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De repente vivendo em uma ditadura

Professores protestando contra a ditadura. Copyright 2021 The Associated Press. All Rights Reserved.

Peter Schmidt e sua esposa. Käthi Hüssy, queriam ajudar Myanmar a sair da pobreza. Ao invés disso, os dois suíços viveram um golpe militar.

Este conteúdo foi publicado em 21. maio 2021 - 10:00

Quando Peter Schmidt e sua esposa Käthi Hüssy se mudaram para Myanmar, em 2017, esperavam encontrar o país em um momento frágil, mas também animador: apesar dos problemas, a transição para a democracia parecia ter sido razoavelmente bem-sucedida. Afinal, o país tinha passado quase meio século sob um regime militar e agora a sociedade civil emergia e o país se abria ao investimento e ao turismo. Myanmar não era mais considerado um “pária”.

Käthi Hüssy e Peter Schmidt frente a um templo em Rangon. Peter Schmidt

Nos últimos meses o casal ouvia tiros nas proximidades do apartamento em Yangon, principalmente à noite. Em 1 de fevereiro o golpe foi consumado: o Exército assumiu o poder, infiltrando-se pelas bases frágeis, e desde então reprime protestos com violência maciça. Os rumores do golpe já existiam antes. "Mas não pensei que ocorreria. Me equivoquei", diz Schmidt.

Como representante local da ONG suíça Helvetas, Schmidt viaja muito e conhece agricultores, mulheres empresárias, oficiais, migrantes e trabalhadores. No ano passado, no entanto, permaneceu a maior parte do tempo em casa. Inicialmente devido à pandemia e para respeitar as medidas de proteção impostas pelo governo. Mas, nos últimos meses, foi por questões de segurança. Mais uma razão para se conectar na internet: além do trabalho, é preciso acompanhar os acontecimentos. "Especialmente através da plataforma Facebook, considerado no Myanmar quase um sinônimo de Internet", acrescenta. E como um dos poucos suíços vivendo no país, ele é frequentemente entrevistado pela mídia helvética.

Schmidt nasceu em Zumikon, um subúrbio de Zurique. Seu pai era caçador e eles passavam muito tempo juntos. Seu interesse pela natureza começou cedo. Schmidt sabia que iria trabalhar com algo ligado à ecologia. Depois de praticar um pouco de jornalismo no final dos anos 1970, cursou agronomia na Escola Politécnica Federal (ETH) em Zurique.

Depois fez estágios em fazendas na Suíça, uma experiência que considerou muito “agradável". E em 1986, foi fazer um estágio na Índia. "Essa foi uma experiência de vida, um verdadeiro choque cultural." Uma das primeiras lembranças que o marcou foram as mulheres indianas batendo pedras em cascalho, na beira da estrada. "Incrível!", pensou consigo mesmo. Desde então o suíço sempre vê cenas semelhantes nos países onde atua.

Colombo, Sri Lanka, 1986, onde faria um estágio de agronomia em um projeto da Intercooperation em Kerala, Sul da Índia. Peter Schmidt

No início, na experiência indiana, Schmidt via com temor esse mundo desconhecido. Os cheiros, o barulho, as multidões: todos elementos que conheceria melhor alguns anos mais tarde, quando seu primeiro posto no exterior o levou à Orissa (hoje Odisha), uma das áreas mais pobres da Índia no início dos anos 1990, junto com a esposa e Zarah, a filha recém-nascida.

Não foi fácil para a família: dificuldades com o clima, condições de vida simples, mas acima de tudo a falta de contato com os nativos, cujos acontecimentos da vida ocorrem dentro da própria família estendida, e oferecem poucos pontos de contato com outras pessoas. "Käthi descreveu apropriadamente esse início como 'morte social'." Profissionalmente, por outro lado, foi um momento enriquecedor: Schmidt supervisionou projetos na pecuária, dirigiu serviços de extensão agrícola e construiu apoio para minorias étnicas. Käthi, ainda uma estudante de etnologia nesse período, teve a oportunidade de estudar a realidade in loco.

Da barraca à internet

Schmidt e sua família retornaram posteriormente à Suíça, mas continuou ativo em projetos de ajuda ao desenvolvimento, o que permitiu-lhe continuar realizando muitas viagens ao exterior. Após o nascimento do segundo filho, Niclo, a família decidiu novamente, em 1998, por mais uma experiencia no exterior e assumiu um posto no Quirguistão. Ali, Schmidt criou um serviço de extensão agrícola em um ambiente extremamente dinâmico - afinal, o país da Ásia Central ainda se recuperava do colapso da União Soviética. A qualidade de vida também era boa. "Em Bishkek tivemos, provavelmente, os melhores momentos de nossa vida familiar."

Peter Schmidt com Zarah e Niclo em Kochkor, no Quirguizistão, em 2000. Peter Schmidt

Por um lado, a família passava férias com nômades nas montanhas, vivendo com eles em tendas durante semanas. Por outro lado, com a chegada da internet, o trabalho de Schmidt mudou muito. Os contatos com o escritório na Suíça se tornaram mais fáceis. A interação com os habitantes locais e a comunidade internacional de expatriados também facilitou a vida da família. Depois de alguns anos retornaram. Schmidt assumiu então diversas funções na Helvetas, uma ong suíça especializada em projetos de ajuda ao desenvolvimento.

Saigan, Afeganistão, 2013: "Algumas das experiências mais memoráveis tive nesse país,. onde trabalhei em um projeto para o uso sustentável do solo e da água". Peter Schmidt

Escalada sangrenta

Quando os filhos terminaram o ensino e seguiram seus caminhos, o casal decidiu voltar ao exterior. Era para ser o último posto de uma longa carreira. “Estávamos contentes em ir para Myanmar, um país culturalmente rico e com uma história turbulenta", conta. Responsável pelo escritório da Helvetas no país, Schmidt chefia uma equipe de 50 pessoas e administra um orçamento anual de seis milhões de francos. É uma tarefa empolgante, visto que a presença da ong no país é recente.

É preciso paciência e bom-humor no cotidiano em Myanmar. Peter Schmidt

Nesse meio tempo, o país estava a caminho de se tornar uma democracia, mas ainda vivia problemas. Com mais de 50 minorias étnicas reconhecidas - algumas das quais com milícias próprias, envolvidas em conflitos violentos com os militares - a situação era instável, especialmente no meio rural. A opinião pública mundial foi lembrada disso pela expulsão de 700 mil membros da minoria Rohingya para o Bangladesh em 2017. "Foi quando o Exército do país mostrou sua verdadeira face."

Os militares continuam tendo muito poder no país, sobretudo na economia através do controle de conglomerados e monopólios. "Cada cerveja que bebi, ajudou a financiar a junta militar", lamenta. Os protestos começaram.

A reação foi dura. Até hoje aproximadamente 800 pessoas perderam suas vidasLink externo. Há relatos na mídia de 300 mil pessoas desabrigadas, mas o número pode ser maior. Policiais e soldados vêm à noite e prendem pessoas, enquanto o governo bloqueia a internet para impedir o fluxo de informações. Schmidt se surpreendeu com o golpe: o filho, na Suíça, o acordou com uma mensagem, contando que o Exército birmanês assumiu o poder no país.

Desde o golpe, o acesso à internet está restrito. Inicialmente durante a noite, mas hoje também durante o dia. É a forma que a Junta encontrou para controlar a situação.

E agora? O contato de Schmidt em Myanmar expira em junho. Depois o suíço e sua esposa devem retornar à Suíça. "Mas confesso que estamos ansiosos por partir", diz. "Os últimos meses foram complicados, apesar de nunca termos vivido algum risco". Porém seus colegas birmaneses vivem sob o medo constante de serem presos. Ou de o país escambar para o caos. Schmidt se pergunta sobre as perspectivas dos funcionários da ong, especialmente os jovens. "É triste deixar o país nesta situação."

Leia aqui a entrevista com a enviada especial da ONU para Myanmar, Christine Schraner Burgener.

Adaptação: Flávia C. Nepomuceno dos Santos

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