizando garrafas PET.
  • Pyrotech Swiss, Plastogaz et Greelina desenvolveram processos para converter o plástico em combustível (diesel e gás).
  • TRS se especializou na reciclagem de pneus: utilizam uma tecnologia que separa metal, fibra sintética e borracha.
  • Gr3n também se especializou na despolimerização de PET, porém utilizando um processo de micro-ondas.
  • Tide ocean colhe o plástico dos oceanos e o recicla como granulados ou fibras têxteis.
  • Mr.GreenLink externo desenvolveu um sistema para ajudar na separação do lixo plástico.
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