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A primeira maioria de mulheres em um parlamento regional

Florence Nater (centro) no domingo, em Neuchâtel. Uma segunda votação será realizada para as eleições para o governo cantonal. As eleições parlamentares já foram realizadas. Keystone / Jean-christophe Bott
Este conteúdo foi publicado em 01. maio 2021 - 10:00
Claude Longchamp

Desde a suas eleições em 18 de abril de 2021, Neuchâtel passou a ter uma maioria de mulheres no seu Parlamento cantonal: 58 deputadas do total de 100, uma novidade na política helvética. Como isso ocorreu? O cientista político Claude Longchamp analisa a situação.

A "revolução" em Neuchâtel não era esperada: em 2013, o Parlamento desse cantão francófono tinha uma proporção de apenas 23% de mulheres eleitas. Em 2017 aumentou para 34%, o que correspondia a média em todos os parlamentos cantonais no país. Mas com a eleição, a representação feminina saltou em 24 pontos percentuais.

O que acontece na Suíça e em Neuchâtel?

Novo recorde suíço

Os resultados eleitoraisLink externo desde 2019 Suíça apontam uma melhoria constante da representação política de mulheres.

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Em nível federal, o atual Conselho Nacional (Câmara dos Deputados na Suíça) tem uma representação feminina de 42%. No Conselho de Estados (Senado) esta é de 26%. A diferença na proporção de mulheres nas duas câmaras está relacionada à Lei eleitoral helvética. O sistema de representação proporcional utilizado no Conselho Nacional facilita a entrada das mulheres no Parlamento, como avaliaram os pesquisadores de Centro para a Democracia em AarauLink externo.

A maior representação de mulheres a nível cantonal conhecia até agora os cantões de Basileia-cidade (42%, 2020), Zurique (40,6%, 2019) e Basileia-campo (40%, 2019). São todos cantões urbanos.

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Níveis elevados foram vistos recentemente em alguns parlamentos locais. Berna, também capital do país, definiu a tendência em novembro de 2020 com uma proporção de 70% de mulheres ocupando os assentos da Câmara Municipal. Logo depois o mesmo ocorreu nas cidades de Lausanne e Friburgo.

Nova onda de participação das mulheres

Essa dinâmica remonta a 2019, quando ocorreu a segunda "greve" de mulheres no país. As discriminações presentes mercado de trabalho, sociedade e política entraram no debate público. Os problemas permanecem, mas já há mudanças concretas.

Greve das mulheres em 14 de junho 2019: na imagem, os protestos em Zurique. Keystone

Um estudo publicadoLink externo pela Universidade de Lausanne mostra que as mulheres estão cada vez mais presentes na política do país. Nos governos aumenta lentamente o número de funcionárias públicas. Já no setor privado a história é diferente.

As mudanças mais visíveis ocorrem em nível federal. A eleição do Conselho Federal (Poder Executivo) em 2018 foi um prelúdio. Uma terceira mulher foi eleita ministra (no total, sete). Desde então, o Partido Socialdemocrata, o Partido do Centro e o Partido Liberam tiveram, cada um, uma representante no Conselho Federal.

Novo movimento

"Helvetia chama!Link externo" faz parte de um novo movimento de mulheres. A ONG realiza um trabalho de conscientização não partidário, combinado com uma intensa atividade de lobby em prol de uma maior presença feminina. Graças a este trabalho, a proporção de mulheres nas listas eleitorais aumentou de forma mensurável em 2019. Antes das últimas eleições, a proporção de mulheres no Conselho Nacional era de um terço. Depois pulou para mais de 40%.

O resultado dos esforços pode ser visto em quase todos os partidos. A maior proporção de mulheres em 2019 estava nas listas eleitorais do Partido Socialdemocrata (SP), seguida pelo Partido Verde (PV) e Partido Verde Liberal (PVL). Eles foram seguidos pelo Partido Liberal (FDP), o Partido do Povo Suíço (SVP) e o Partido do Centro (antigamente denominado pela sigla CVP). Porém no caso do CVP, o Departamento Federal de Estatística (BFS) aponta uma tendência negativa na representação feminina nas listas de candidatos ao Conselho Nacional.

Mas as mudanças também podem ser vistas no eleitorado. Em 2019, pela primeira vez, a média de votos para uma mulher indicada era maior do que para um homem, o que estimulou as ativistas femininas. O movimento "Helvetia chama!" está ativo nos cantões há um ano.

Neuchâtel é agora uma dessas histórias de sucesso. O primeiro foi a composição das listas eleitorais: e média, elas tinham 40% de mulheres. E havia a diferença conhecida entre a esquerda e a direita: mais mulheres na seleção para os partidos de esquerda e menos para os grupos de direita.

Depois mudou também os padrões de votaçãoLink externo: 78% de todos os eleitos do PV são agora mulheres; o PVL, 75%; o SP, 71% e finalmente o Partido Democrático do Trabalho (POP), que ficou com a proporção de 63%. Portanto, há amplos eleitorados que escolhem deliberadamente as mulheres entre uma seleção de candidatos. Para os partidos de centro, a proporção continua em um quarto. Já o SVP teve 38% e o FDP, 41%.

Comparação mundial

Após as dificuldades iniciais, a Suíça fez progressos consideráveis na representação das mulheres na política. Em termos de representação nacional, o país ocupa a 20ª posição mundial desde 2021, de acordo com as estatísticas da ONULink externo.

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Três explicações para os principais resultados:

  • Rupturas na sociedade masculina causadas por guerras, como em Ruanda (posição 1).
  • Países como Cuba com apenas um partido (posição 2)
  • e sociedades que se concentram conscientemente na diversidade como um fator de fortalecimento, como é o caso da Nova Zelândia (posição 5).

Na Suíça esses pontos se aplicam em uma ou duas explicações: a mudança climática abalou a política nacional. Nunca, nos últimos 100 anos, as eleições na Suíça foram tão voláteis como em outono de 2019.

Os esforços de vários partidos de aumentar a representação das mulheres são definitivamente parte da agenda da "diversidade".

Feminização do eleitorado de esquerda

As pesquisas eleitorais mostram a influência das novas tendências.

Em 2019, de acordo com uma pesquisa realizada pela Universidade de Lausanne após as eleições, o eleitorado feminino passou a tender à esquerda: 46% das mulheres votaram em partidos como o SP, PV ou PVL. Entre os homens, o bloco da esquerda foi de apenas um terço.

Com a feminização do eleitorado à esquerda, o comportamento de voto masculino também muda. Um estudoLink externo sobre as eleições cantonais de 2019 no cantão de Zurique demonstrou essa tendência. A Universidade de Zurique mostrou que os eleitores do SP, PV e PVL votam preferencialmente em mulheres.

Efeito colateral da nova Lei eleitoral

No entanto, é preciso haver uma explicação específica para a "revolução" no cantão de Neuchâtel. Ela está na mudança da Lei eleitoral para as eleições de 2021. Antes o cantão vivia uma representação regional com seis circunscrições eleitorais. A intenção era mantém os políticos mais próximos dos seus eleitores regionais.

Agora o eleitor em Neuchâtel passou a ter mais liberdade de escolha, o que permitiu a escolha de personalidades cantonais estabelecendo uma identificação maior com o cantão. O equilíbrio da representação das regiões será estabelecido posteriormente com uma nova lei eleitoral.

Vista da Torre das Prisões na cidade de Neuchâtel. © Keystone / Gaetan Bally

Mas o que ocorreu? Resposta: um efeito colateral. O que se pretendia em Neuchâtel era um equilíbrio entre as regiões com interesses conflitantes. O novo sistema eleitoral teve obviamente um efeito sobre a representação dos sexos na política.

Pois a política local é dominada por homens. Quanto mais estes determinam a política cantonal, mais forte é o efeito dos fatores tradicionais de representação: as pessoas votam nos homens que se destacam em suas regiões.

Quanto mais se busca uma representação supralocal, maior é a probabilidade de que as mulheres estejam igualmente bem - ou melhor - representadas.

Não foi uma grande surpresa, então...

Adaptação: Alexander Thoele

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