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"Nossa prioridade é nos tornarmos menos dependentes da indústria aeronáutica"

Olivier Vogelsang

A indústria aeronáutica foi duramente atingida pela crise do coronavírus. Para prestadoras, a sobrevivência depende da diversificação. É o caso de Jean GallayLink externo, uma empresa familiar sediada em Genebra. A presidente do conselho de administração, Laurence de la Serna, conta como pretende investir na produção de tecnologia médica e fabricação de cápsulas de hidrogênio.

Este conteúdo foi publicado em 30. agosto 2021 - 10:00
Philippe Monnier

swissinfo.ch: A senhora teve de demitir em setembro do ano passado 40 funcionários, um quinto dos quadros da empresa. Qual foi a razão?

Laurence de la Serna: A aviação foi muito afetada pela pandemia. A crise veio no pior momento possível, pois setor estava em plena expansão, sobretudo frente às expectativas de uma duplicação da frota civil mundial e a chegada de uma nova geração de motores. Nossa carteira de encomendas estava repleta. Tínhamos acabado de contratar mais pessoal e investido em novas máquinas. Mas a pandemia fez tudo parar.

Para assegurar a perenidade da nossa empresa, com mais de 100 anos de história, infelizmente não tivemos outra escolha a não ser reagir com rapidez e nos redimensionar. Como estamos convencidos de que a recuperação será longa em forma de "U" e não em forma de "V", a redução da jornada de trabalho não foi uma opção viável para as posições mais afetadas.

Mais de um século de história

Fundada em 1898, Jean GallayLink externo fabrica componentes para motores de aeronaves e turbinas industriais a gás. O faturamento anual da empresa familiar sediada em Genebra chega a 30 milhões de francos. Quase 90% da produção é exportada, especialmente para os Estados Unidos. Emprega atualmente 160 pessoas, mas devido à pandemia, 40 foram demitidos em setembro de 2020.

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swissinfo.ch: Neste contexto, como você vê o futuro?

L.S.: Esta crise nos fez refletir profundamente, mas no final nos fortaleceu. Por analogia, durante meus 12 anos como diretora-executiva da empresa tive que lidar com uma infinidade de outras crises e consegui sair delas muito bem.

Por exemplo, em 2009 tivemos a crise financeira quando tivemos que recorrer ao trabalho em horário parcial. Em 2011 foi a forte valorização do franco suíço. Agora, como gerente coloco minha experiência à disposição de Nicolas Lavarini, nosso diretor-executivo desde janeiro de 2020. Na esteira desta crise, uma de nossas principais prioridades é reduzir nossa dependência da indústria aeronáutica, que representa 85% do nosso faturamento.

swissinfo.ch: Uma dependência reduzida da indústria aeroespacial é realista a curto prazo? E que novos setores você está visando?

L.S.: A diversificação planejada por nós é realista a médio prazo, mas deve ser cuidadosamente preparada. Naturalmente, continuaremos a explorar nosso know-how em caldeiraria fina, uma de nossas especialidades. Por enquanto estamos considerando vários novos nichos, em particular a fabricação de cápsulas de hidrogênio para mobilidade não motorizada, bem como o setor de tecnologia medicinal, onde vários projetos estão em andamento.

Biografia

Depois de estudar na Suíça e nos Estados Unidos, incluindo um MBA em finanças em São Francisco, Laurence de la Serna ocupou vários cargos na região de Genebra.

Entre 2008 e 2019 foi diretora-executiva (CEO) da empresa familiar Jean Gallay SA, com sede em Genebra. Atualmente, preside o conselho de administração da empresa.

Laurence de la Serna tem ampla experiência de diretoria nos setores industrial e bancário. Ela também foi presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Genebra (CCIG) e hoje, vice-presidente.

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swissinfo.ch: Jean Gallay é uma prestadora de serviços e não fornecedor dos próprios produtos. Você prevê alguma mudança nesse sentido?

L.S.: Em alguns aspectos estamos fragilizados: dependemos dos nossos clientes, que por vezes são até nossos concorrentes. Portanto pensamos na diversificação a partir da perspectiva de desenvolver nossos próprios produtos. Para isso, investimos no desenvolvimento de novas tecnologias e produtos que gostaríamos de comercializar.

swissinfo.ch: As relações pessoais têm um papel importante para conquistar mercados?

L.S.: Como o setor aviação é extremamente competitivo, não há espaço para camaradagem. A maioria de nossos clientes são grandes fabricantes de motores como Pratt & Whitney, Safran ou Rolls Royce. Seus acionistas têm expectativas financeiras muito altas.

Na minha opinião, nosso maior patrimônio para conquistar e manter clientes é a reputação construída ao longo das décadas. Nossos clientes sabem que somos confiáveis e capazes de produzir peças muito complexas. Além disso, estes fabricantes de motores frequentemente recorrem a Jean Gallay para serviços de engenharia ou para fabricar novas referências.

Por vezes, somos até a única empresa escolhida para fabricar determinadas peças, apesar de que o costume é escolher pelo menos duas prestadoras de serviços.

"A indústria da aviação é extremamente competitiva. Não há espaço para camaradagem.

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swissinfo.ch: Como sua empresa se mantem competitiva com os altos custos de produção na Suíça?

L.S.: Estamos constantemente otimizando nossos processos de produção e investindo em máquinas mais eficientes. Para garantir o futuro a longo prazo da empresa, e a qualidade de nossos serviços, evitamos fornecer qualidade suíça a preços "de baixo custo". Também acredito que o baixo custo gera efeitos colaterais consideráveis, particularmente ao levar em conta as necessidades do meio-ambiente e o problema de desindustrialização dos países desenvolvidos.

swissinfo.ch: Para Jean Gallay, qual é a importância das trocas comerciais por compensação em relação aos futuros aviões de caça do exército suíço?

L.S.: Esse tipo de negócio é muito importante para nós, pois representa 60% dos seis bilhões planejados para a compra desses caças militares. Além disso, pelo menos 30% das trocas comerciais devem ser concedidas a empresas na parte francófona da Suíça. Teremos muito cuidado para garantir que essas porcentagens sejam respeitadas. No passado conseguimos conquistar novos clientes, novos mercados e novas tecnologias através das trocas comerciais. O que é particularmente agradável é que alguns dos clientes adquiridos desta forma se tornaram clientes de longo prazo. Esta é uma grande oportunidade para o desenvolvimento e geração de novos empregos.

swissinfo.ch: A escolha de uma empresa americana (Lockheed Martin) é muitas vezes vista como menos atraente para as trocas comerciais, não?

L.S.: De fato, mas não tenho esse receio uma vez que a Lockheed Martin teria exatamente as mesmas obrigações que os fabricantes europeus.

swissinfo.ch: Sua empresa realiza cerca de 30 processos internos de fabricação e controle. Por que oferecer uma gama tão ampla de serviços?

L.S.: Sei que é muito, mas nossos clientes apreciam o fato de sermos capazes de fazer tudo sozinhos sem recorrer à subcontratação. Isto nos dá controle sobre a qualidade e otimiza o tempo de produção para garantir a entrega dentro do prazo. Algumas vezes reduzimos nossa gama de serviços quando percebemos que um processo não estava mais em harmonia com nosso fluxo de produção. No entanto, nossa estratégia é antes acrescentar tecnologias inovadoras e mais eficientes na produção.

swissinfo.ch: Qual é o perfil médio dos funcionários da empresa?

L.S.: Temos muitos funcionários que fizeram uma formação profissional, por exemplo, como operários de chapa ou fresadoras. Graças à sua experiência, são capazes de fabricar peças muito complexas. Eu admiro imensamente suas habilidades. Também temos pessoas formadas nas universidades, que desempenham um papel fundamental em projetos de engenharia e garantia de qualidade.

swissinfo.ch: Alguns dirigentes empresariais gostam da exposição na mídia. A senhora, por outro lado, é bastante discreta...

L.S.: Embora seja uma empresária, sou discreta por natureza. Cumprir minhas responsabilidades é o que me motiva. Jean Gallay não busca conquistar a clientela através da exposição na mídia. Ao invés disso preferimos participar de feiras ou nos comunicar através da imprensa especializada. Além disso, nossos empregos são interessantes. Não precisamos necessariamente de uma reputação forte para atrair candidatos competentes: os que lhes interessa é a aeronáutica, a alta tecnologia e as tecnologias de precisão.

swissinfo.ch: Genebra tem o renome de abrigar muitas multinacionais e empresas do setor de serviço. Porém o cantão também consegue ser atraente para a indústria?

L.S: É o caso para a indústria dos produtos de luxo. A imagem de Genebra é um trunfo importante. É por isso que nossos vizinhos diretos são fabricantes de relógios famosos como a Patek Philippe ou Rolex. Já para nós, como prestadores de serviços, a situação é mais complicada. Se estivéssemos sediados em outro cantão da Suíça francófona, com aluguéis e salários mais baixos, poderíamos fornecer a mesma qualidade, mas com custos 15% mais baixos. Mas como Jean Gallay foi fundada em Genebra, fazemos questão de permanecer no cantão e contribuir para sua diversidade econômica. A maximização dos lucros não é o objetivo fim da nossa empresa. Somos, sim, uma empresa familiar responsável. Manter empregos locais é um de nossos valores.

swissinfo.ch: De que forma a desistência da Suíça de negociar um acordo-quadro com a União Europeia afeta seus negócios?

L.S.: Quase 90% da nossa produção é exportada. Em grande parte, para países da União Europeia. Portanto acho ruim tudo o que possa enfraquecer as relações bilaterais com o bloco. Neste sentido, devemos absolutamente evitar taxas alfandegárias ou novas barreiras administrativas como o não reconhecimento de normas. Em termos concretos, o abandono das negociações por parte do governo provavelmente excluiu a Suíça do programa de pesquisa "Horizon Europe". E brevemente o setor de geração de energia sentirá a falta de um acordo sobre a eletricidade, especialmente se a Suíça abandonar definitivamente a energia nuclear.

Adaptação: Alexander Thoele

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