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É preciso escolher entre os esportes e os estudos?

A atiradora suíça Nina Christen, que desistiu de seus estudos de biologia para se concentrar em seu treinamento; ela ganhou um ouro e um bronze nos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020. Keystone / Georgios Kefalas

Entre os atletas suíços que participaram dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020, um terço era ou havia sido estudante universitário. Fora do estádio, eles são estudantes “normais” que tentam conciliar aulas e treinamentos esportivos de alto rendimento.

Este conteúdo foi publicado em 07. outubro 2021 - 12:00

De acordo com uma nova pesquisa, “Esporte de Elite na Suíça 2019”, 47% dos atletas entre 25 e 34 anos têm um diploma superior (seja de uma universidade ou instituto federal). Isso é 5% a menos do que o resto da população na mesma faixa etária. Mas esse ainda é um número muito alto, diz Simon Niepmann, o ex-campeão olímpico de remo que dirige o programa “Esporte de Elite e Estudos” para a Swiss Olympic, a organização guarda-chuva do esporte suíço. Ele mesmo, ganhador da medalha de ouro olímpica, conseguiu completar seus estudos em esporte e geografia na Universidade da Basileia, obtendo o diploma de bacharelado em cinco anos, ao invés de três.

Como seu nome sugere, esse programa de apoio visa possibilitar que os atletas desenvolvam uma carreira dupla. No programa, lançado em 2014, uma rede de 42 pessoas é responsável por auxiliar os atletas a conciliarem as exigências do esporte de alto rendimento e seus estudos. Essas pessoas estão espalhadas por quase todas as universidades suíças e ajudam os atletas a planejarem sua formação e suas carreiras esportivas com anos de antecedência.

“Esporte de Elite e Estudos”

Em 2014, a Swiss Olympic lançou o projeto “Esporte de Elite e Estudos”, em colaboração com a Swiss University Sports – a organização guarda-chuva dos clubes esportivos universitários. O projeto tornou-se um programa em 2017 e está afiliado à Swiss Olympic desde 2018. No que diz respeito ao assunto, a Swiss Olympic e a Swiss University Sports mantêm uma estreita colaboração.

Em 2017, a Swiss Olympic e a swissuniversities – a conferência de reitores das universidades suíças – assinaram uma declaração cujos principais objetivos são: promover a possibilidade de estudar meio período, prolongar a duração dos cursos e reduzir a obrigatoriedade da frequência para os atletas de alto rendimento.

Em 2020, as duas organizações assinaram uma segunda declaração, acrescentando a possibilidade de um aprendizado remoto independente do tempo e do lugar, o que funcionou bem nas condições de estudo impostas pela Covid.

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SWI swissinfo.ch: Por que até alguns anos atrás, na Suíça, não havia praticamente nenhuma organização de apoio para atletas que são estudantes?

Simon Niepmann: Antigamente, os atletas que estudavam eram extremamente autônomos. Durante meus estudos, percebi que, na Suíça, não havia diferença entre praticar um esporte de alto rendimento, ter hobby ou um emprego paralelo ao curso. Todos eram considerados ocupações de meio período. Cabia inteiramente aos atletas organizarem o tempo necessário para treinar e estudar.

Na Suíça, o esporte está sendo cada vez mais considerado como uma atividade profissional de tempo integral, mesmo que seu status aqui ainda não seja comparável ao que tem em outros países, onde ser atleta é considerado uma profissão como outra qualquer.

Qual é a pergunta que os jovens atletas lhe fazem mais frequentemente?

A pergunta mais comum é: “Eu pratico um esporte de alto rendimento em escala nacional ou internacional. Que tipo de curso é uma opção para mim?”

Obviamente, não posso dar uma resposta geral, como que todos os atletas podem estudar negócios ou direito. Eu preciso analisar cada caso individualmente. Vai depender do campo de estudo em que os atletas estão interessados e das exigências de seu esporte, mas também do lugar onde eles treinam e da flexibilidade oferecida pela universidade em questão.

Qual é o principal apoio que você oferece aos atletas que estudam?

Planejamento prévio. Isso significa que se deve começar muito cedo a conciliar os esportes de alto rendimento e os estudos. É preciso, por exemplo, identificar em quais fases os estudos exigirão muito tempo e quais serão as fases de treinamento intensivo.

O ideal seria planejar um cronograma até a obtenção do diploma – o planejamento pode ser reajustado a cada seis meses.

A nossa tarefa principal é conscientizar os atletas de que eles devem se planejar e de que há diversas pessoas que podem ajudá-los em sua carreira dupla.

Uma análise da pesquisa Swiss Olympic 2018 mostra que os estudantes que também são atletas de alto rendimento raramente são cadastrados como esportistas quando entram na universidade.

Estamos diante de duas questões. Por um lado, não temos acesso aos dados sobre a educação de todos os atletas; por outro, as universidades nem sempre sabem quais são os estudantes envolvidos em esportes de alto rendimento. Temos muitas possibilidades de melhoria nessa área.

O que estamos tentando fazer é manter os atletas de alto rendimento informados, o mais frequente e amplamente possível, seja através de boletins informativos, clubes esportivos ou outros canais.

Também notamos que muitas vezes há um desejo de trocar experiências entre atletas que estão na universidade e atletas mais jovens, que ainda cursam o ensino médio. Quando os atletas conversam entre si, sua inibição para fazer perguntas simples é menor do que quando eles falam com algum funcionário da universidade. Criamos uma plataforma online de troca para facilitar esse diálogo.

A declaração de 2020 da Swiss Olympic e da swissuniversities esclarece que nem todos os esportes são compatíveis com todos os cursos de graduação. Quais combinações de esporte e estudo são particularmente difíceis?

Eu hesitaria em dizer que um determinado esporte não combina de forma alguma com um determinado curso universitário, porque é sempre importante levar em conta que é uma escolha muito pessoal.

Apesar disso, notamos que os atletas de esportes de inverno têm a tendência a estudar à distância. O fato é que eles viajam durante toda a temporada e, por isso, não têm como frequentar um curso presencial regularmente.

Em termos de disciplinas, as mais difíceis para os atletas certamente são aquelas onde há uma grande parcela de trabalho prático ou aulas em laboratórios, onde os alunos precisam estar num lugar específico num momento específico.

Os EUA e a China há muito tempo lideram os números de medalhas nos Jogos Olímpicos. Na China, por exemplo, os atletas de alto rendimento têm a opção de se concentrar no esporte e, depois, ter condições favoráveis para sua admissão em universidades prestigiosas. Devido à sua obrigação de conciliar esportes e estudos, os atletas suíços estão em desvantagem em relação aos competidores desses países?

Acreditamos que, em muitos casos, é útil que os atletas treinem paralelamente aos seus estudos. Em parte, porque há um número de horas diárias que não são dedicadas ao esporte e nas quais os atletas podem fazer outras coisas, e também porque os estudos são uma distração cognitiva que motiva os atletas de uma maneira diferente.

Além disso, frequentar um ambiente fora do mundo esportivo é importante para muitos atletas. Isso permite uma mudança de ritmo e pode ser enriquecedor e tranquilizador. A preparação para uma carreira pós-esportiva também é um ponto muito importante. Quando se deixa de praticar esporte, é essencial ter um plano B no qual se possa investir sua energia e se desenvolver.

Numa comparação global em termos de apoio aos atletas que estudam, qual seria a colocação da Suíça?

Preferimos nos comparar com países de dimensões semelhantes. Sempre há abordagens diferentes. Na Noruega, as associações esportivas colaboram com universidades específicas. Então, lá você mais ou menos sabe que, se você pratica um determinado esporte, há uma universidade que colabora com a associação nacional ou com o Comitê Olímpico.

Com nossa rede de coordenadores na Suíça, queremos mostrar que os atletas não precisam limitar suas opções. Preferimos tentar manter todas as possibilidades em aberto. É um processo no qual continuaremos a trabalhar.

Uma carreira dupla, conciliando esportes de alto rendimento e estudos, é mais uma questão de fazer concessões ou é uma situação apenas com lados positivos?

Definitivamente, é uma questão de fazer concessões, porque não tem como estar 100% comprometido com o esporte e 100% comprometido com seus estudos ao mesmo tempo. É preciso se planejar e encontrar um equilíbrio. De toda forma, eu não diria que isso desvaloriza os dois aspectos. Estudar ao mesmo tempo não significa necessariamente ter menos sucesso no esporte – muitas vezes significa até o contrário.

Adaptação: Clarice Dominguez

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