Navigation

"O objetivo não é que os suíços no exterior entreguem seus passaportes"

O passaporte suíço. Keystone

Uma moção apresentada no parlamento do Cantão de Zug (Suíça central) suscitou a indignação de suíços no exterior. O objetivo da moção é colocar um fim à dupla cidadania. No entanto, o político do Partido Popular Suíço (SVP, direita nacionalista) que apresentou a ideia insiste que ela não visava os suíços do estrangeiro.

Este conteúdo foi publicado em 29. abril 2021 - 10:00

Um cidadão suíço não deveria poder ter mais de uma nacionalidade. Esse é o objetivo da moção do político membro do SVP, Thomas Werner. No âmbito político, ela não tem a mínima chance de sucesso e provavelmente será enterrada definitivamente em breve pelo parlamento cantonal de Zug.

Isso não significa, porém, que a medida não tenha suscitado inquietação entre suíços no exterior. A comoção se deu a tal ponto que a direção da Organização dos Suíços do Estrangeiro (OSE) decidiu se posicionar em uma declaração oficialLink externo (em alemão): “A emenda proposta teria um impacto dramático”, destaca a declaração. De fato, 582.000 suíços no exterior possuem mais de uma nacionalidade, ou seja, três quartos da população suíça espalhada pelo mundo.

“É uma questão sobre os imigrantes”

Agente de polícia e político: Thomas Werner, SVP Zug. zvg

“Meu objetivo não é que os cidadãos suíços renunciem aos seus passaportes suíços simplesmente porque eles também têm outra nacionalidade”, afirma Thomas WernerLink externo. “Eu gostaria, por outro lado, que os imigrantes na Suíça tivessem a dupla nacionalidade negada.”

Thomas Werner, de 49 anos, trabalha para a polícia da cidade de Zurique na área de proteção à criança, sendo responsável pelas investigações. Ele tem dois filhos, é casado e ocupa o cargo de vice-presidente do SVP cantonal. Em seu perfil, ele se pronuncia contra “a imigração por asilo” e a favor da “segurança na Suíça”.

Contatado pela SWI swissinfo.ch, ele fala ao telefone sobre suas experiências enquanto policial, denunciando os “estrangeiros criminosos com um passaporte suíço” que mal falam uma língua nacional e ainda assim são naturalizados, algo que não deveria ser possível segundo o sistema suíço. Imigrantes com um passaporte suíço que às vezes precisam de um intérprete para lidar com as autoridades suíças. Sua conclusão: “não se deveria permitir que os imigrantes tenham dupla nacionalidade”.

Poucas chances de sucesso

Thomas Werner redigiu sua moção no ano passado, quando, pela primeira vez na Suíça, os ataques terroristas em Morges e Lugano fizeram as pessoas se darem conta de que o país também poderia ser atingido por tais ondas de violência. Ele a apresentou em novembro do ano passado.

Ela está atualmente nas mãos do governo cantonal e em breve passará adiante para o parlamento de Zug, que provavelmente recomendará sua rejeição. O parlamento cantonal conta com 80 membros. O SVP ocupa 18 de suas cadeiras. Assim, seria de fato surpreendente que o parlamento cantonal declarasse essa sua moção como “admissível”. Mas, se fosse o caso, ela se tornaria uma iniciativa parlamentar nacional, que daria significativamente mais peso à questão.

Se tal possibilidade se concretizasse, Thomas Werner afirma que ele especificaria “de que tipo de dupla cidadania” ele está falando. E acrescenta: “Eu tentaria garantir que não surgisse nenhum problema para os suíços no exterior”.

No entanto, a indignação da Quinta Suíça, como é chamada a comunidade suíça no estrangeiro, não se fez esperar. A OSE se sentiu especialmente incomodada pela formulação seguinte: "A Suíça e outros países europeus enfrentam o problema de não poderem expulsar indivíduos perigosos, mesmo terroristas, de seu território porque essas pessoas foram naturalizadas e têm agora dupla cidadania. Regularmente, as pessoas que constituem um perigo para a segurança do Estado cometem crimes violentos e sexuais e até mesmo ataques terroristas".

Em sua declaração, a OSE diz que essas afirmações são inaceitáveis. Acusar todas essas pessoas de serem criminosas é ultrajante para os suíços no exterior.

Encontre um resumo diário das notícias, participe de nossos debates e faça suas perguntas à comunidade no nosso aplicativo 📱SWI plus📱
👉 AndroidLink externo
👉 iPhoneLink externo

End of insertion

Thomas Werner diz ter consciência da declaração da OSE e especifica que o “efeito desejado” de sua moção não era afetar a Quinta Suíça.

Desde então, ele também tem recebido e-mails de suíços no exterior, principalmente após um postLink externo em um grupo do Facebook para suíços no exterior. A mensagem foi seguida por um apelo para entrar em contato diretamente com Thomas Werner, dando seus dados de contato. O político disse que ele respondeu a todos de forma cordial e esclareceu o mal-entendido.

Uma pedra no sapato do SVP

No entanto, apenas esse mal-entendido não é o suficiente para explicar a indignação da OSE e de vários suíços no exterior. O assunto é delicado, pois não é a primeira vez que um representante do SVP ataca a múltipla nacionalidade.

As pessoas com dupla cidadania sempre foram uma pedra no sapato do SVP, e as iniciativas anteriores visavam diretamente os direitos políticos da Quinta Suíça. Em 2018, o deputado federal do SVP, Peter Keller, originário do Cantão de Nidwalden, apresentou uma interpelaçãoLink externo contra a dupla nacionalidade ao parlamento federal. Ele declarava: “Os suíços no estrangeiro deveriam decidir se seu direito de votar na Espanha, na Tailândia, na França ou onde quer que seja é mais importante para eles do que sua participação política na Suíça.”

Em 2016, um outro deputado federal do SVP, Lukas Reimann, tinha declarado: “Atualmente, nós temos uma discriminação contra as pessoas que têm apenas um passaporte em comparação àquelas que têm dois.” O problema, dizia ele, é que “você pode participar da política em dois países". Atento ao fato de que tal medida afetaria principalmente os suíços no exterior, Lukas Reinmann relativizou: "Nem um único suíço no exterior deveria desistir de seu passaporte".

Antoine Belaieff é o homem que encorajou os outros expatriados a manifestarem sua opinião para Thomas Werner no Facebook. Ele está contente que o político tenha esclarecido sua posição. No entanto, segundo ele, a indignação geral é justificada. “Nesse âmbito, é preciso cortar o mal pela raiz”, declara.

Adaptação: Clarice Dominguez

Participe da discussão

Partilhar este artigo

Participe da discussão

Com uma conta SWI, você pode contribuir com comentários em nosso site.

Faça o login ou registre-se aqui.