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A Suíça, o Hamas e a questão do terrorismo

Um membro da ala militar do Hamas segura a bandeira do Hamas durante um comício na Faixa de Gaza em 2013. Keystone / Mohammed Saber

Organizações judaicas da Suíça pedem que o grupo radical islâmico Hamas seja declarado terrorista. A recente escalada dos conflitos no Oriente Médio deu um novo impulso a essa antiga reinvindicação, mas a diplomacia suíça tem ignorado a proposta.

Este conteúdo foi publicado em 16. junho 2021 - 15:30

O conflito mais recente entre Israel e Palestina reanimou um longo debate na Suíça: classificar oficialmente o Hamas como uma organização terrorista.

Em uma declaração conjunta publicada no dia 20 de maio, a Federação Suíça das Comunidades Judaicas (FSCI, na sigla em francês) e a Plataforma dos Judeus Liberais da Suíça (PJLS) descreveram o Hamas como “claramente extremista, terrorista e antissemita”. Elas afirmaram ser inaceitável que “membros do Hamas circulem livremente, levantem fundos e façam negócios na Suíça”. A embaixada israelense em Berna emitiu declarações similares.

Na Suíça, apenas a Al-Qaeda e o Estado Islâmico (EI) são classificados como organizações terroristas. Por isso, o governo suíço não pode estabelecer uma comunicação direta com eles.

No mês passado, após 11 dias seguidos de violência entre Israel e o Hamas, milhares de pessoas ficaram feridas e pelo menos 230 palestinos e 11 israelenses foram mortos. Milhares de casas e instalações de infraestrutura foram devastadas na Faixa de Gaza. Um cessar-fogo finalmente entrou em vigor no dia 21 de maio, depois que o Egito e as Nações Unidas intermediaram um acordo entre Israel e o Hamas.

O silêncio do governo federal

Não é a primeira vez que as comunidades judaicas fazem essa reivindicação. Em 2017, o parlamentar Christian Imark, membro do Partido Popular Suíço (direita), pediu ao governo que banisse o Hamas ou o classificasse como uma organização terrorista.

“Declarar o Hamas como grupo terrorista seria a coisa certa a se fazer. Ele tem agido constantemente como agressor e usado seu próprio povo como escudo humano”, disse Imark à SWI swissinfo.ch.

Até agora, o governo não respondeu à declaração. Devido ao seu trabalho de promoção da paz no Oriente Médio, a Suíça mantém um diálogo com todas as partes envolvidas no conflito para mediar a comunicação entre Israel e os palestinos, assim como entre o Hamas islâmico e os grupos laicos Fatah. Classificar o Hamas como uma organização terrorista não permitiria qualquer comunicação direta com o partido político e limitaria o papel que a Suíça exerce atualmente. O posicionamento suíço não mudou desde os episódios de violência recentes.

Em resposta ao questionamento, o Ministério de Relações Exteriores afirmou: “O Ministério das Relações Exteriores tomou nota da reinvindicação das Comunidades Judaicas. A posição da Suíça [...] não mudou. No entanto, condenamos claramente o fato de que o Hamas nega o direito de Israel de existir e define a luta armada como um meio legítimo de resistência”.

Além disso, afirmou que a Suíça manteve contato com todas as partes envolvidas no conflito e que apelou ao Hamas para que cessasse a violência na Faixa de Gaza e garantisse o cumprimento do direito humanitário internacional e dos direitos humanos.

Encontrar o equilíbrio

A União Europeia considera o Hamas uma organização terrorista, o que torna impossível a comunicação direta entre eles. Essa é uma das razões pelas quais a UE não desempenhou um papel importante na intermediação do atual cessar-fogo. Outros países não consideram toda a organização como um grupo terrorista, mas apenas a sua ala militar, as Brigadas Al-Quds.

A intensificação mais recente do combate também reanimou a discussão na Alemanha. O político alemão Armin Laschet – um dos candidatos a suceder a chanceler alemã Angela Merkel – pediu a proibição da bandeira do Hamas, enquanto outros exigem que toda a organização se torne ilegal. Assim como na Suíça, o Hamas não é banido na Alemanha.

É questionável, no entanto, se a proibição do Hamas traria algum resultado. Analistas afirmam que o Hamas é agora considerado o partido político mais forte também fora da Faixa de Gaza, onde está no poder desde 2007. O partido tem ganhado apoio na Cisjordânia e entre os árabes israelenses.

O especialista em Oriente Médio Erich Gysling resumiu o dilema em uma entrevista ao jornal de língua alemã Luzerner Zeitung. “O Hamas é o vencedor do lado palestino. Temos que manter o diálogo com eles. Chamá-los de terroristas não ajudaria ninguém", declarou ele.

Adaptação: Clarice Dominguez

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