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Abelhas da cidade e abelhas do campo

Não é fácil para o leigo identificar uma das 615 espécies de abelhas silvestres encontradas na Suíça. Estes insetos discretos, nos quais a pesquisa está começando a se concentrar, são pelo menos tão importantes quanto as abelhas domésticas para a polinização. Max Huber

Quando pensamos em um mundo onde frutas, vegetais e flores teriam se tornado escassos, menores e sem vida, a morte das abelhas impressiona a todos. Mas de que abelha estamos falando? Da nossa amada abelha doméstica ou das discretas abelhas selvagens, ainda em grande parte desconhecidas? E se mimarmos demais uma delas, como fazemos na Suíça, não estaríamos prejudicando a outra?

Este conteúdo foi publicado em 25. junho 2021 - 11:00

“Se as abelhas desaparecessem, a humanidade teria apenas quatro anos de vida”. Atribuído a Albert Einstein, esse alerta deu a volta ao mundo. O problema é que, na verdade, o gênio da física nunca disse isso. Mas a ideia é útil para aumentar a conscientização sobre o problema da perda da biodiversidade em geral. Na realidade, sem as abelhas (e alguns outros insetos), comeríamos principalmente cereais e arroz. Cerca de 70% de nossas colheitas dependem muito ou totalmente da polinização animal. É o caso, principalmente, de quase todas as frutas, legumes, oleaginosas, especiarias, café e cacau.

Renomeada de "sentinela ambiental", a abelha doméstica tornou-se o centro das atenções, pois sabemos que nossos pesticidas a estão matando. E ainda por cima a abelha – que vive conosco há séculos – é tão fofa (quando não pica), e o mel é tão doce! Hoje, muitos habitantes da cidade desejam ter sua própria colmeia no jardim, no terraço ou na varanda. E, se isso não for possível, eles sempre podem apadrinhar uma no campo, “uma forma de conservar as abelhas sem tê-las”, como observa Francis Saucy, presidente da Sociedade de Apicultura da Suíça Romanda (de expressão francesa).

A abelha produtora de mel é a queridinha da mídia, dos políticos e do público, e por isso está se dando muito bem na Suíça. “O país tem mais de 200.000 colmeias. Com 20 a 80.000 abelhas por colmeia, ela poderia muito bem ser o inseto mais abundante em nosso país em termos de biomassa", acrescenta Christophe Praz, do laboratório de entomologia evolutiva da Universidade de Neuchâtel. Não há dados para realizar comparações precisas, mas vários especialistas estimam que a densidade de abelhas domésticas na Suíça é a mais alta da Europa, e que o país nunca teve tantas como tem hoje.

Porque mesmo quando o clima é catastrófico, como foi o caso nesta primavera, os apicultores sempre têm a possibilidade de usar xarope de açúcar para alimentar suas protegidas.

615 a 1

Não há nada do tipo para abelhas selvagens, as grandes desconhecidas da polinização. Entretanto, além da abelha doméstica europeia [apis mellifera], existem quase 16.000 espécies de abelhas silvestresLink externo no mundo, incluindo 615 na Suíça. Quantas abelhas seriam no total? “Não temos a menor ideia, porque só nos interessamos por elas há cerca de 15 anos”, responde Max Huber, um autodidata e especialista amador em abelhas, fundador da associação Urbanwildbees, que faz um trabalho de conscientização do público sobre a importância das abelhas silvestres.

Ao contrário de suas primas domésticas, as abelhas selvagens não produzem mel, geralmente não picam, vivem majoritariamente solitárias e depositam seus próprios ovos (sem rainha) no solo, em madeira morta ou em caules de plantas. Além disso, enquanto a abelha doméstica pode se afastar até cinco quilômetros de sua colmeia para procurar alimento, as abelhas selvagens não vão além de 300 a 500 metros de seu ninho.

O que cada um pode fazer

Diferente das abelhas selvagens, a abelha doméstica é um animal de criação. No entanto, muito poucas das 50.000 fazendas suíças têm colmeias, “porque elas não dão nenhum dinheiro”, observa Francis Saucy, presidente da Sociedade de Apicultura da Suíça Romanda (SARLink externo, na sigla em francês). Como resultado, as 20.000 instalações de apicultura do país são, em sua maioria, dirigidas por amadores. Todavia, não se deve improvisar como apicultor. “As abelhas requerem experiência”, insiste Francis Saucy. A SAR oferece cursos de treinamento, que são muito bem-sucedidos.

E quanto às abelhas selvagens? Em Genebra, seu grande amigo Max Huber, fundador da UrbanwildbeesLink externo, está comprometido com sua proteção. Sua associação instala hotéis para abelhasLink externo em jardins públicos. E os cidadãos também podem contribuir com alguns gestos simples: “elas precisam de abrigo e comida. Basta deixar alguma madeira morta em seu jardim e ter plantas melíferas, como urze, borragem ou alecrim, que não só são nativas daqui, mas também são cheirosas”.

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A abelha silvestre põe seus ovos e alimenta suas larvas no solo ou em madeira morta, mas também pode ser instalada em "hotéis". © Keystone / Gaetan Bally

Discretas, mas especialmente eficazes

Além da abelha mamangaba (uma espécie), comum em nossos jardins, a maioria das abelhas silvestres passam despercebidas “ou as pessoas as confundem com vespas ou formigas voadoras”, explica Christophe Praz.

Por mais discretas que sejam, essas ajudantes do mundo vegetal são, entretanto, muito eficazes. “Elas são polinizadoras muito melhores do que as abelhas domésticas”, diz Huber. “Porque elas têm pelos nas patas, abdômen e tórax, o que lhes permitem coletar pólen seco, enquanto a abelha doméstica tem que juntá-lo à sua saliva, e esse pólen úmido não entra tão bem nas flores”. Além disso, as abelhas selvagens são menos sensíveis à temperatura e ao vento, e saem até mesmo quando o tempo está ruim.

Com todas essas vantagens, as abelhas selvagens polinizariam tanto quanto as abelhas domésticas, mas novamente faltam dados que sustentem esta estimativa.

Um exército contra soldados solitários

Mas há também o outro lado da moeda: com seu alcance muito limitado, as abelhas silvestres são extremamente dependentes de seu ambiente. Basta que um prado desapareça sob o asfalto para as abelhas desaparecerem com ele. Além disso, como muitas vezes procuram apenas uma espécie ou família de flores, elas são particularmente sensíveis à perda da biodiversidade.

Então, se, além disso, as prejudicamos com a concorrência das abelhas domésticas... “É como uma festa de aniversário: quanto mais convidados você tiver, menor a fatia do bolo para cada um”, destaca o defensor de abelhas silvestres Max Huber. O apicultor Francis Saucy explica: “uma colônia de abelhas em busca de alimento é como um exército marchando em fileiras fechadas através de um campo”.

“Em um prado com muitas flores, essa concorrência não é um problema”, explica o professor Christophe Praz. “Por outro lado, em uma área de agricultura intensiva, onde já existem poucas flores – e nenhuma a partir de junho –, colocar colmeias nas pequenas áreas onde ainda existem muitas flores é um problema para todos os insetos polinizadores”. Inclusive para as abelhas selvagens. 

Portanto, sim, dependendo do local, das condições ou da estação do ano, há de fato uma competição. É principalmente por isso que os cantões de língua alemã não permitem que colmeias sejam colocadas perto das reservas naturais.

Greenwashing

E na cidade? Como relata Max Huber, estudos realizados em Paris mostraram que a explosão das colmeias urbanas há cerca de 15 anos levou a um declínio acentuado das abelhas silvestres. Para ele, a causa é clara: “você não pode salvar o planeta colocando uma colmeia em sua varanda. As abelhas domésticas têm de fato problemas por causa dos pesticidas, mas não estão a caminho da extinção, ao contrário do que as pessoas pensam”.

De modo mais geral, Christophe Praz não está muito preocupado com o futuro da polinização. “Mas essa é minha opinião pessoal”, acrescenta. Ele também acredita que “temos abelhas domésticas o suficiente na Suíça. Apadrinhar uma colmeia ou colocar uma em sua varanda é um pouco de greenwashing. Por outro lado, é imprescindível fazer algo para preservar as flores, seja na cidade ou no campo”.

Berna também está interessada em abelhas silvestres

Desde 2013, a Universidade de Berna tem seu Instituto de Saúde das Abelhas, onde uma equipe internacional realiza pesquisas teóricas e aplicadas, além de divulgar o conhecimento adquirido para estudantes e profissionais. O instituto colabora com o órgão federal de pesquisa agrícola Agroscope e abriga a sede da COLOSS, a associação mundial de preservação das abelhas domésticas.

Graças a um financiamento de três milhões de francos concedido pela Fundação Vinetum, entidade de apoio à pesquisa, os horizontes do instituto serão ampliados: será possível contratar um conferencista em saúde das abelhas silvestres (um campo ainda relativamente inexplorado) e, posteriormente, um docente para o período de oito anos, com o intuito de capacitar a próxima geração.

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Adaptação: Clarice Dominguez

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